8 de nov. de 2010

Tipo reversal russa...

Cague pro ENEM, antes que ele cague em você!

5 de nov. de 2010

Sobre aparência

Saber que a aparência atrai mais do que o conteúdo inaparente me é um alívio. As pessoas ainda buscam a beleza nas coisas. As pessoas precisam de beleza, o que significa que procuram a arte, ainda que no âmbito mais palpável: no rótulo de um produto, na capa de um livro, na beleza de um físico. O abandono do lirismo não me desagrada nesse ponto.
O que me desagrada realmente é o uso da beleza como vil atrativo, enquanto poderia estar recheada de significados, facilitando a sua adesão às mentes que possui. A beleza como meio, e não um fim.
Afinal, era essa a função da arte, comunicar alguma coisa; quem foi que teve a brilhante idéia de fazer da arte algo oco, inócuo?! Percebe a transparência, o vazio de uma arte que se exalta?
É triste quando um organismo precisa de pura beleza para se preencher, tem sede de alvura sem significados, de virgens sem passado. Mas ainda não é o fim dos tempos; ao menos beleza ainda é apreciada.
Haverá quem se canse de pomposos desfiles, de tanta beleza desamparada e, guloso, penetre no impalpável universo de cores em infinita queda. Amor pela desordem. E quem sabe, não tope com o discurso imoderado, o lirismo sôfrego ou o movimento perfeito... é um longo caminho sem volta, é queda livre. E a beleza - é apenas a cereja ao topo da taça. A membrana que envolve o orifício de emersão depois que cicatriza.

3 de nov. de 2010

Máxima 278 (*)

Um bom texto: Palavra Aguda

vExame Nacional do Ensino Médio

Se eu pudesse dar algum conselho para algum vestibulando hoje, seria simples. Você pode até concordar com cada molécula orgânica que vibra em suas fibras que escolher uma carreira logo após o Ensino Médio é muito duro; mas mesmo assim você vai se pressionar horrores para passar no vestibular de primeira. Faz sentido?
Eu acho que todo mundo deveria passar por um ano de pré; faz bem pro ego, faz com que você dê mais valor a suas conquistas. É um ano em que você não trabalha, não constrói ou produz nada durante seu tempo útil; é estar na merda. É o limbo social, o intervalo em sua existência, e o tempo dosado para pensar no tipo de vida que se quer ter.
Leve sempre em consideração que a tendência é piorar, então se você já está insatisfeito agora com o cansaço e com o ritmo de sua rotina, pense na vida acadêmica. Claro que haverá chopadas, veteranos endiabrados e coleguinhas afáveis, mas na hora de sentar pra estudar, amigo, é pra aprender mesmo... E logo depois virão as greves universitárias, os primeiros empregos, a pós que não sai... e a carreira que não vai ser um mar de rosas todos os dias para sempre.
Eu acho que o mais importante do período de pré-vestibular é sempre procurar coisas que te façam esquecer completamente dos estudos. Coisas que cansam mesmo, como esportes, palavras cruzadas, sudoku, música... pra que quando você se deparar com uma apostila de exercícios, queira estar ali resolvendo-os. Porque não adianta forçar quando a palavra de ordem é digressão.
E é sempre uma boa bosta quando até o coleguinha que não fez porra de merda nenhuma o caralho do ano todo passa pra uma curso cool, mas cara, ele não é feliz. O trote dele não foi emocionante. A vida dele está fadada à infelicidade: ele não fez cursinho pré-vestibular.
Sabe o sentido da vida? Ele não encontrou, pode ter certeza.

E outra: sabe o ENEM? CAGA pro ENEM. É uma prova que não testa sua aptidão, seus conhecimentos, sua resistência, nada. Só mede a sua sorte. Então se você não nasceu com a bunda virada pra Lua, leia o horóscopo no jornal antes de sair de casa. Se der zica, nem vai lá fazer a prova, não. Caga.
Cara, quando estou nervosa, eu rio. Eu gargalho pra dentro, que nem um porquinho. Quando vi que não ia dar tempo de fazer a prova de matemática quase que inteira no ano passado, eu chorava de rir. Eu parecia uma cadeira rangendo. Eu cagava no amor próprio. Tenho certeza que muita gente chorou após essa prova, tenho certeza que houveram aquelas que riram também. Mas eu cagava. A menina do meu lado me olhava aterrorizada, tipo quem botou essa merda desse Coringa do meu lado?
Agora, pras outras provas não caga, não. Essas sim são sérias. Essas selecionam os candidatos mais aptos. E não é que nem o slogan da UFF ano passado, ninguém vai ser extinto se não passar. Mas ainda assim, depois de um ano de pré, não é como se jogar a merda no ventilador fosse uma solução tão sensata, ainda que no ventilador dos outros é refresco. Essas são a prova real, o 'novesfora'.
Pra quem está na merda com a auto-estima toda cagada, só digo isso: ego não faz fotossíntese. Então estuda, porque figurinha repetida no ano seguinte não completa álbum.

Nelson Rodrigues que me perdoe

Sinto saudades de fotografar.
Sinto saudades de andar em grupos risonhos, levantando o pó do meio fio junto aos pesados ônibus que passavam a correr.
Sinto saudades de evitar olhares.
Sinto saudades de andar de mãos dadas.
Sinto saudades de sentar meio torta contra uma pilastra suja.
Sinto saudades de deslizar sem obstáculos.
Sinto saudades de me juntar a uma multidão de iguais.
Sinto saudades das piadas de sempre.
Sinto saudades de não saber ao certo o que comíamos.
Sinto saudades daqueles que faziam parte do dia-a-dia apenas por notá-los passarem.
Sinto saudades de encarar o portão fechado, e ter de dar a volta.
Sinto saudades de voltar pra casa no meio da tarde.
Sinto saudades de dosar os gestos para não levantar a saia.

(Sim, eu era muito mais acatada quando usava saia...)

2 de nov. de 2010

Origami

Todo tipo de arrependimento é anacrônico.
Você faz o que acha que deve ser feito, da forma que julgar mais sensato, e aquilo escapa de suas mãos. Agora é um origami fugidio, uma idéia concreta. Você pode tentar desmontar, redobrar, se contorcer, e inverter, mas não adianta aplicar o conhecimento de agora sobre folha dobrada. É com violência que o tempo se torna implacável, com cartas marcadas, e, olhe só, sem jogo roubado.
Esse olhar pretensioso que jogas pra trás engana; só existe porque hoje descobres o brilho diferente de coisas que não sabias, e por conta dessas coisas o presente amassa o passado, denso feito papel alumínio. E quanto ao futuro, acredito que esse se desdobra, deixando leves sulcos a serem percorridos com os dedos.
Escapar dessas marcas é arrependimento; mas só te tornas consciente disto após tatear o papel liso e indiferente.

1 de nov. de 2010

Anel de Malpighi

O anel que eu te dei
era para ser dourado
era para ter durado
sob as formas da lei
daquele que ama
pro ser amado,
antes de
qualquer coisa outra,
de qualquer contrato
Além do esperado
e de tudo o que sei

Amargo, descontado
no final do mês

Lasca de madeira
Vil tronco da terra
que desponta sem firmeza
e se enlaça ao osso, co'o nó
apertado sob a pele
esbranquiçada
esticada
tensionada
e é solto, enfim
a escorregar pelas laterais
de um dedo circuncisado

Amargo, não vingarei mais
sem um amor burguês