30 de jul. de 2011

Queria que o tempo passasse mais devagar, a gente já tem tão pouco tempo, e ter pressa não está ajudando ninguém a realizar nada. Tanta coisa se perde no caminho, que eu já não tenho mais tempo pra retomar.

23 de jul. de 2011

É de uma tristeza sem nome
a gente põe a mão sem tocar o fundo
a gente põe a mão e gela, e treme
e sente roçar pertinho do pescoço
uma sugestão impensável:
que tal ligar pra ela?

É de uma tristeza que vicia
uma tristeza vulgar
tamanha de malícia
um troço sem contornos
a gente nem sabe onde pisa
mas quer caminhar,
caminhar

pra onde, meu deus?
eu nem planos tinha, e era mais fácil
e agora que sempre os tive,
eu me recordo de cada promessa
de cada abraço, de cada piscadela

Onde é que essa tristeza acaba, meu deus?
Onde é seguro pisar?

17 de jul. de 2011

Menino, te botaram no mundo à fórceps. A órbita do seu planeta ninguém descreve por fórmulas, nem admira de luneta. Agora tem só 4 portas e o que compreende lá dentro.
Você está condicionado a ver o lado de fora refratado pelo pára-brisa, tem uma rota já pré-definida, e uma sigla pelo nome. Sabe que nem assim vai chegar a tempo, ou notar o que aconteceu?
O pneu furou, o dia beirava os 40º, o som ambiente ensurdecia, o meio-fio mal-cheiroso. Ao longe, um senhor feio fez sinal pro ônibus que não parou.
Entendo que ninguém nunca lhe perguntou, foi um parto doloroso?
Trouxe o estepe?

11 de jul. de 2011

Eu aborto. Aborto porque não há outro jeito; entre 400 e 500 possíveis pessoas por vida. E imagino que há um deus sádico para querer me reencarnar e permitir que eu continue cometendo esses crimes. Cada metade dessas pessoas poderia ser melhor do que eu jamais fui, e alguém insiste em me reencarnar, para a cada vida ter o espírito cortado por esse pensamento.
Imagino que Deus se sinta incompleto, pois se encarna pessoas só para assistí-las pecar é só porque não o pode. Imagino que se Deus tivesse se criado as coisas seriam diferentes, e eu não precisaria abortar todo mês; o filho que me fosse digno nasceria apenas, da graça divina. Deus não quer que eu me sinta abençoada, mas adora que eu acredite que ainda posso ser. Não faz sentido! Poderia simplesmente abençoar todo mundo que eu conheço, e acreditaria facilmente, me derreteria em preces! Deus é folgado; ou é folgado ou é cruel.
Queria só ver Deus perder pedaços de si, partes maiores que o todo, e pedir perdão todo mês por cada metade de uma pessoa que poderia ter sido.

6 de jul. de 2011

Alguma sensação querendo voltar. O que digo pra ela? que volte mais tarde.
Fosse alguns dias atrás teria me domado com um suborno de auto-satisfação, e se instalaria nos super-cílios, no canto dos lábios, e bastaria para que eu tivesse a expressão entregue à idéia de uma criança sem doce. Olha, não sei o que acontece, só sei que não me toma o dia, só a atenção; o que me protege hoje do que me arrebatava?
É uma sensação de insatisfação, de abertura pro mundo, de ralar joelhos e surrar sapatos. Uma coisa de levar a câmera pra passear, escrever sem caneta, ler um livro só pela pose... quem vai me julgar por isso? Era arrebatador, de largar o que precisasse ser feito! E eu fiz, muitas vezes o fiz, mas só tenho a sensação que dei mais voltas pra chegar no mesmo lugar que teria chego austeramente.
Não dá dó desperdiçar tanta sola?
E aí solidifiquei, fiquei austera, com visitas frequentes de leveza ao portão; e inspirações mascarando o contexto ao pé do ouvido. Se eu atender, o que mais pode entrar? quem mais poderia entrar?

1 de jul. de 2011

Aposentadoria

E a câmera lá, morta, entubada em cima da cama e piscando suas luzinhas enfermas.
Esperando-a ressuscitar do coma que a bateria viciada a submeteu, ou do Alzheimer que o cartão de memória deixou quando fora ejetado num bueiro.
É. É assim que é. E a gente chega até a pensar que somos nós quem tiramos as fotos.