27 de set. de 2009

12/4/1919

"Fica a idéia, mudam-se os rostos."

Como falar de algo pessoal e tão notório? Como contar uma história tão pessoalmente, se milhões de outras vezes já foi estendida e tracionada contra a luz, como um biombo a mostrar apenas a silhueta de seus atores? Como lhes explicar "dentro" da silhueta, se os rostos continuam mudando com o tempo?
Como poderia tentar "formolizar" minha essência se sou só idéia sem rosto? Como me apegar a uma idéia, se é só a silhueta que posso sequer sonhar em ter?

"Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Passa um momento a figura de um homem.
Os seus passos vão com 'ele' na mesma realidade,
mas eu reparo para ele e para eles, e são duas cousas:
O 'homem' vai andando com as suas idéias, falso e estrangeiro,
E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar.
Olho-o de longe sem opinião nenhuma.
Que perfeito que é nele que ele é - o seu corpo,
A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças.
Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar."
A. Caeiro
A mesma idéia a comum a todos os homens, mas de fato, só os atos são palpáveis. Como tornar a idéia real, sensível, senão comprovando-a através de um ato; mexendo sua silhueta, para que eu possa escalar seu espectro e apalpar suas idéias. Já imaginou, atos capazes de ascenderem ao mundo platônico? Que viagem...
"It's kind of dive..."

25 de set. de 2009

ONU

Eu pretendia postar um outro texto de alguns meses atrás, mas parece que o momento dele já se esvaiu, o sentimento agora é outro. São outros, na verdade.

Hoje no colégio a "ONU" começou com uma brincadeira de postar cartas nas mochilas dos alunos do terceiro ano do ensino médio. Todos foram pegos de surpresa, a princípio só debocharam de suas boas intenções. Mas passado esse primeiro instante, vi muitos outros se depararem com aquela idéia etérea e vaga de fim de ano, de curso, de vida escolar, de tudo. Em algum lugar da sala jurei ter ouvido algo estalar, como se aquela brincadeira do Sesop tivesse dado corda em um relógio.
Metade do ensino médio, ou um pouquinho mais do que isso, passei negando a lógica de escrever odes praquele lugarzinho claustrofóbico que acabei criando. Negando e criando, reciprocamente, com convicção.
Hoje toda a lógica e a razão parecem escorrer a favor de uma nova força gravitacional, destituindo tudo o que eu já havia sedimentado. Porque costumava ter mais frescos na memória os dias de 2 anos atrás do que os acontecimentos da semana anterior. Cada partícula que cai macia em novas terras inexploradas nesse Tétris nanométrico se encaixa nessa nova malha.
Por tanto tempo lutei, de dentes cerrados, em diversos embates calados; eu fui briguenta, mesmo sem conseguir me perdoar quando pecava com sinceridade. Eu era um misto de ostentação e discrição oportunas, como qualquer adolescente - ainda mais um estudante do Pedro II!
Queria projetar minhas mãozinhas para além de minhas viseiras, sem tirar os pés do chão sólido em que pisava. Arrastei as sapatilhas com má vontade, tantas vezes para dentro de sala... E arrastei em seguida para fora de sala, sem saber muito bem pra onde ia.
Tive taquicardias horríveis, faltas de ar e dores fisiológicas no peito, que mascarei tantas vezes com a cabeça baixa na carteira. Tantas vezes senti vergonha de ostentar sentimentos tão absurdos, que abusei do silêncio de minha discrição. Ninguém soube, ninguém viu o que eu escondia debaixo de minhas pálpebras.
Naquela época faltou pouco para me tornar esquizofrênica, de tantas coisas que via sozinha, e daí surgiu o nome do blog, reclusão religiosa para controlar a acidez do humor, e não "queimar" ninguém.
Depois desse retiro, passei a me reaproximar regradamente das pessoas que teria que ver todos os dias. Me sentia desenhando um mapa num bloco milimetrado, logo eu que não sei conter meus passos nem minhas afeições!
Lentamente, me posicionei entre ser o que achava que era e ser o que pensavam que eu era. No final, não fez muita diferença, porque o inesperado acaba te entregando. E há sim, duplicidade nessa frase: me entreguei para as pessoas fazerem de mim o que quisessem, enquanto reagia espontanemente ao acaso, sem esconder quem eu devia mesmo ser.
De acaso em acaso, acabei aqui. Os medos não são mais os mesmos, parecem muito mais distantes agora. Temi não passar de ano, o professor não gostar de mim, minha mãe descobrir. Não me importo se ninguém vai rir da minha piada, se eu não conseguir criar um assunto ou se vão achar estranho.
Os medos só se mantiveram em quantidade, e respostas pras inseguranças que tinha antes só se converteram em mais dúvidas. Temo não passar no vestibular, perder contato, deixar passar sem me desapegar. Não ser nada do que pensei que fosse, continuar dependendo de outras pessoas, cair nas garras da vida insossa e comportada - aparentemente inofensiva à moral.
O momento é de ter os pés soltos num terreno fofo, mesmo que "fofura" não seja um de meus dotes. É de adentrar um labirinto-vivo, onde não se pode mais atravessar as paredes. É de cobrar menos do mundo, esperando que esse cobre menos de você.
É o momento de construir a infinita riqueza diante da ausência de tudo.

"Olá 3º anos, faltam 7 semanas para o final do ano letivo. O que vocês farão para torná-las inesquecíveis? ONU."

20 de set. de 2009

O escritor brilhante

O escritor brilhante é sempre aquele que critica a sociedade à qual está inserido. E por incrível que pareça, para que seja brilhante mesmo, seus livros tem que fazer sucesso e todos, ainda que criticados, devem lê-lo.
Não acho que sociedade alguma tenha senso de humor o suficiente para gostar de um livro que a critique severamente. Acho que no fundo ninguém entende seu real fundamento, não na época de seu lançamento.
Escritores brilhantes são mascarados, fomentam a diversão das gerações posteriores, quando o sentido de seus textos já fora revelado e estudado academicamente. Aí, a gente do futuro passa a pensar que estão muito distante daqueles tempos ultrapassados.
Mas deve ser frustrante ou até mesmo muito engraçado para o escritor ver as pessoas consumirem suas idéias desdenhosas, crentes que se tratam de açucaradas histórias de amor.

Jane Austen que o diga...

19 de set. de 2009

Comunicado importante

"A maioria das pessoas nutre uma paixão pela importância"
Fred Smith

Como se ao fazer a média de nossas vidas, as coisas tivessem pesos diferentes. E estatisticamente, algumas coisas mais propensas a se tornarem as medianas, e sempre uma moda em destaque.

Rsrs acho que estou tentando me redimir pelas aulas de matemática mal dormidas (Alexandre que me perdoe...)

Pois bem, tender às importâncias é fechar a mente para todo o resto. Nada mais valer a pena conhecer, tudo de magistral já fora descoberto antes mesmo de saber o resto. Tender às importâncias é esquecer que tudo o que é sólido também se pulveriza, desaba no mapa. Bastaria um gesto, ou a ausência deste, para se sentir carente de algo importante.
Vês como impotência está ligada à importância das coisas - ou à que damos a estas -? Necessidade de se sentir importante então, nem se fala...

11 de set. de 2009

Bá!

As pessoas fazem tanta questão
que me dá preguiça...
Não sou nenhuma isca vanguardista
Sou neutra, vento na pista
Desletrada na pauta
A lenta passada na corrida armamentista
Nada sei para ser "achista"
Etérea, avulsa
Vivo em sonhos com memórias mistas
Se eu não acordar, por favor,
não me belisca.

4 de set. de 2009

"Saudade é o revés de um parto"

"O “nunca mais” é que acaba com a gente, que faz a gente repensar nossas ações, ver que a situação anterior não era tão ruim e que vamos morrer de saudade. "

Muito Melhor do que Tua Ex

Meu cachorro emitia odores inacreditáveis para um cão doméstico. E no entanto, tudo o que quero agora pe sentir seu cheiro de novo.
A gente se sentava na soleira da cozinha, uma de suas orelhas entre meus vários dedos, e ele cheirava à putrefação de qualquer matéria dura nos bons músculos: deslealdade, medo, fraqueza. Era agridoce.
Meu cachorro era puro músculo, e no entanto fazia um TIC TIC engraçado enquanto trotava no cimento.
O fio de sua existência parece um frio fio de aço. Não se rompeu, só está enrolado em meu braço.
Ele era um just-in-time como demandou minha vida, mas urinava tanto nas calotas do Toyota como da Ford. E da Volks, e da Honda... Éramos dois segundos filhos, dois coadjuvantes armando uma peça paralela.
Não me dei conta ainda dos vários "nunca mais", só parece que ele está sempre na sala ao lado enquanto atravesso uma porta. Todo mundo poderia ter falado para eu não chorar por um ex-namorado, sei lá. Mas não por um comprometimento de uma vida inteira. Infelizmente, a dele.
Não está sendo insuportável como não poderia ser. Vai ser uma quebra de rotina. É o conteúdo magmático dentro de minha concha se mexendo, devagar, denso, em cores quentes. Rotação de culturas.





Ps.: Eu odeio geografia.
Ps 2.: Guess what?