Eu pretendia postar um outro texto de alguns meses atrás, mas parece que o momento dele já se esvaiu, o sentimento agora é outro. São outros, na verdade.
Hoje no colégio a "ONU" começou com uma brincadeira de postar cartas nas mochilas dos alunos do terceiro ano do ensino médio. Todos foram pegos de surpresa, a princípio só debocharam de suas boas intenções. Mas passado esse primeiro instante, vi muitos outros se depararem com aquela idéia etérea e vaga de fim de ano, de curso, de vida escolar, de tudo. Em algum lugar da sala jurei ter ouvido algo estalar, como se aquela brincadeira do Sesop tivesse dado corda em um relógio.
Metade do ensino médio, ou um pouquinho mais do que isso, passei negando a lógica de escrever odes praquele lugarzinho claustrofóbico que acabei criando. Negando e criando, reciprocamente, com convicção.
Hoje toda a lógica e a razão parecem escorrer a favor de uma nova força gravitacional, destituindo tudo o que eu já havia sedimentado. Porque costumava ter mais frescos na memória os dias de 2 anos atrás do que os acontecimentos da semana anterior. Cada partícula que cai macia em novas terras inexploradas nesse Tétris nanométrico se encaixa nessa nova malha.
Por tanto tempo lutei, de dentes cerrados, em diversos embates calados; eu fui briguenta, mesmo sem conseguir me perdoar quando pecava com sinceridade. Eu era um misto de ostentação e discrição oportunas, como qualquer adolescente - ainda mais um estudante do Pedro II!
Queria projetar minhas mãozinhas para além de minhas viseiras, sem tirar os pés do chão sólido em que pisava. Arrastei as sapatilhas com má vontade, tantas vezes para dentro de sala... E arrastei em seguida para fora de sala, sem saber muito bem pra onde ia.
Tive taquicardias horríveis, faltas de ar e dores fisiológicas no peito, que mascarei tantas vezes com a cabeça baixa na carteira. Tantas vezes senti vergonha de ostentar sentimentos tão absurdos, que abusei do silêncio de minha discrição. Ninguém soube, ninguém viu o que eu escondia debaixo de minhas pálpebras.
Naquela época faltou pouco para me tornar esquizofrênica, de tantas coisas que via sozinha, e daí surgiu o nome do blog, reclusão religiosa para controlar a acidez do humor, e não "queimar" ninguém.
Depois desse retiro, passei a me reaproximar regradamente das pessoas que teria que ver todos os dias. Me sentia desenhando um mapa num bloco milimetrado, logo eu que não sei conter meus passos nem minhas afeições!
Lentamente, me posicionei entre ser o que achava que era e ser o que pensavam que eu era. No final, não fez muita diferença, porque o inesperado acaba te entregando. E há sim, duplicidade nessa frase: me entreguei para as pessoas fazerem de mim o que quisessem, enquanto reagia espontanemente ao acaso, sem esconder quem eu devia mesmo ser.
De acaso em acaso, acabei aqui. Os medos não são mais os mesmos, parecem muito mais distantes agora. Temi não passar de ano, o professor não gostar de mim, minha mãe descobrir. Não me importo se ninguém vai rir da minha piada, se eu não conseguir criar um assunto ou se vão achar estranho.
Os medos só se mantiveram em quantidade, e respostas pras inseguranças que tinha antes só se converteram em mais dúvidas. Temo não passar no vestibular, perder contato, deixar passar sem me desapegar. Não ser nada do que pensei que fosse, continuar dependendo de outras pessoas, cair nas garras da vida insossa e comportada - aparentemente inofensiva à moral.
O momento é de ter os pés soltos num terreno fofo, mesmo que "fofura" não seja um de meus dotes. É de adentrar um labirinto-vivo, onde não se pode mais atravessar as paredes. É de cobrar menos do mundo, esperando que esse cobre menos de você.
É o momento de construir a infinita riqueza diante da ausência de tudo.
"Olá 3º anos, faltam 7 semanas para o final do ano letivo. O que vocês farão para torná-las inesquecíveis? ONU."