Este é meu rosto. Às vezes implico com ele, às vezes brinco com suas expressões. Se forço algumas rugas ao redor das minhas eventuais espinhas, minhas veias saltam. Às vezes me sinto meio andrógena a seu respeito, mas ninguém deve reparar tanto assim nele. Eu tenho cara de quem esconde alguma coisa; culpo as sobrancelhas sempre convergindo sobre o nariz.
Esse é meu corpo. Ele tem marcas, pêlos encravados, costelas salientes. Ele se comporta elegantemente quando esqueço que o tenho, a ponto de me arrepender de não prestar a devida atenção. Devidamente coberto de pele, e mesmo assim nem todo ele você pode ver. Aprendi a gostar das minhas roupas porque elas podem falar por mim antes que eu precise tomar coragem, muito embora as palavras que eu realmente quisesse dizer se condensassem sobre a pele. Tem gente que só ouve as roupas, tem gente que só degusta a pele, mas ao menos alguém vê as palavras.
Essa é minha mente. Se consigo definí-la, descrevo-a aguda, estridente, ágil. Ela é sensível a quase tudo, nada passa completamente despercebido; grande parte do tempo, ela fica apenas rebolando fora de ritmo, sem par para dançar. Os pensamentos mais fantásticos que tenho são sempre cortados ao meio, e tenho que laboriosamente resgatá-lo do esquecimento, ou da sobreposição de idéias oportunistas. É inconveniente escutar sua própria voz o tempo todo, sabendo que ninguém vai ouvir quando algo importante surgir; ainda mais quando só você é obrigado a ouvir sempre a mesma porcaria todo dia. Eu queria calar a boca da minha cabeça, sério.
Essa é minha rotina. Por horas eu controlo etapas importantes desta, com força, com rédeas, na marra. Os momentos que eu me acho mais bonita só ocorrem quando ninguém está vendo, quando não estou me importando que vejam. E mesmo assim, nem todos eles você pode ver. Eu gostava de ter um tempo reservado para pensar em nada, eu me sentia resolvida e, de repente, eu era mais bonita. Eu gostava de me sentir bonita sem estar bem vestida, fazia parecer fácil amar alguém mesmo que ele não se esforçasse para ser amado. Faz parte da minha rotina brincar com meu rosto, ouvir meu corpo, brigar com minha mente; só que fazer parte do meu dia-a-dia não é suficiente, se sei que para você, e pra todo mundo, tudo isso é transparente.
27 de mar. de 2010
26 de mar. de 2010
Poema torto
Procuro aquilo que me habita
corre e zune na minha cabeça
Mas essa dorzinha sisuda se distancia,
eremita, recolhe os seus da mesa
E faz que não se interessa por mim,
se recolhe e vai sumindo, toda besta.
Se esconde atrás das minhas idéias
E se procuro, já não consigo saber quem era,
quem me dera meus pensamentos
fossem transparentes
É que cada pergunta arrasta consigo uma resposta
E é atrás delas que se esconde essa dorzinha poente
São todos tendenciosos, meu pensamentos,
e ocultam coisinhas irritantes e latentes.
Era para terem sido versos brancos, seria mais Drummond e teria mais graça. Mas, como disse antes, estou escrevendo como quem 'cozinha' Fast Food. Se não gostou, chama a mamãe pra tirar o picles... '¬.¬
corre e zune na minha cabeça
Mas essa dorzinha sisuda se distancia,
eremita, recolhe os seus da mesa
E faz que não se interessa por mim,
se recolhe e vai sumindo, toda besta.
Se esconde atrás das minhas idéias
E se procuro, já não consigo saber quem era,
quem me dera meus pensamentos
fossem transparentes
É que cada pergunta arrasta consigo uma resposta
E é atrás delas que se esconde essa dorzinha poente
São todos tendenciosos, meu pensamentos,
e ocultam coisinhas irritantes e latentes.
Era para terem sido versos brancos, seria mais Drummond e teria mais graça. Mas, como disse antes, estou escrevendo como quem 'cozinha' Fast Food. Se não gostou, chama a mamãe pra tirar o picles... '¬.¬
23 de mar. de 2010
Lua
É menina, não poderia ser diferente:
Ronca com a satisfação de quem hoje foi obediente
Adormece entre os pais, carente,
como quem colhe sedenta um pouco mais de proteção.
O enforcador só ornamenta o pescoço que compreende,
não carece de outra função.
Os olhos se abrem, um de cada vez,
E ela se levanta, requebra, escorrega,
Ela é a gigante alegria por trás de tamanha insensatez.
Ronca com a satisfação de quem hoje foi obediente
Adormece entre os pais, carente,
como quem colhe sedenta um pouco mais de proteção.
O enforcador só ornamenta o pescoço que compreende,
não carece de outra função.
Os olhos se abrem, um de cada vez,
E ela se levanta, requebra, escorrega,
Ela é a gigante alegria por trás de tamanha insensatez.
21 de mar. de 2010
Narrativa sem clímax
Corría-me por entre os olhos idéias enervecidas, sequelas ideológicas, pensamentos bastardos, canhotos. A ansiedade se sobrepunha à dúvida, que se sobrepunha à confusão, que se sobrepunha ao medo; que por acaso acobertava todo o resto.
Sentei-me à beira do dia, esperando-o acontecer. Um pé cruzado sob o corpo permanecia na realidade, o outro pendia no infinito. O sono que trazia comigo se dissolveu em sonhos profundos, na beira do abismo. Pendia desinteressadamente o braço, como quem desenha na água na borda de uma piscina. Pensei que hoje, em especial, algo iria me levar pelas mãos para outro nível de consciência, mas não foi bem assim. O dia continuou sem acontecer do outro lado de minhas viseiras, de minha preguiça. Acordei com marcas pelo rosto, dividindo a testa ao meio e as laterais dos olhos.
Círculos circuncêntricos se projetavam de minha percepção, feito sonar. A maré tratava de levar embora a torrente de informações que queria me inundar. Eu mergulhava no silêncio, imersa por palavras que não eram as minhas; eu me sentia um submarino amarelo em meio à corrida armamentista.
Meu deus! Não sei como terminar esse texto! Minha narrativa nem tem clímax, quanto mais um desfecho! hauahauahhau
Pior que era pra ser uma metáfora sobre minhas manhãs no cursinho, mas tô tão sem perspectiva que nem sei o que poderia salvar minha rotina! Qualquer desfecho que eu desse a esse texto seria, portanto, clichê, que por sua vez seria uma mentira. Socorro...
Sentei-me à beira do dia, esperando-o acontecer. Um pé cruzado sob o corpo permanecia na realidade, o outro pendia no infinito. O sono que trazia comigo se dissolveu em sonhos profundos, na beira do abismo. Pendia desinteressadamente o braço, como quem desenha na água na borda de uma piscina. Pensei que hoje, em especial, algo iria me levar pelas mãos para outro nível de consciência, mas não foi bem assim. O dia continuou sem acontecer do outro lado de minhas viseiras, de minha preguiça. Acordei com marcas pelo rosto, dividindo a testa ao meio e as laterais dos olhos.
Círculos circuncêntricos se projetavam de minha percepção, feito sonar. A maré tratava de levar embora a torrente de informações que queria me inundar. Eu mergulhava no silêncio, imersa por palavras que não eram as minhas; eu me sentia um submarino amarelo em meio à corrida armamentista.
Meu deus! Não sei como terminar esse texto! Minha narrativa nem tem clímax, quanto mais um desfecho! hauahauahhau
Pior que era pra ser uma metáfora sobre minhas manhãs no cursinho, mas tô tão sem perspectiva que nem sei o que poderia salvar minha rotina! Qualquer desfecho que eu desse a esse texto seria, portanto, clichê, que por sua vez seria uma mentira. Socorro...
Sem "Le Petit"
Deparei-me com a pequenez de meu ser. Coração guloso, medos volúveis, lembranças etéreas do que não posso comprovar a veracidade. Um misto de ostentação para impressionar e discrição oportuna.
Deparei-me com olhares sobre os ombros, dedos que procuram a ponta da camiseta ou fios de cabelo fora do lugar. Fora do lugar, sem canto. Desencanto. Desperdício de espaço; pra quem quer partir basta um beijo e um abraço, e lugar pra ir.
Gente miúda vive se preocupando com coisas pequenas, e vive querendo fugir das responsabilidades. Gente grande vai de avião, como se quisesse voltar mais rápido, e ganhar mais responsabilidades. De avião ou não, vou sempre parecer uma gracinha.
Deparei-me comigo mesma ao descer os degraus, abraçada aos joelhos onde a escada faz a curva. O choro que eu esperava não vinha, só o fino apito do nariz entupido. Coçava os pés entre si, fingindo ter paciência com as lágrimas. Gente miúda é assim, tem paciência pra tudo, enquanto gente grande não pode perder tempo. Gente miúda não sabe o tempo que perde.
Deparei-me com aquele olhar mentiroso para dentro de si, que mira sem enxergar. Gente pequena enxerga com conveniência, por medo do que possa ver. Gente grande contorce o cenho, espreme os olhos, procura pelos óculos, mesmo que não vá notar certas miudezas. Gente miúda se interessa tanto por miudezas que perde o olhar dentro de si - são tantos segredos bordados, tantos mistérios enovelados... seus mistérios mais íntimos só têm valor quando emersos à flor da pele.
Gente grande traz nos olhos ceticismo quanto aos grandes mistérios. Traz no temperamento a muda consciência de que conserva mistérios que ninguém nunca descobriu, e de que os levará consigo ao túmulo mesmo que sejam a melhor fração de sua identidade. Gente grande sabe que possui coisas que poderiam torná-los gigantes, mas que ninguém prudente escala gigantes atrás de mais mistérios.
Deparei-me com minha tara por escaladas. com meu discurso ensaiado dentro do elevador. Foi uma rápida ascensão até aqui, para um ser tão pequeno. Foi um grande passo, um êxtase imenso, uma embriguez tão grande que me deparei com minha pequenez. De repente eu não cabia mais dentro de mim, porque na busca pela juventude eterna eu vou encolhendo.
Deparei-me com olhares sobre os ombros, dedos que procuram a ponta da camiseta ou fios de cabelo fora do lugar. Fora do lugar, sem canto. Desencanto. Desperdício de espaço; pra quem quer partir basta um beijo e um abraço, e lugar pra ir.
Gente miúda vive se preocupando com coisas pequenas, e vive querendo fugir das responsabilidades. Gente grande vai de avião, como se quisesse voltar mais rápido, e ganhar mais responsabilidades. De avião ou não, vou sempre parecer uma gracinha.
Deparei-me comigo mesma ao descer os degraus, abraçada aos joelhos onde a escada faz a curva. O choro que eu esperava não vinha, só o fino apito do nariz entupido. Coçava os pés entre si, fingindo ter paciência com as lágrimas. Gente miúda é assim, tem paciência pra tudo, enquanto gente grande não pode perder tempo. Gente miúda não sabe o tempo que perde.
Deparei-me com aquele olhar mentiroso para dentro de si, que mira sem enxergar. Gente pequena enxerga com conveniência, por medo do que possa ver. Gente grande contorce o cenho, espreme os olhos, procura pelos óculos, mesmo que não vá notar certas miudezas. Gente miúda se interessa tanto por miudezas que perde o olhar dentro de si - são tantos segredos bordados, tantos mistérios enovelados... seus mistérios mais íntimos só têm valor quando emersos à flor da pele.
Gente grande traz nos olhos ceticismo quanto aos grandes mistérios. Traz no temperamento a muda consciência de que conserva mistérios que ninguém nunca descobriu, e de que os levará consigo ao túmulo mesmo que sejam a melhor fração de sua identidade. Gente grande sabe que possui coisas que poderiam torná-los gigantes, mas que ninguém prudente escala gigantes atrás de mais mistérios.
Deparei-me com minha tara por escaladas. com meu discurso ensaiado dentro do elevador. Foi uma rápida ascensão até aqui, para um ser tão pequeno. Foi um grande passo, um êxtase imenso, uma embriguez tão grande que me deparei com minha pequenez. De repente eu não cabia mais dentro de mim, porque na busca pela juventude eterna eu vou encolhendo.
17 de mar. de 2010
Almoço
Almoçava tranquilo
sem pesar, sem pesares
prato feito de idéias
vendido aos quilos,
viscosidade de geléia.
Mas aquilo não se pesa!
Não ponha na balança
palavras ainda não proferidas!
Sem talheres, lia um livro
na nova medida:
TransQuilo
Caçamba, acho que o post que mais recebeu comentários nesse blog foi justo o que tinha apenas uma imagem hauhuahauhaauh mas tá valendo, tá valendo.
Bem, só por questão de atualizar o blog:
Solidão necessária,
Essa noite vou solar
Vou solo pelas ruas
sob o inconsolável luar
o brilho dos astros,
assolados pela escuridão
Vai solidificar o Sol
na porta de um bar.
Bem, só por questão de atualizar o blog:
Solidão necessária,
Essa noite vou solar
Vou solo pelas ruas
sob o inconsolável luar
o brilho dos astros,
assolados pela escuridão
Vai solidificar o Sol
na porta de um bar.
16 de mar. de 2010
13 de mar. de 2010
Só mais 5 minutos...
Vivemos na era da precocidade, da infante genialidade, da pré-determinação de um futuro. Quem não se sente tragado pela correnteza ao ver o tempo passar, aparentemente sem ter nenhuma grande realização para mostrar para todo mundo? Vivemos sob a lei do Mínimo Esforço, do sábio proveito do trabalho e do próprio tempo, muito embora a expectativa de vida de grande parte da população tenha crescido drasticamente. Tempo parece sempre ser o problema, mesmo quando não é.
Se até os 19 anos eu não me igualar a Victor Araújo, posso considerar as aulas de piano sem futuro. Se tiver de tentar o vestibular uma 3ª vez, posso me considerar uma causa perdida. Se aos 25 eu não tiver um emprego fixo, do qual meus pais encham a boca para falar sobre, posso me considerar deserdada. Se até os 30 anos não me casar, posso me considerar solteirona. Se aos 40 anos não tiver um filho, posso me considerar infértil. Se aos 60 eu não souber cozinhar aquele prato, posso me considerar indigna de netos.
Eu poderia deixar tudo acontecer no exato momento em que as coisas quiserem acontecer para mim, mas se o fizer, não chamarei a atenção, não terei lugar de destaque, não serei exemplo de ninguém nem exceção à regra. Mesmo que me saia bem nesse processo.
Quem comentaria sobre o mediano estudante, o razoável pianista, o médico que se formou no ano previsto, a mãe que deu à luz na mesma época que todas as suas amigas? E quem comentaria positivamente sobre alguém fora de seu tempo? É piada!
Não à toa esperam que no Ensino Médio já saibamos em qual carreira nos destacaremos como brilhantes profissionais. Desdenham, mas esperam mesmo que os jovens de hoje mudem o mundo. Melhor: que sejam tão poderosos a ponto de dominar o mundo. E sirvam de exemplo, dêem palestras por aí. Que sejam donos de um império, ou de pelo menos uma rede de supermercados. Porque sucesso absoluto se define pela máxima conquista dividida pelo mínimo tempo de carreira, de trabalho, de esforço.
Porque se a gente não se destacar pela precocidade de nossas conquistas - mesmo que a imaturidade não permita a devida responsabilidade -, pelo que seremos lembrados? Por quem seremos considerados sagazes? E é aí, no ponto que dói, que desperta o desespero. O tempo eventualmente vai nos atropelar, mesmo que o tempo em si não seja o problema.
Francamente, você espera que seu filho de 5 anos responda com seriedade o que quer ser quando crescer? Eu queria mesmo era andar pendurada no caminhão de lixo! E se eu pudesse, naquela época já teria dito para não esperarem muito de mim, não...
Se até os 19 anos eu não me igualar a Victor Araújo, posso considerar as aulas de piano sem futuro. Se tiver de tentar o vestibular uma 3ª vez, posso me considerar uma causa perdida. Se aos 25 eu não tiver um emprego fixo, do qual meus pais encham a boca para falar sobre, posso me considerar deserdada. Se até os 30 anos não me casar, posso me considerar solteirona. Se aos 40 anos não tiver um filho, posso me considerar infértil. Se aos 60 eu não souber cozinhar aquele prato, posso me considerar indigna de netos.
Eu poderia deixar tudo acontecer no exato momento em que as coisas quiserem acontecer para mim, mas se o fizer, não chamarei a atenção, não terei lugar de destaque, não serei exemplo de ninguém nem exceção à regra. Mesmo que me saia bem nesse processo.
Quem comentaria sobre o mediano estudante, o razoável pianista, o médico que se formou no ano previsto, a mãe que deu à luz na mesma época que todas as suas amigas? E quem comentaria positivamente sobre alguém fora de seu tempo? É piada!
Não à toa esperam que no Ensino Médio já saibamos em qual carreira nos destacaremos como brilhantes profissionais. Desdenham, mas esperam mesmo que os jovens de hoje mudem o mundo. Melhor: que sejam tão poderosos a ponto de dominar o mundo. E sirvam de exemplo, dêem palestras por aí. Que sejam donos de um império, ou de pelo menos uma rede de supermercados. Porque sucesso absoluto se define pela máxima conquista dividida pelo mínimo tempo de carreira, de trabalho, de esforço.
Porque se a gente não se destacar pela precocidade de nossas conquistas - mesmo que a imaturidade não permita a devida responsabilidade -, pelo que seremos lembrados? Por quem seremos considerados sagazes? E é aí, no ponto que dói, que desperta o desespero. O tempo eventualmente vai nos atropelar, mesmo que o tempo em si não seja o problema.
Francamente, você espera que seu filho de 5 anos responda com seriedade o que quer ser quando crescer? Eu queria mesmo era andar pendurada no caminhão de lixo! E se eu pudesse, naquela época já teria dito para não esperarem muito de mim, não...
9 de mar. de 2010
Eu não sou professor
Eu não sou professor
Para te ensinar a amar,
Também os peixes não precisam de um professor
Que os ensine a nadar
E os pássaros de um professor
Que os ensine a voar.
Nada pelos teus próprios meios.
Voa pelos teus próprios meios.
O amor não tem manuais
E os maiores amantes da história
Não sabiam ler.
Mexeu comigo essa noite... até porque toda menina já foi apaixonada por um professor de colégio, e todo menino já deve ter achado pelo menos uma estagiária 'muito gostosa'.... hauahuahaau mas é verdade!
Tirei desse blog, interessantíssimo, só com traduções de poemas que não se vê sempre por aí: Do trapézio, sem rede
Outro texto fantástico que literalmente me tirou o fôlego (vários duplos sentidos nessa mesma frase rs) foi esse, de um blog que já devo ter recomendado ou citado antes: Respiração - Palavra Aguda
Para te ensinar a amar,
Também os peixes não precisam de um professor
Que os ensine a nadar
E os pássaros de um professor
Que os ensine a voar.
Nada pelos teus próprios meios.
Voa pelos teus próprios meios.
O amor não tem manuais
E os maiores amantes da história
Não sabiam ler.
Nizar Qabbani
Mexeu comigo essa noite... até porque toda menina já foi apaixonada por um professor de colégio, e todo menino já deve ter achado pelo menos uma estagiária 'muito gostosa'.... hauahuahaau mas é verdade!
Tirei desse blog, interessantíssimo, só com traduções de poemas que não se vê sempre por aí: Do trapézio, sem rede
Outro texto fantástico que literalmente me tirou o fôlego (vários duplos sentidos nessa mesma frase rs) foi esse, de um blog que já devo ter recomendado ou citado antes: Respiração - Palavra Aguda
Blé!
"Escrever é fácil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio, coloca idéias."
Pablo Neruda
Escreva você então... =X
8 de mar. de 2010
Assunto Pendente
Não sei porque mantive cativo esse assunto por tanto, principalmente se não consigo me absolver disso nem por um segundo sequer. Como já disse antes, talvez falar sobre um assunto torna-o mais real, e até mais presente em minha consciência, e por isso tenha resistido tanto. Talvez eu só não saiba mais como me dirigir ao meu próprio diário. A caligrafia de outrora já parece de outra pessoa, assim como as gírias e os temas. Não me sinto tão mudada assim, continuo a mesma, mas é como olhar para um amigo imensurável, cuja presença em algum lugar do universo basta para que você se sinta acompanhado, e enxergar um estranho. Falta de tato, frívolos sorrisos enquanto não se vê no outro como num espelho. Voltei ao início, quando se tem um diário em mãos e tudo o que se consegue escrever são várias orações simples, e se pensa que possuem algo revelador embutido ali sobre luz ultravioleta.
De certa forma, não queria que isso passasse em branco. Queria que de alguma forma alguém encontrasse esse escrito, seja por curiosidade ou por necessidade. É desesperador não ter alguém para lhe assegurar que pelo menos uma solução existe. Acho que a pior que pode acontecer é não ter ninguém para te dizer se tem jeito ou não, porque quando alguém lhe diz que não há chance alguma algo cresce dentro de você, um desejo de lutar com mais afinco e de adentrar na ferida até o grito extremo de dor que nunca experimentou antes, tudo isso por pura teimosia. Mas quando não se têm precedentes, todo mundo se dá o direito de opinar mesmo que nada do que digam vá lhe garantir um reflexo, só mais dúvidas que te afundam no mesmo limbo de onde nunca saíste.
Eu queria muito ser médica, e não era um desejo. Eu sentia no meu corpo certo ardor só de ouvir algo a respeito, eu queria fazer algo com minhas próprias mãos que poucos podem mas que pode servir a todos. Eu nunca consegui pôr em palavras para ninguém do por que eu queria tanto ser médica porque ninguém entenderia essa aptidão para servir e se sacrificar por outra pessoa aleatória que tenho. Não me sinto menos “valiosa” do que ninguém, mas se eu pudesse fazer a vida de alguém melhorar apenas por querer lhe fazer bem, sem nada em troca, eu não precisaria de mais nada. As únicas vezes que me senti íntegra e eterna, como nunca achei que me sentiria algum dia, foi quando pude dar algo de mim por nada em troca, sem que sequer soubessem. Esses anos eu podia sentir uma vontade recíproca de chegar até esse estágio e de esse estágio chegar até mim. Eu era uma semente, e uma árvore queria existir dentro de mim.
O tempo passou, até certo ponto conseguia manter em ordem meus pensamentos e minhas dúvidas a respeito dessa certeza toda. Cética como sou, estranho teria sido eu não ter duvidado, mesmo que tivesse a certeza viva em cada uma de minhas células.
Mas o tempo passou, como eu disse, e esse ardor “que corria e zunia dentro dela” fora prematuro demais. Quando chegou o momento certo de ter certeza, tudo o que tive foram frustrações amargas que eu mesma me descuidei em suprimi-las. Eu acho que eu nunca tive que concentrar todas as minhas forças para alcançar nada em minha vida, e talvez por isso, quando esse momento chegou, eu não soubesse por onde começar e nem contra o que de verdade estava lutando. Aquela vontade de avançar, de conquistar, de se deixar fragmentar atrás de um sonho nunca me atingiu, eu sempre deixei as coisas fluírem. A maré sempre me carregou para a praia que eu realmente queria estar, nada do que já conquistei na minha vidinha besta eu tive de ganhar no braço, na ousadia. E acho sim que tudo na vida acontece a seu tempo, e que quando esse momento exato chega na ponta dos pés, nem parece um grande esforço os passos que tomamos para seguir nossos sonhos, a caminhada se torna tão natural como respirar. Como se fosse apenas por isso que você respirasse desde o início, e para isso que continuava respirando.
Pois bem, quando a hora do meu “check point” chegou, meus medos afloravam enquanto as folhas de minha mudinha caíam. Quanto mais eu procurava por minhas certezas, mais espaço abria para as ervas daninhas em meu jardim. Tudo o que sobrou foram folhas doentes que cobriam meu chão de amarelo, e o que antes era tão silencioso e natural tornara cada passo mais barulhento e mais penoso. Eu sabia que minha hora não havia chegado, como bem o sei até hoje, porque eu tinha vários assuntos pendentes antes de ingressar na universidade de meu agrado. Não pense que me sabotei, não pense que no fundo eu não acendesse uma velinha de esperança antes de cada resultado. Mas essa parte irracional a gente pula. Não aprendi nada, não me acrescentou em nada.
O que de fato me acrescentou em alguma coisa foi uma fobia que eu mantinha lacrada o tempo todo, durante todo o processo. Uma vez aberta a Caixa de Pandora, eu não sei mais como fazê-la voltar para dentro, mas me despertou a consciência em relação aos meus “assuntos pendentes”. Tenho hematofobia – hemofobia soa muito humilhante foneticamente -, mas antes isso nunca me incomodou desde que coletassem amostras de meu sangue enquanto deitada. Acontece que desde que iniciei o terceiro ano do Ensino Médio, isso tem se agravado, a ponto de sentir vertiginosas tonturas só de ouvir relatos de acidentes domésticos. Achei que eu simplesmente estava fraca, pois já não dormia direito há algum tempo e estava preocupada com a drenagem daquele gostoso ardor do meu corpo. Sentia cada vez mais que algo estava sendo tirado de mim, e aos pedaços por diversas pessoas. Tipo a partilha da África, sabe? Mas não me deixei desesperar, porque todos os psicosintomas são reversíveis, depende apenas do paciente encontrar uma solução. Acreditem, pesquisei diversas vezes na internet relatos de hematofóbicos praticando medicina e enfermagem, além de outras curiosidades. Mas é diferente falar com um médico, com uma mãe ou com um estranho que é imune a essa adversidade, porque para eles é como se tudo fosse “controlável” ali, na hora H. Não é. Leva tempo e, principalmente, contato com o objeto do medo para driblar sua mente. Lutar contra o inconsciente é uma batalha às cegas. E nunca se poderá fincar uma bandeira em um solo desconhecido. A insurreição domina o “fator surpresa”, além de atacar com o dobro da força anterior. Falando assim, me sinto como uma alcoólatra.
A fobia é um dos empecilhos que me afunda nesse limbo, mas é o mais execrável de todos. Não sei se persisto por uma vaga em Medicina exclusivamente por ser uma carreira concorrida, no meu íntimo sei que há um pouco de orgulho em jogo quanto a isso. Virou questão de honra, mesmo que a única coisa que eu aprenda naquele curso é que odeio Medicina. Talvez eu esteja disputando por uma coisa pela qual posso acabar me apaixonando, mas que a fobia me impeça de exercer. Ninguém sabe. O solo em que piso é tão arenoso que afundo ao arriscar o primeiro impulso para fora desse limbo.
Talvez já esteja na hora de encontrar forças dentro de mim, mesmo que não sejam as mesmas que me alimentavam antes, para lutar por algo. Talvez nem toda oportunidade na vida aparece quando a gente está preparado, e tenhamos que correr aquele quilômetro extra para pegar no embalo. Não sei. Ninguém sabe.
Hoje sei que existem psicoterapias para a hematofobia com resultados a médio prazo, como a terapia cognitiva e a terapia cognitiva instrumental, mas nada garante sua eficácia. Cada paciente é cada paciente. E o que dificulta nessa história é que não posso sair por aí atrás de ambulâncias ou me mutilar para me acostumar com o sangue. Posso até cortar bifes na hora do almoço, mesmo sendo vegetariana, mas não consigo imaginar como conversar com um profissional sobre isso vá me ajudar a lidar com algo que não está no meu dia-a-dia. Deixe a aplicação do método aos profissionais, é tudo o que posso dizer.
Hoje vai ser o meu primeiro dia de cursinho. Turma de Especial de Medicina. Eu quero o primeiro lugar, mas esse é só um desejo. Porque no fundo, não importa. O que eu quero mesmo está oculto por uma cortina que me bloqueia, que me divide por dentro, que me esquarteja. Talvez eu estivesse olhando o tempo todo para o meu objeto de desejo – mais do que isso, meu sonho – mas tenha me tornado, em algum momento, incapaz de reconhecê-lo. Talvez seja essa a chave para o mistério do sumiço do ardor em meu corpo, vá saber. O que importa é que eu queria mesmo falar sobre isso, hoje, agora. O que eu queria mesmo dizer é que eu daria meu sangue para saber para o que exatamente estou olhando, mesmo que tenha que estar deitada para isso.
6 de mar. de 2010
"Não existe rua com pedras mudas nem casa sem ecos."
Góngora
Ainda assim, nessa cidade que não é a minha, há gente que mija nas calçadas e gente que invade casas aos gritos. Não posso deixar de me sentir estranha aqui, a cada passo que dou levo junto ao corpo os meus pertences como que para absolver outra pessoa de um possível crime. Ainda assim, prefiro andar por ruas vazias. Porque todas aquelas vozes nas calçadas, trazendo seus passos secos, não me dizem nada. É através do chão frio e equacionado ou do teto estrelado de goteiras que essa cidade se revela a mim, com seus sussurros ininteligíveis que só se ouve quando se vaga distraído, como um jovem inutilizando sua vida atrai um velho e bom contador de histórias lustrosas.
A minha cidade, salpicada por novos prédios, não me diz respeito, não me diz nada. Sou surda pra ela. O som que ouço é da cidade que procura conforto em um forasteiro, e mesmo assim não pertencerei a esse lugar.
Tem gente que faz xixi na esquina onde ele beijou sua esposa pela primeira vez. Tem gente que faz um fumódromo do quarto que antes só continha um berço e uma velha cômoda. Os vestígios ficam pelas paredes, debaixo do novo tapete e da argamassa. O Rio de Janeiro faz barulho demais, ainda que não se ouça.
Góngora
Ainda assim, nessa cidade que não é a minha, há gente que mija nas calçadas e gente que invade casas aos gritos. Não posso deixar de me sentir estranha aqui, a cada passo que dou levo junto ao corpo os meus pertences como que para absolver outra pessoa de um possível crime. Ainda assim, prefiro andar por ruas vazias. Porque todas aquelas vozes nas calçadas, trazendo seus passos secos, não me dizem nada. É através do chão frio e equacionado ou do teto estrelado de goteiras que essa cidade se revela a mim, com seus sussurros ininteligíveis que só se ouve quando se vaga distraído, como um jovem inutilizando sua vida atrai um velho e bom contador de histórias lustrosas.
A minha cidade, salpicada por novos prédios, não me diz respeito, não me diz nada. Sou surda pra ela. O som que ouço é da cidade que procura conforto em um forasteiro, e mesmo assim não pertencerei a esse lugar.
Tem gente que faz xixi na esquina onde ele beijou sua esposa pela primeira vez. Tem gente que faz um fumódromo do quarto que antes só continha um berço e uma velha cômoda. Os vestígios ficam pelas paredes, debaixo do novo tapete e da argamassa. O Rio de Janeiro faz barulho demais, ainda que não se ouça.
4 de mar. de 2010
"Muito Barulho por Nada"
Sentaram-se juntas. Enfim, sentaram-se. Era o desfecho óbvio para alguém que passa da roleta de um ônibus praticamente vazio, mas ainda assim os outros passageiros esperaram pelo que pareceu a eternidade. Virgínia sentou-se na janela no banco que ela mesma escolhera, sua amiga apenas se deu o esforço de lhe acompanhar. Era um dia chuvoso, e Virgínia tagarelava que daquele lado poderiam ver a praia, e que essa ficava muito mais bonita sem os habituais banhistas.
_São uns porcos, exibindo seus corpinhos que ninguém quer ver, cheios de óleo, suados, nojentos! Quero dizer, são apenas corpos, todo mundo tem um! Mas eles, não, eles... - sua amiga, certo número de anos mais velha, apenas acenou com a cabeça.
Virgínia definitivamente era mais nova que sua companheira, que impecavelmente não deixava fios brancos à mostra como sua amiga indiscreta, cujos cabelos negros e naturais pareciam realçar os fios prateados que vinham à superfície com o vento da janela a sua frente. O homem ali sentado não disse nada, apenas olhou de relance para trás quando Virgínia empurrou bruscamente o vidro e fechou-o. Ela era magra, tinha dedos e punhos magros, rosto fino e delicado, nariz reto e pontudo, como se terminasse com um dedo apontando para frente. Nada ali chamou a atenção do passageiro, exceto quando ela resolvia abrir a boca. A voz daquela mulher era baixa, calma e ritmada, mas ainda assim se destacava em qualquer ambiente devido à altura ridiculamente aguda. Bastava Virgínia abrir a boca, em qualquer lugar, para se tornar incômoda. E como se não bastasse, enunciava seu discurso apenas para preencher o mundo com observações inúteis, e por vezes sem sentido. Parecia estar sempre falando com uma criança ao acrescentar diminutivos às palavras, ainda mais quando interrompia um assunto com frases óbvias. Ela era óbvia, mas como sua aparência, tolerável. Era fácil adivinhar no que estava pensando apenas com um olhar para a sua fisionomia. Nada de interessante.
Passados alguns minutos em silêncio introspectivo, cutuca sua companheira e deixa se recostar sobre a janela, observando sua praia 'limpinha'.
_Dia de chuva é tão sozinho. Todo mundo se esconde, ninguém sai juntinho para um passeio. Puxa, ninguém se diverte! - Virgínia olhava para as gotas que desciam pelo vidro, com uma tristeza tão melancólica que foi azedar o rosto de sua amiga. Não bastava virar o rosto, essa senhora teve de torcer o pescoço para o outro lado, perpetuando seu silêncio surdo-mudo. Um passageiro na outra fileira riu como quem duvida do que acaba de escutar daquela mulher. Cruzou o olhar com a acompanhante de Virgínia, como se buscasse uma explicação para algo tão idiota, mas a senhora apenas manteve sua frieza olhando a janela oposta.
Mais uns metros à frente, e Virgínia cutuca a amiga novamente, dessa vez apontando para umas pedras lá longe:
_Não é incrível como nascem arvorizinhas nessas pedras no meio do mar? É tão bonitinha aquela ali... Aquela não, aquelas três! Deve ser o passarinho, né, que traz a sementinha, um pouquinho de terra, e planta ali, no meio do mar, né? Tão lindas essas plantinhas!
Discretamente, como quem vai trocar a marcha, o motorista esbarra no botão do painel que liga o rádio. Era uma estação de MPB tão relaxante que depois de seu fabuloso discurso, a insossa velha-moça nem notara a senhora que lhe acompanhava perguntar, com certo desdém, se Virgínia não fazia aquele caminho todos os dias pela praia.
Como se não esperasse uma resposta satisfatória de qualquer forma, logo em seguida se pôs a vasculhar a própria bolsa, em busca de algo irrecuperável.
A viagem prosseguiu. Embalados pelo ritmo da música brasileira naquele 'friozinho', os poucos passageiros que se encontravam naquele ônibus foram contagiados por nada mais do que a sonolência. O trocador descansava os tornozelos sobre a roleta, as molas de sua cadeira rugiam enquanto outro passageiro roncava. Até o motorista tirava seus eventuais cochilos.
Cansada de investigar a própria bolsa, a acompanhante fechou as pálpebras cansadas decidida a não ouvir mais nada, prudentemente. Estava farta, e brutalmente arrependida de ter aceitado o inocente convite para um passeio de Virgínia. Aquela mulher podia ser exaustiva; sua presença era até agradável para aquela senhora ao seu lado, até que Virgínia falasse. Era o tipo de pessoa que facilmente se passa por paisagem em um salão se não invocasse sua voz inconfundível. Virgínia, por outro lado, imaginava a necessidade da amiga de ter alguém para conversar, justamente por achá-la calada demais. Imaginava ainda que fosse o tipo de pessoa abandonada pelos filhos durante a velhice, e que passear com aquela senhora era um ato de altruísmo. Quando notou sua acompanhante com os olhos abertos outra vez, provavelmente tentando se localizar, não hesitou em dizer, um tanto irritada e fora de si:
_ Esse prédio já foi tantas coisas! Já foi horti-fruti, imobiliária, lojinha de neném, agora tá fechado de novo! Que ridículo!
Todos no recinto suspiraram, já saudosos do silêncio. O ônibus parou em um ponto e abriu as portas, esperando alguém descer. Um vento frio soprou pelo corredor e encheu os pulmões de nossa encarecida senhora:
_ Quem liga?! é só um prédio, pelo amor de Deus! Você tá sempre falando, sempre cutucandom não percebe? Ninguém se importa com o que você pensa! Cada um faz o que quiser com o corpo, com o prédio ou com seu dia de chuva! Você tá sempre falando, e olham o tempo todo só para a sua estupidez! E eu? Sequer se perguntam quem eu sou, sequer me descrevem! E eu, Virgínia? E eu?!
A senhora se levantou e foi se sentar em outro banco. O único movimento brusco dentro do ônibus era o do vento frio circulando entre os assentos. Aquela senhora, aquela bela senhora, era loira, elegante. Como se poderia esquecer? Levemente maquiada, se chamava...
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