Às vezes me esqueço que quando eu baixar os dedos sobre as teclas, o que acontece depois não traz consigo o som que quero ouvir. Mas alguma coisa há de acontecer, invariavelmente.
Minhas falanges encolheram, meus vasos adentraram na carne. Minhas unhas crescem sem sentido, rumo ao vazio que me beira. Hoje perdi as estribeiras, de repente dei tantas voltas sobre o eixo que acho que estanquei o fio de vida. As gotas de futuro que me preenchiam viajavam por uma reta, escorrendo e transpassando o mármore de minha pele. Mas as vozes dessa manhã transbordam em cheio no meu ego, e o futuro nunca chega.
Queria eu dar vazão a todo o sentido que o dia de hoje teve. Até parece que só eu sei o quanto. Será que ninguém mais percebeu?
Trilha do dia: Busride, de Ry Cooder
The Point of No Return também é uma boa pedida... rs
30 de abr. de 2010
25 de abr. de 2010
Woodstock!
Meu primeiro soneto *.* pra uma das infinitas andanças que fazemos por aí rsrs
Estrelas salpicavam no asfalto
Sob passos tortuosos e exaltados
És a juventude em mim
quando caminhas ao meu lado.
Se às vezes pendo do espaço
vens comigo, salgar os pés no vácuo
Sabes o quanto pode o corpo pesar
se ninguém carregar seus fardos.
É mistura de nada com um pouco de tudo
a felicidade que se descreve em arcos,
É de deixar confuso o mais implícito dos estragos:
Tudo o que vejo no escuro
fica a teu cargo, sem rumo
caminho ao teu lado.
Estrelas salpicavam no asfalto
Sob passos tortuosos e exaltados
És a juventude em mim
quando caminhas ao meu lado.
Se às vezes pendo do espaço
vens comigo, salgar os pés no vácuo
Sabes o quanto pode o corpo pesar
se ninguém carregar seus fardos.
É mistura de nada com um pouco de tudo
a felicidade que se descreve em arcos,
É de deixar confuso o mais implícito dos estragos:
Tudo o que vejo no escuro
fica a teu cargo, sem rumo
caminho ao teu lado.
23 de abr. de 2010
Fal III
"Como se a trilha sonora da vida fosse feita pela Gloria Gaynor, como se meus passos fossem ditados pelo moço do horóscopo, como se houvesse tulipas na minha bandeja de café-da-manhã. Ai meu deus, como se eu tivesse bandeja de café-da-manhã, já que estamos falando nisso. Não tenho direito a tanta perfeição, tanta felicidade e quando me lembro disso, peço pra Gloria cantar mais baixo."
Minúsculos assassinatos e um copo de leite, de Fal Azevedo, Rocco 2008
Minúsculos assassinatos e um copo de leite, de Fal Azevedo, Rocco 2008
Fal II
"Meu bem, as bandeiras que tão ciosamente empunhamos, cantamos hinos, crendo e marchando, viraram pano de chão. Sei disso agora. E o que não fomos, os beijos que não demos, os cigarros que não fumamos juntos e nossas alternativas não trilhadas tremulam no mastro."
Minúsculos assassinatos e um copo de leite, de Fal Azevedo, Rocco 2008
Minúsculos assassinatos e um copo de leite, de Fal Azevedo, Rocco 2008
Fal I
"Espero que você, meu caro, seja capaz de ver além dessa senhora gasta, de seios cansados e cabelos grisalhos. Espero que você possa ver a menina que fui, os sorrisos que dei. Não lhe peço nada além da clarividência."
Minúsculos assassinatos e um copo de leite; de Fal Azevedo, Rocco 2008
22 de abr. de 2010
Foto 11
Há algo de muito poético nessa foto... Algo que revolve o que já foi um dia com muito carinho, e lança pro futuro um friozinho gostoso na barriga... Essa foto sempre me faz pensar.
Hold!
Devo desculpas, a qualquer um que venha a ler isso e a mim mesma, pois é sempre um saco ler algo que não vai acrescentar nenhuma poesia na sua vida. Enfim... é só um desabafo... os bons textos estão no post anterior, faça-se à vontade.
Parei de tirar fotos. Parei de ir ao cinema. Parei de tocar piano. Parei no tempo. Estou no "hold".
Em meados de fevereiro me disseram que eu andava meio vazia, sem emoção em relação a qualquer coisa, indiferente. Sei lá, só lembro que discordei educadamente e mudamos de assunto. No fundo eu entendi o que havia de ser dito, já que eu não enxergava sozinha, mas não podia fraquejar logo antes de começar o ano letivo. Popularmente, "fui levando".
Eu costumava culpar aos outros por tirarem de mim pedacinho por pedacinho, e costumava buscar nos amigos mais próximos algum vestígio de quem eu era antes de alguma catástrofe pessoal, ou eventual falta de tato mesmo. Meus amigos sempre foram meu ponto de partida, independentemente de onde eu estivesse vindo.
Mas agora que estou longe deles, é como se eu estivesse camuflada. Não sei as coisas que gosto, nada me dá vontade, não lembro o que eu estava a fim de comer... São várias pequeníssimas coisitas que fazem você se sentir... você. Sabe? Se você pudesse fazer qualquer coisa agora, com qualquer pessoa em qualquer lugar, você tem uma mínima idéia, certo? Pois bem...
Às vezes eu acho que pulei muitas etapas, dei passos lentos sobre abismos distraída com o suspense de chegar ou não ao outro lado. Acho que observei demais, e aprendi coisas muito rápido, atravessei abismos sem perscrutá-los. O passe-livre que eu tinha pra fazer certas coisas não me acoberta mais, essas burradas que superei por tabela não são mais dignas da minha idade. Aprendi a lição sem errar, sem nem tentar, e acho que algo na didática não fixou bem o conhecimento.
Às vezes conheço sentimentos que nunca experimentei, e sei de coisas que nunca vi. Eu tentei passar isso pra uma poesia recentemente, mas não soube como. Eu culpo a leitura precoce, e a compreensão tardia do que estava realmente acontecendo. Se algum dia eu tive quinze anos, foi por uma semana. E bastou, porque quando uma vez provado o gosto da fruta, não se quer mais suco de caixinha. Eu quero a 'coisa' de fato, aquela que eu já degustei sem nunca ter provado. É difícil saber o que quer tão cedo, saber que vai ser doce ou amargo, saber das coisas antes das coisas despertarem.
Contudo, essa falta de mim, e excesso de coisas hipotéticas, me levou à conclusão de que o hiato atual está me regredindo, me colocando de volta ao meu lugar. Até as palavras me escapam! O vocabulário se dissipa em termos generalizantes e gírias que se assentam no diálogo despretensioso. O convívio com adolescentes fúteis e adultos bobos teve um efeito engraçado em mim. De repente vi como quem vê de fora a maior de minhas imaturidades: achar que sou mais madura que todo mundo. E me vejo sem vontade de fazer nada, de achar tudo muito difícil, de querer desistir... Mas a verdade é que não tenho nada a que me apegar, e dessa vez, nenhum ponto de partida para retomar.
Estou "on hold". Holding on.
Parei de tirar fotos. Parei de ir ao cinema. Parei de tocar piano. Parei no tempo. Estou no "hold".
Em meados de fevereiro me disseram que eu andava meio vazia, sem emoção em relação a qualquer coisa, indiferente. Sei lá, só lembro que discordei educadamente e mudamos de assunto. No fundo eu entendi o que havia de ser dito, já que eu não enxergava sozinha, mas não podia fraquejar logo antes de começar o ano letivo. Popularmente, "fui levando".
Eu costumava culpar aos outros por tirarem de mim pedacinho por pedacinho, e costumava buscar nos amigos mais próximos algum vestígio de quem eu era antes de alguma catástrofe pessoal, ou eventual falta de tato mesmo. Meus amigos sempre foram meu ponto de partida, independentemente de onde eu estivesse vindo.
Mas agora que estou longe deles, é como se eu estivesse camuflada. Não sei as coisas que gosto, nada me dá vontade, não lembro o que eu estava a fim de comer... São várias pequeníssimas coisitas que fazem você se sentir... você. Sabe? Se você pudesse fazer qualquer coisa agora, com qualquer pessoa em qualquer lugar, você tem uma mínima idéia, certo? Pois bem...
Às vezes eu acho que pulei muitas etapas, dei passos lentos sobre abismos distraída com o suspense de chegar ou não ao outro lado. Acho que observei demais, e aprendi coisas muito rápido, atravessei abismos sem perscrutá-los. O passe-livre que eu tinha pra fazer certas coisas não me acoberta mais, essas burradas que superei por tabela não são mais dignas da minha idade. Aprendi a lição sem errar, sem nem tentar, e acho que algo na didática não fixou bem o conhecimento.
Às vezes conheço sentimentos que nunca experimentei, e sei de coisas que nunca vi. Eu tentei passar isso pra uma poesia recentemente, mas não soube como. Eu culpo a leitura precoce, e a compreensão tardia do que estava realmente acontecendo. Se algum dia eu tive quinze anos, foi por uma semana. E bastou, porque quando uma vez provado o gosto da fruta, não se quer mais suco de caixinha. Eu quero a 'coisa' de fato, aquela que eu já degustei sem nunca ter provado. É difícil saber o que quer tão cedo, saber que vai ser doce ou amargo, saber das coisas antes das coisas despertarem.
Contudo, essa falta de mim, e excesso de coisas hipotéticas, me levou à conclusão de que o hiato atual está me regredindo, me colocando de volta ao meu lugar. Até as palavras me escapam! O vocabulário se dissipa em termos generalizantes e gírias que se assentam no diálogo despretensioso. O convívio com adolescentes fúteis e adultos bobos teve um efeito engraçado em mim. De repente vi como quem vê de fora a maior de minhas imaturidades: achar que sou mais madura que todo mundo. E me vejo sem vontade de fazer nada, de achar tudo muito difícil, de querer desistir... Mas a verdade é que não tenho nada a que me apegar, e dessa vez, nenhum ponto de partida para retomar.
Estou "on hold". Holding on.
Crescente otimismo
Faça o seu dever de casa! Recomendo essa semana, em ordem crescente de otimismo :)
"Devolucionista" em Trapézio sem redes
"Suspeita do dia" em A 'vida'
"Empty." em Hidróxido de Bário
"Segunda Chance" em Carta e Verso
"Métrica Alcoolizada" em Efusão Lírica
"Segunda Chance" em Carta e Verso
"Feliz assim, de graça" em A Sombra do Mar
"Devolucionista" em Trapézio sem redes
"Suspeita do dia" em A 'vida'
"Empty." em Hidróxido de Bário
"Segunda Chance" em Carta e Verso
"Métrica Alcoolizada" em Efusão Lírica
"Segunda Chance" em Carta e Verso
"Feliz assim, de graça" em A Sombra do Mar
18 de abr. de 2010
???
Cara, sem vontade nenhuma de escrever, vivendo num mundo sem metáforas... Esses dias o professor deu a dica pra identificá-las no texto, na vida, seu conceito... De boa, metáforas só existem pra tornar as coisas mais toleráveis... Mas claro que se eu levantasse o braço pra dizer isso numa sala de 70 alunos (sim! uns 40 devem ter sido reclassificados pela UFRJ!), um cerco de isolamento se formaria ao meu redor.
É como ter o seu "pulo do gato", mas justo quando imerso na areia. E não é o tempo que se desperdiça, isso se tem de sobra. Não é o momento, não é a vontade investida. Se desperdiça a vida.
O desapontamento é capaz de reeditar o passado com mãos macabras. Gota a gota as memórias vão se fundindo e perdendo as cores. As mesmas memórias que te davam forças antes e alimentaram seus desejos se amarram umas às outras, perdem o sentido até virarem uma poça escura de desperdício, como as tintas que se misturam e escorrem da palheta de cores.
Quando dentro do tubo, as infinitas possibilidades que podemos pintar do nosso jeito são ainda vibrantes e pastosas. Mas uma vez do lado de fora, tem prazo de validade, tudo seca.
Cada tentativa é só sua, e cada falha parece inconcebível para um passado tão doce. Os rostos dos outros dias vividos se fecham. Tudo deixa de parecer o que sempre foi. O passado vira outro, e não ressuscita o dia de hoje.
É como ter o seu "pulo do gato", mas justo quando imerso na areia. E não é o tempo que se desperdiça, isso se tem de sobra. Não é o momento, não é a vontade investida. Se desperdiça a vida.
O desapontamento é capaz de reeditar o passado com mãos macabras. Gota a gota as memórias vão se fundindo e perdendo as cores. As mesmas memórias que te davam forças antes e alimentaram seus desejos se amarram umas às outras, perdem o sentido até virarem uma poça escura de desperdício, como as tintas que se misturam e escorrem da palheta de cores.
Quando dentro do tubo, as infinitas possibilidades que podemos pintar do nosso jeito são ainda vibrantes e pastosas. Mas uma vez do lado de fora, tem prazo de validade, tudo seca.
Cada tentativa é só sua, e cada falha parece inconcebível para um passado tão doce. Os rostos dos outros dias vividos se fecham. Tudo deixa de parecer o que sempre foi. O passado vira outro, e não ressuscita o dia de hoje.
16 de abr. de 2010
Dicotomia
o arranque do ônibus competindo com os fones no ouvido
a má posição no banco competindo com o atrito
o que ele está dizendo e o que já havia aprendido
minha disposição e todo o esforço requerido
a menina que não repete as roupas e meu único vestido
seu bom senso e sua noção de perigo
o tempo que perco e o que não perdem comigo
o que eu quero saber e o que está escrito neste artigo
Percebeu? Tudo é uma questão de encaixe e forma
porque se não fosse, eu estaria "meio" pertinente agora.
a má posição no banco competindo com o atrito
o que ele está dizendo e o que já havia aprendido
minha disposição e todo o esforço requerido
a menina que não repete as roupas e meu único vestido
seu bom senso e sua noção de perigo
o tempo que perco e o que não perdem comigo
o que eu quero saber e o que está escrito neste artigo
Percebeu? Tudo é uma questão de encaixe e forma
porque se não fosse, eu estaria "meio" pertinente agora.
15 de abr. de 2010
Nada
Este poema não me diz nada
não fala comigo, não me remete novas frases,
Só se fomenta com rimas aos pares.
Estás me faltando com a palavra.
não fala comigo, não me remete novas frases,
Só se fomenta com rimas aos pares.
Estás me faltando com a palavra.
Literatura precoce
Esse poema enterrou meu tesouro
gozou e engoliu a chave,
Me contou a verdade
sem que eu bebesse de teu soro.
Esse poema logrou minha mocidade, poupou-me
do sentimentalismo experimental
e a consequência, caro leitor, é grave.
Desabrochei antes da estação
e "a flor da mocidade consumi"
Enrudescida pela que nunca sentira,
na tenra idade envelheci.
Mostrou-me a certeza antes da minha dúvida
agora sei o que quero, e a vontade súbita
não cessa, só arrasta o objeto
pra longe de mim, para além do concreto.
Nunca escrevi um soneto, não sei por quê... rsrsrs
gozou e engoliu a chave,
Me contou a verdade
sem que eu bebesse de teu soro.
Esse poema logrou minha mocidade, poupou-me
do sentimentalismo experimental
e a consequência, caro leitor, é grave.
Desabrochei antes da estação
e "a flor da mocidade consumi"
Enrudescida pela que nunca sentira,
na tenra idade envelheci.
Mostrou-me a certeza antes da minha dúvida
agora sei o que quero, e a vontade súbita
não cessa, só arrasta o objeto
pra longe de mim, para além do concreto.
Nunca escrevi um soneto, não sei por quê... rsrsrs
13 de abr. de 2010
Redação
A tia da secretaria,ao pôr um papel na minha frente, sorri ligeiramente diante da minha preocupação acerca do que me propõe. Ela desfila por entre as carteiras, e repete o mesmo ritual para cada aluno, dá as mesmas instruções inúmeras vezes sem se abater, e sai. Bate a porta atrás de si, e sente-se admirada com os vários rostinhos pensantes curvados sobre os papéis que acaba de distribuir. A tia pensa, hoje cumpri meu papel na vida dessas crianças.
Se há censuras exasperadas no corredor, é porque nenhum barulho pode atrapalhar seus meninos. Seu olhos de mãe pela vidraça são de gosto, que tanto afaga o teu cansaço como te desafia a passar por aquela porta sem terminar a sua tarefa.
De tempos em tempos, o tio da limpeza passa do lado de fora, o rosto franzido olhando para frente, mas os olhos perfurando a vidraça de relance. O Grande Irmão está de olho em você.
Esse ritual tem se repetido com frequência. E me pego escrevendo redações como se fosse postá-las aqui no AA, e talvez isso não interesse ao professor de gramática. Talvez eu devesse destrinchar com calma cada argumento, um por parágrafo, e tornar meu ponto de vista irrefutável - ainda que eu não concorde com ele -, e respeitar os tópicos frasais, e usar as palavras certas, sem metáforas ou intertextualidades com obras não-tão-conceituadas.
Não posso recomendar filmes pro meu avaliador!!! E agora?!
E a sala vai se esvaziando lentamente, o som do ar condicionado vai se tornando mais alto... Eu nem sei quais argumentos escolher, são tantas vertentes que posso desenvolver, de tantas formas posso fugir ao tema!
Vou usar a matéria da aula passada de geografia política! Tomara que não mostrem isso pro respectivo professor... Posso imaginar a cara dele, a piadinha cruel, a voz espalhafatosa... Professores de cursinho são uns engraçadinhos!
Às vezes, fico olhando pela janelinha da porta (aliás, a única que tem na sala de aula) pensando, vida de professor de cursinho deve ser cruel. Quer dizer, você torce por aqueles garotos, você faz parte da conquista deles enquanto usufrui suas juventudes transbordando pelo corredor; e no ano seguinte, serão outros garotos, depois outros... As pessoas vão embora fazer algo da vida delas, mas você está sempre ali, por 20 anos vendo garotos crescerem; e você ali, apenas se atualizando na matéria, fazendo volume na torcida, vendo a vida passar por aquelas portas. A forma como trata esses meninos acaba se tornando quase que metódica, basta alguém se rematricular no cursinho no ano seguinte para notar que as piadinhas gratuitas - que salvam a aula dos contínuos monólogos - são as mesmas. Os exemplos são os mesmos.
É tudo muito lindo, nessa belle èpoque, e impessoal.
As famigeradas dissertações argumentativas também o são. Como querem que eu desenvolva uma argumentação sólida a respeito de qualquer coisa, com embasamento cultural e exemplificações cotidianas em tão pouco? Basta você digitar seu texto para ver que 25 linhas não são nada! Eu que sei! Mas vamos lá, escolher 3 argumentos...
Uma vez o professor de literatura, que já fora corretor de provas federais, disse que nunca leu uma redação até o final, bastava enxergar (ou não) a estrutura que se espera que o candidato desenvolva e seguir pra próxima prova. Percebeu? Impessoalidade. Eles querem que essa geração degenerada seja capaz de produzir cultura, mas instalam um modelo de expressão e limite de linhas para as idéias. Caceta, se você nem vai ler meu texto, como quer avaliar minha capacidade de contextualização, de associação de informações interdisciplinares? Numa prova objetiva, à la ENEM?
Tenho certeza que muitos escritores consagrados seriam incapazes de gabaritar a redação dos vestibulares. Tenho convicção de que todo jovem sabe se expressar de alguma forma, e que tem idéias interessantes sobre esses temas incontornáveis. A questão é que a mecanização do processo de correção não quer que seja escrita literatura, querem textos fáceis de dar nota, e seguir para a próxima.
Concluo: se não houvessem estruturas prontas para a desenvoltura do tema, garanto que os professores de literatura se surpreenderiam com o que os secundaristas tem a dizer, ou como o dizem, cada um a sua forma. Os novos Andrades, Lispectors e Drummonds estão aí em algum lugar, aprendendo a moldar seus textos à nota final.
Se há censuras exasperadas no corredor, é porque nenhum barulho pode atrapalhar seus meninos. Seu olhos de mãe pela vidraça são de gosto, que tanto afaga o teu cansaço como te desafia a passar por aquela porta sem terminar a sua tarefa.
De tempos em tempos, o tio da limpeza passa do lado de fora, o rosto franzido olhando para frente, mas os olhos perfurando a vidraça de relance. O Grande Irmão está de olho em você.
Esse ritual tem se repetido com frequência. E me pego escrevendo redações como se fosse postá-las aqui no AA, e talvez isso não interesse ao professor de gramática. Talvez eu devesse destrinchar com calma cada argumento, um por parágrafo, e tornar meu ponto de vista irrefutável - ainda que eu não concorde com ele -, e respeitar os tópicos frasais, e usar as palavras certas, sem metáforas ou intertextualidades com obras não-tão-conceituadas.
Não posso recomendar filmes pro meu avaliador!!! E agora?!
E a sala vai se esvaziando lentamente, o som do ar condicionado vai se tornando mais alto... Eu nem sei quais argumentos escolher, são tantas vertentes que posso desenvolver, de tantas formas posso fugir ao tema!
Vou usar a matéria da aula passada de geografia política! Tomara que não mostrem isso pro respectivo professor... Posso imaginar a cara dele, a piadinha cruel, a voz espalhafatosa... Professores de cursinho são uns engraçadinhos!
Às vezes, fico olhando pela janelinha da porta (aliás, a única que tem na sala de aula) pensando, vida de professor de cursinho deve ser cruel. Quer dizer, você torce por aqueles garotos, você faz parte da conquista deles enquanto usufrui suas juventudes transbordando pelo corredor; e no ano seguinte, serão outros garotos, depois outros... As pessoas vão embora fazer algo da vida delas, mas você está sempre ali, por 20 anos vendo garotos crescerem; e você ali, apenas se atualizando na matéria, fazendo volume na torcida, vendo a vida passar por aquelas portas. A forma como trata esses meninos acaba se tornando quase que metódica, basta alguém se rematricular no cursinho no ano seguinte para notar que as piadinhas gratuitas - que salvam a aula dos contínuos monólogos - são as mesmas. Os exemplos são os mesmos.
É tudo muito lindo, nessa belle èpoque, e impessoal.
As famigeradas dissertações argumentativas também o são. Como querem que eu desenvolva uma argumentação sólida a respeito de qualquer coisa, com embasamento cultural e exemplificações cotidianas em tão pouco? Basta você digitar seu texto para ver que 25 linhas não são nada! Eu que sei! Mas vamos lá, escolher 3 argumentos...
Uma vez o professor de literatura, que já fora corretor de provas federais, disse que nunca leu uma redação até o final, bastava enxergar (ou não) a estrutura que se espera que o candidato desenvolva e seguir pra próxima prova. Percebeu? Impessoalidade. Eles querem que essa geração degenerada seja capaz de produzir cultura, mas instalam um modelo de expressão e limite de linhas para as idéias. Caceta, se você nem vai ler meu texto, como quer avaliar minha capacidade de contextualização, de associação de informações interdisciplinares? Numa prova objetiva, à la ENEM?
Tenho certeza que muitos escritores consagrados seriam incapazes de gabaritar a redação dos vestibulares. Tenho convicção de que todo jovem sabe se expressar de alguma forma, e que tem idéias interessantes sobre esses temas incontornáveis. A questão é que a mecanização do processo de correção não quer que seja escrita literatura, querem textos fáceis de dar nota, e seguir para a próxima.
Concluo: se não houvessem estruturas prontas para a desenvoltura do tema, garanto que os professores de literatura se surpreenderiam com o que os secundaristas tem a dizer, ou como o dizem, cada um a sua forma. Os novos Andrades, Lispectors e Drummonds estão aí em algum lugar, aprendendo a moldar seus textos à nota final.
11 de abr. de 2010
Filmes!
Esses dias baixei dois filmes muito bons, mas muito tristes também.
O primeiro vai lançar no cinema (ou já lançou, não sei bem), mas sendo uma animação bem polida, é bem capaz de adultos desavisados levarem seus filhos para ver algo um tanto inapropriado para um criança. Se chama Mary & Max.
O segundo, uma média metragem dos anos 50, fez com que me sentisse uma salineira no inverno em menos de 40 minutos de filme rs Se chama Le Rouge Ballon, mas só consegui legendas em inglês ou espanhol para ele. Enfim...
Ah, vi The Breakfast Club também, e acho que algo do meu ensino médio voltou a se condensar dentro de mim. E a trilha dos anos 80, com aqueles teclados suuuper-distorcidos?! ahauhaauahua
Mas ainda assim, Don't you forget about me não saiu da cabeça desde a semana passada rs
Bem, acho que é só isso...
O primeiro vai lançar no cinema (ou já lançou, não sei bem), mas sendo uma animação bem polida, é bem capaz de adultos desavisados levarem seus filhos para ver algo um tanto inapropriado para um criança. Se chama Mary & Max.
O segundo, uma média metragem dos anos 50, fez com que me sentisse uma salineira no inverno em menos de 40 minutos de filme rs Se chama Le Rouge Ballon, mas só consegui legendas em inglês ou espanhol para ele. Enfim...
Ah, vi The Breakfast Club também, e acho que algo do meu ensino médio voltou a se condensar dentro de mim. E a trilha dos anos 80, com aqueles teclados suuuper-distorcidos?! ahauhaauahua
Mas ainda assim, Don't you forget about me não saiu da cabeça desde a semana passada rs
Bem, acho que é só isso...
10 de abr. de 2010
Adamasterra
Um índio apache me contou
Que se ele colasse o ouvido na terra,
Poderia ouvir a ameaça chegando
Mas lá em casa, quem colasse o ouvido
na terra, por ela seria engolido
Mas quem o saberia se tivesse escutado?
Que a ameaça era a própria terra,
Que comeu nosso barraco?
Feito um gigante, abriu a boca com vontade
Pra todo mundo saber que estava acordado
Mas a gente cola o ouvido assim mesmo
Pede ao morro de lixo piedade
Pra devolver cada vizinho soterrado.
Essa noite, como nunca antes
Cada chorinho nessa comunidade
Vai ser ouvido com cuidado
Com o desgostoso respeito
Exclusivo aos negligenciados.
Sei lá, tá faltando alguma coisa nele, mas decidi postar mesmo assim...
6 de abr. de 2010
"Mas a chuva é minha amiga, e eu não vou me resfriar..."
E respondia, arteira, às preocupações da outra, que tão pouco descobrira da vida, dos homens e do mundo.
_Vó, mas e se chover?
_Ué, menina! Molha...
_Vó, mas e se chover?
_Ué, menina! Molha...
Sob a grossa garoa
Me sinto batizada, mesmo longe de meu berço. Fui cativa de um engarrafamento de 3 horas na marginal de um valão; só faltou o túnel encher d'água. (Nunca vou entender esses doces cariocas, que fecham todas as janelas da condução em sincronia ao menor sinal de garoa, mas tá valendo.)
Esses pingos desengonçados, espaçados, pesados... não sabem se comportar como uma fina garoa, que gela sem molhar, que aconchega cada um em seu lugar. Mas não me importei muito, as risadas rolavam soltas, até porque para muitos ficar dentro do ônibus era melhor do que descer, à procura da calçada. Gradativamente os celulares iam tocando, como uma onda agora dentro do automóvel. Os toques estabeleciam uma sinfonia bizarra, se complemetando no ar, se confundindo, e ninguém do outro lado da linha parecia acreditar no engarrafamento em que estávamos metidos. Muitos melhores amigos ajudavam a passar o tempo, muitos planos foram desfeitos, muitos filhos estavam com fome; mas reclamar não vai trazer ninguém mais rápido para casa. Gente, não é desculpa não, é sério, tá? Tá tudo parado!
E quem liga?
Esses pingos desengonçados, espaçados, pesados... não sabem se comportar como uma fina garoa, que gela sem molhar, que aconchega cada um em seu lugar. Mas não me importei muito, as risadas rolavam soltas, até porque para muitos ficar dentro do ônibus era melhor do que descer, à procura da calçada. Gradativamente os celulares iam tocando, como uma onda agora dentro do automóvel. Os toques estabeleciam uma sinfonia bizarra, se complemetando no ar, se confundindo, e ninguém do outro lado da linha parecia acreditar no engarrafamento em que estávamos metidos. Muitos melhores amigos ajudavam a passar o tempo, muitos planos foram desfeitos, muitos filhos estavam com fome; mas reclamar não vai trazer ninguém mais rápido para casa. Gente, não é desculpa não, é sério, tá? Tá tudo parado!
E quem liga?
4 de abr. de 2010
Púrpura
Um dia conheci uma menina cor de areia de praia, ou de miolo de pão. Uma menina doce, de sorriso alvo e palavras contidas. Eu morria de medo de lhe falar e de romper sua candura com minha insensibilidade, porque ela me parecia uma chama sem cor que eu poderia afastar com o sopro de minha voz. Assim, observei-a de longe por muito tempo.
Houve um dia, não sei bem porquê, o vento a trouxe até mim de novo. Eu sentia que meus segredos não escapariam por um suspiro seu, e que de certa forma, ela me revelava seus mistérios com a suavidade que lhe é única. Sua naturalidade parecia desinibir qualquer segredo, da mesma forma que suas palavras haviam lhe dado novas cores. Ela sempre fora tão gentil comigo, tão aconchegante com suas palavras, mas sempre terá tons frios. Ela tem nome de heroína, de musa, mas parece guardar só para si uma dorzinha latente, que só outro dia pude perceber em sua voz, num lapso entre um riso e um suspiro. Ela, que me encoraja a resguardar minhas palavras até a maturação adequada, não gosta de falar de si mesma, portanto nunca lhe perguntei.
Ela vive em um mundo idílico, capaz de inspirar até em mim a sensibilidade de uma poesia, e que conferiu sentido ao seu temperamento de todo amável, que antes me parecia impossível de um ser humano. Contudo, ainda não consigo aceitar que por trás de toda a sua candura e suas diversas cores haja o mínimo vestígio de qualquer obscuridade.
Por isso, se eu pudesse te dar uma cor, te daria a cor da inspiração, da transformação e da intuição espiritual. Eu te daria um mundo inteiro púrpura.
Hihi, essa menina é pura poesia.
Houve um dia, não sei bem porquê, o vento a trouxe até mim de novo. Eu sentia que meus segredos não escapariam por um suspiro seu, e que de certa forma, ela me revelava seus mistérios com a suavidade que lhe é única. Sua naturalidade parecia desinibir qualquer segredo, da mesma forma que suas palavras haviam lhe dado novas cores. Ela sempre fora tão gentil comigo, tão aconchegante com suas palavras, mas sempre terá tons frios. Ela tem nome de heroína, de musa, mas parece guardar só para si uma dorzinha latente, que só outro dia pude perceber em sua voz, num lapso entre um riso e um suspiro. Ela, que me encoraja a resguardar minhas palavras até a maturação adequada, não gosta de falar de si mesma, portanto nunca lhe perguntei.
Ela vive em um mundo idílico, capaz de inspirar até em mim a sensibilidade de uma poesia, e que conferiu sentido ao seu temperamento de todo amável, que antes me parecia impossível de um ser humano. Contudo, ainda não consigo aceitar que por trás de toda a sua candura e suas diversas cores haja o mínimo vestígio de qualquer obscuridade.
Por isso, se eu pudesse te dar uma cor, te daria a cor da inspiração, da transformação e da intuição espiritual. Eu te daria um mundo inteiro púrpura.
Hihi, essa menina é pura poesia.
3 de abr. de 2010
2 de abr. de 2010
Ushuaia
Não sei se já a mencionei antes aqui no AA (hauahauah), mas recomendo a leitura da crônica a seguir ouvindo "Knocked Up", do Kings of Leon. Acho que joguei fora o texto que devia mencioná-la, mas enfim, ela delineia bem na sua harmonia a sensação que tento passar nesse texto (a parte sobre fertilidade só me ocorreu depois ouvindo mais atentamente a letra rs)
Quando esparramo meu corpo estreito na cama uma densa matéria quebranta meus limites geográficos e inunda a imensidão do espaço vazio. Só que sou tão contida dentro de minhas fronteiras que tudo o que me transpassa não tem o menor sentido, se debate em meu leito em desatinado prurido. Esse infinito aborto drena meus excessos viscosos, impermeabiliza minhas extremidades contra o mundo sobrecutâneo e esvazia a pressão interna por alguns minutos; esses acabam se tornando seus propósitos, quando a verdade verdadeira é que infertilizo o meio que cultivo com minha essência. A esterilidade do ambiente me acalma, me unifica, me delimita. Eu não sou possível fora do meu corpo.
Se penso-o, emerge a palavra discrepância. É sonora, é concreta, mas ainda não é precisa. Meu físico se expressa em relevos, de acidente em acidente... se pudesse me ver sem os olhos seria uma cordilheira, de fossas deixadas nos lençóis. E cada um de meus cumes a neve desprendida lubrificaria em obtusa imersão.
Uma lufada de ar se estreita pelos ventres, afaga minhas arestas. O eco é voz. O som adentra as montanhas e insurge como pensamento. Autônomo e recém-nascido, refratando o próprio caminho. Os vales reverberam antes de se preencherem de um valioso silêncio; a neve ali assentada, na noite passada, não deixa marcas nem pegadas. Todas as montanhas respiram juntas sob os poucos raios de sol, criando em toda a paisagem minúsculos espelhinhos luminosos. O vento pára, e respira com todo o conjunto.
Meu corpo irregular se inscreve em seus sulcos, cada fenda é apenas um risco escuro à superfície, e nada mais. São uma manifestação arrogante a todas as coisas que não podem entrar; a todos os animais e plantas que não fazem parte de tanta terra, pedra, água e luz. É um lugar inóspito que não esconde a vida que pulsa dentro de suas fendas, que não tolera tanta inquietude de tantos que não conhecem o valor do silêncio. O silêncio que se expande do ventre à superfície, envolvendo o nascimento de cada pensamento andante que vai percorrer o mundo.
Do meu silencioso ventre nasce o pensamento, já é hora de levantar; de deter os berros do despertador que ainda adormece em paz.
Quando esparramo meu corpo estreito na cama uma densa matéria quebranta meus limites geográficos e inunda a imensidão do espaço vazio. Só que sou tão contida dentro de minhas fronteiras que tudo o que me transpassa não tem o menor sentido, se debate em meu leito em desatinado prurido. Esse infinito aborto drena meus excessos viscosos, impermeabiliza minhas extremidades contra o mundo sobrecutâneo e esvazia a pressão interna por alguns minutos; esses acabam se tornando seus propósitos, quando a verdade verdadeira é que infertilizo o meio que cultivo com minha essência. A esterilidade do ambiente me acalma, me unifica, me delimita. Eu não sou possível fora do meu corpo.
Se penso-o, emerge a palavra discrepância. É sonora, é concreta, mas ainda não é precisa. Meu físico se expressa em relevos, de acidente em acidente... se pudesse me ver sem os olhos seria uma cordilheira, de fossas deixadas nos lençóis. E cada um de meus cumes a neve desprendida lubrificaria em obtusa imersão.
Uma lufada de ar se estreita pelos ventres, afaga minhas arestas. O eco é voz. O som adentra as montanhas e insurge como pensamento. Autônomo e recém-nascido, refratando o próprio caminho. Os vales reverberam antes de se preencherem de um valioso silêncio; a neve ali assentada, na noite passada, não deixa marcas nem pegadas. Todas as montanhas respiram juntas sob os poucos raios de sol, criando em toda a paisagem minúsculos espelhinhos luminosos. O vento pára, e respira com todo o conjunto.
Meu corpo irregular se inscreve em seus sulcos, cada fenda é apenas um risco escuro à superfície, e nada mais. São uma manifestação arrogante a todas as coisas que não podem entrar; a todos os animais e plantas que não fazem parte de tanta terra, pedra, água e luz. É um lugar inóspito que não esconde a vida que pulsa dentro de suas fendas, que não tolera tanta inquietude de tantos que não conhecem o valor do silêncio. O silêncio que se expande do ventre à superfície, envolvendo o nascimento de cada pensamento andante que vai percorrer o mundo.
Do meu silencioso ventre nasce o pensamento, já é hora de levantar; de deter os berros do despertador que ainda adormece em paz.
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