É fácil quedar toda uma teoria comprovando um único erro; porque de tão acostumado aos dogmas, o sujeito queda-se mesmo ao desejo de ser visto como perspicaz, enquanto enxergar a teoria em questão como um todo ou aplicar-lhe uma alternativa parece muito mais fastidioso.
É o que aprecio no Budismo: não há dogmas, tudo há de ser comprovado - não no sentido empírico, mas no degustativo. Claro que ensinamentos mofam, que o ceticismo corre em direção contrária ao tempo; há de surgir um novo buda, para uma nova era, e dizer o que importa para aquele novo momento e seu novo homem.
Mas ora, enfim, só encarando ensinamentos amplos como dogmas que encontra-se facilidade em localizar discursos refutadores brilhantes e inovadores. E ainda que fossem todos resguardados do mofo e do ceticismo, é incrível quanto tempo leva para que cada um desses pensamentos sejam elaborados. Não são os gênios de seu tempo, mas raios esparsos em milênios de existência; são aleatórios e por acaso. Podem dois raios caírem no mesmo lugar, sim, mas ainda melhor do que uma mesma pessoa escrever sobre todas as coisas - ainda que genialmente - talvez fossem raios caírem regularmente, em corpos diferentes; para que novas eras pudessem chegar mais cedo.
Somente assim percebo o tempo como geológico, e como dilui a importância de tudo isso - que são só alguns raios. Não fossem os dogmas, e talvez o tempo rolasse sem que isso fosse por conta de algum dito cujo.
27 de jun. de 2011
24 de jun. de 2011
Sobre leões e reticências
Todo dia cai um ponto em nossa história, tem cheiro de fim. É como matar um leão por dia, e não é; todo dia ele perfura um pouco mais adentro da carne, e me permeia ao que eu não devia pensar, o que eu não quero falar, o que eu não queria rever quando gotejo entregue e magra. É como se todo dia o leão vencesse um pouco mais.
E amanhã vai ser um novo início, como sempre são os dias seguintes, e eu tenho que encontrar uma forma de me manter nesse jogo. Tenho que ser criativa; não sei exatamente o que se encerra dentro de cada frase, mas cada vez que lhe cai um ponto, eu tenho que já estar pensando na próxima. Nossa história não pode parar.
O andar é lascivo, ao decorrer do dia é preguiçoso, mas o leão nunca retira suas batalhas ganhas. É só que um novo dia é uma nova batalha, e o que foi, já foi. Nunca termina em reticências; ou se ganha, ou se perde, não pode haver uma abertura ampla pra que tomes a conclusão que quiser. É assim que tem de ser: palavra ante ponto, palavra ante ponto.
Acho que a questão nem é ser devorada dia após dia, mas nunca deixar que chegue às reticências. Tenho é medo das conclusões a que pode chegar.
Rua das Pretas - No Fim
E amanhã vai ser um novo início, como sempre são os dias seguintes, e eu tenho que encontrar uma forma de me manter nesse jogo. Tenho que ser criativa; não sei exatamente o que se encerra dentro de cada frase, mas cada vez que lhe cai um ponto, eu tenho que já estar pensando na próxima. Nossa história não pode parar.
O andar é lascivo, ao decorrer do dia é preguiçoso, mas o leão nunca retira suas batalhas ganhas. É só que um novo dia é uma nova batalha, e o que foi, já foi. Nunca termina em reticências; ou se ganha, ou se perde, não pode haver uma abertura ampla pra que tomes a conclusão que quiser. É assim que tem de ser: palavra ante ponto, palavra ante ponto.
Acho que a questão nem é ser devorada dia após dia, mas nunca deixar que chegue às reticências. Tenho é medo das conclusões a que pode chegar.
Rua das Pretas - No Fim
18 de jun. de 2011
Des-pé
Confunde-se. Fruta que cai do pé está estragada, não madura. Cai, tropeça, e rola rola rola porque criar limo é um desprestígio social. Rola redonda e macia, rola gigante e pesada sobre as colônias de alguém. Todo mundo no mundo é dono d'algum lugar do chão, e às vezes penso que posso ser essa bola de demolição pra alguém, mesmo que só rolando de passagem.
Já a fruta madura é sempre colhida a tempo, beliscada ainda na árvore por passarinhos e morcegos, que não sujam as mãos com isso. É um privilégio se saber madura e poder olhar tudo de tão alto. E se pensa que quanto mais olhar, mais vai apreender. Mas tão logo cai, e saber de tudo não lhe adianta nada. Devem ter coisas que é melhor não saber, devem ter pássaros que levam frutas para longe; mas o que me conforta é que existem sementes pelas quais vale a pena cair do pé.
Eu gosto do que escrevo. Sentia falta disso.
Já a fruta madura é sempre colhida a tempo, beliscada ainda na árvore por passarinhos e morcegos, que não sujam as mãos com isso. É um privilégio se saber madura e poder olhar tudo de tão alto. E se pensa que quanto mais olhar, mais vai apreender. Mas tão logo cai, e saber de tudo não lhe adianta nada. Devem ter coisas que é melhor não saber, devem ter pássaros que levam frutas para longe; mas o que me conforta é que existem sementes pelas quais vale a pena cair do pé.
Eu gosto do que escrevo. Sentia falta disso.
1 de jun. de 2011
Festa II
Ué,
por que traz
um copo vazio
tão perto do corpo?
Seu brinde é
uma moléstia aos ouvidos,
esmola de atenção;
Encho-te o recipiente
sem manchar a roupa
Logo vi! me esperava
pra que diluísse seu tédio
pra falar de uma festa outra
do seu grupo, desses troca-trocas
de casais, análise combinatória.
Ela dá mobilidade ao cenário
Tem gente que é assim,
ninguém se dá conta
se ficou até o final, o meio
ou se ficou trancada no banheiro
E ela era assim, aguda
incisa sem necessidade
uma figurante memorável
uma das primeiras dos
assassinos de romance,
Ela era uma vítima,
vítima de seu meio,
meio mutante.
por que traz
um copo vazio
tão perto do corpo?
Seu brinde é
uma moléstia aos ouvidos,
esmola de atenção;
Encho-te o recipiente
sem manchar a roupa
Logo vi! me esperava
pra que diluísse seu tédio
pra falar de uma festa outra
do seu grupo, desses troca-trocas
de casais, análise combinatória.
Ela dá mobilidade ao cenário
Tem gente que é assim,
ninguém se dá conta
se ficou até o final, o meio
ou se ficou trancada no banheiro
E ela era assim, aguda
incisa sem necessidade
uma figurante memorável
uma das primeiras dos
assassinos de romance,
Ela era uma vítima,
vítima de seu meio,
meio mutante.
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