27 de jun. de 2011

Sobre budismo e raios

É fácil quedar toda uma teoria comprovando um único erro; porque de tão acostumado aos dogmas, o sujeito queda-se mesmo ao desejo de ser visto como perspicaz, enquanto enxergar a teoria em questão como um todo ou aplicar-lhe uma alternativa parece muito mais fastidioso.
É o que aprecio no Budismo: não há dogmas, tudo há de ser comprovado - não no sentido empírico, mas no degustativo. Claro que ensinamentos mofam, que o ceticismo corre em direção contrária ao tempo; há de surgir um novo buda, para uma nova era, e dizer o que importa para aquele novo momento e seu novo homem.
Mas ora, enfim, só encarando ensinamentos amplos como dogmas que encontra-se facilidade em localizar discursos refutadores brilhantes e inovadores. E ainda que fossem todos resguardados do mofo e do ceticismo, é incrível quanto tempo leva para que cada um desses pensamentos sejam elaborados. Não são os gênios de seu tempo, mas raios esparsos em milênios de existência; são aleatórios e por acaso. Podem dois raios caírem no mesmo lugar, sim, mas ainda melhor do que uma mesma pessoa escrever sobre todas as coisas - ainda que genialmente - talvez fossem raios caírem regularmente, em corpos diferentes; para que novas eras pudessem chegar mais cedo.
Somente assim percebo o tempo como geológico, e como dilui a importância de tudo isso - que são só alguns raios. Não fossem os dogmas, e talvez o tempo rolasse sem que isso fosse por conta de algum dito cujo.

24 de jun. de 2011

Sobre leões e reticências

Todo dia cai um ponto em nossa história, tem cheiro de fim. É como matar um leão por dia, e não é; todo dia ele perfura um pouco mais adentro da carne, e me permeia ao que eu não devia pensar, o que eu não quero falar, o que eu não queria rever quando gotejo entregue e magra. É como se todo dia o leão vencesse um pouco mais.
E amanhã vai ser um novo início, como sempre são os dias seguintes, e eu tenho que encontrar uma forma de me manter nesse jogo. Tenho que ser criativa; não sei exatamente o que se encerra dentro de cada frase, mas cada vez que lhe cai um ponto, eu tenho que já estar pensando na próxima. Nossa história não pode parar.
O andar é lascivo, ao decorrer do dia é preguiçoso, mas o leão nunca retira suas batalhas ganhas. É só que um novo dia é uma nova batalha, e o que foi, já foi. Nunca termina em reticências; ou se ganha, ou se perde, não pode haver uma abertura ampla pra que tomes a conclusão que quiser. É assim que tem de ser: palavra ante ponto, palavra ante ponto.
Acho que a questão nem é ser devorada dia após dia, mas nunca deixar que chegue às reticências. Tenho é medo das conclusões a que pode chegar.

Rua das Pretas - No Fim

18 de jun. de 2011

Des-pé

Confunde-se. Fruta que cai do pé está estragada, não madura. Cai, tropeça, e rola rola rola porque criar limo é um desprestígio social. Rola redonda e macia, rola gigante e pesada sobre as colônias de alguém. Todo mundo no mundo é dono d'algum lugar do chão, e às vezes penso que posso ser essa bola de demolição pra alguém, mesmo que só rolando de passagem.
Já a fruta madura é sempre colhida a tempo, beliscada ainda na árvore por passarinhos e morcegos, que não sujam as mãos com isso. É um privilégio se saber madura e poder olhar tudo de tão alto. E se pensa que quanto mais olhar, mais vai apreender. Mas tão logo cai, e saber de tudo não lhe adianta nada. Devem ter coisas que é melhor não saber, devem ter pássaros que levam frutas para longe; mas o que me conforta é que existem sementes pelas quais vale a pena cair do pé.


Eu gosto do que escrevo. Sentia falta disso.

1 de jun. de 2011

Festa II

Ué,
por que traz
um copo vazio
tão perto do corpo?

Seu brinde é
uma moléstia aos ouvidos,
esmola de atenção;
Encho-te o recipiente
sem manchar a roupa
Logo vi! me esperava
pra que diluísse seu tédio
pra falar de uma festa outra
do seu grupo, desses troca-trocas
de casais, análise combinatória.

Ela dá mobilidade ao cenário
Tem gente que é assim,
ninguém se dá conta
se ficou até o final, o meio
ou se ficou trancada no banheiro
E ela era assim, aguda
incisa sem necessidade
uma figurante memorável
uma das primeiras dos
assassinos de romance,
Ela era uma vítima,
vítima de seu meio,
meio mutante.