Essa foto sempre me faz rir à beça, salva meu dia rs Pena que a câmera era de foco automático...
Foi tirada em Urubamba (aquela mesma do noticiário, na qual se pega o trem para Aguas Calientes). Provavelmente essas pessoas foram fortemente afetadas pelas fortes chuvas no Peru mês passado, mas essa parte já não me faz rir. Essa região era cheia de plantações de milho, o principal alimento dos cuzqueños. Era.
28 de fev. de 2010
Shakespeare e os blogs de hoje
Quando eu era criança, lia Shakespeare mesmo sem ser tarefa da escola. Todo mundo era obrigado a comprar a releitura infantil de todas as suas peças mais famosas para que a professora fizesse perguntas em um determinado dia, escolhido a dedo pouco antes das temidas provas. A gente se preparava como podia, e ainda assim gaguejava quando os olhos da Tia pousava sobre o coleguinha ao lado.
De teimosa, eu sempre pegava a versão original das peças, num livro de couro velho, daqueles que os pais escondem propositalmente no fundo da estante mais alta. Justamente por isso, eu deixava ele acreditar que eu lia a "releitura" que me comprara. Eu gostava mesmo era de sentir que tinha uma coisa muito mágica por trás daquelas palavras que eu não entendia bem, ainda que eu não soubesse o que era. Naquela época, minha cabeça não zunia ao ter de dar voltas e voltas nos mesmos versos.
Quando descobri que quase todas as suas peças se baseavam em obras da Antiguidade, foi o fim de um Império para mim. Simplesmente não entendia por que Shakespeare era tão cultuado, se não fora ele que criara suas próprias histórias. Sempre cultuei a autenticidade das coisas, acima de saber expressá-las. (Imagine que fui analfabeta até os 15, 16 anos, e que restringi muito a lista de livros lidos até então).
Deve ter demorado mais ou menos uns 5 anos desde aquela infante época para que eu entendesse que não adianta nada pensar sozinho sem saber como fazer os outros pensarem junto. Instigar o leitor é tê-lo vulnerável nas mãos, entregue às suas loucuras de forma que possa até complementá-las. Não se faz literatura se não consegues afetar de alguma forma o leitor. O que o incrementa não é o enredo, igual a tantos outros que estariam por vir, mas a forma como o escritor conta, como o cativa para dentro de seu texto.
O verdadeiro escritor não está no enredo, disputando ares com suas personagens, mas do lado de fora facilitando a identificação dos leitores, tornando seu mundo inventado mais palpável àqueles que dele o provam.
Mas escritor que não tem criatividade, é apenas um bom contador de histórias. Se me permitem dizer, Shakespeare foi um excelente contador que me fez querer ser escritora. Ou pelo menos me despertou a vontade plena de escrever, não que eu possua maiores pretensões do que isso.
Pois bem, e os blogs de hoje em dia com isso? Digo logo: tudo. Acordei cedo hoje, com aquela mesma sensação de criança ao ser a primeira a levantar e ver a casa ainda dormindo. Essa sensação deve ter algum parentesco com a sensação adolescente de ser a última a dormir, contemplando a rua respirando adormecida. Enfim... nada pra fazer, comecei a visitar blogs, um dando vazão a outros milhares.
Garanto que a cada 10, uns 7 deve ter como tema l'amour. Blogueiros de todas as idades, localidades, gêneros textuais... Vai soar arrogante, eu sei, mas é sempre a mesma coisa, a mesma procura incessante, a mesma frenesi! Gente com sede ao pote, transbordando de um mesmo assunto! A maioria escrevia bem demais, mas se dedicava exclusivamente a um tema do qual cada um tira suas próprias conclusões experimentando na própria boca, sem tirar nem pôr palavras alheias na mesma.
Não sei, já tive minha época em que não conseguia escrever sobre outra coisa. Talvez eu já seja incapaz de escrever sobre 'amor', só de reeditar textos antigos sobre o tema. Cansei de poluir minhas linhas com o romantismo de outrora, não faz mais sentido. Sei lá sabe, dizem que só se reconhece o amor quando é de verdade, então me mostra que eu só acredito vendo!
Vamos mudar de assunto...
Ficaí uma dica de post, um dos que me tocaram essa manhã (fiquei até intimidada para comentar, 31 comentários!) : Falar de amor, não é amar
Para ler ouvindo: The Story, de Norah Jones, trilha sonora de um dos meus filmes românticos favoritos, My Blueberry Nights - estupidamente traduzido para Um Beijo Roubado.
De teimosa, eu sempre pegava a versão original das peças, num livro de couro velho, daqueles que os pais escondem propositalmente no fundo da estante mais alta. Justamente por isso, eu deixava ele acreditar que eu lia a "releitura" que me comprara. Eu gostava mesmo era de sentir que tinha uma coisa muito mágica por trás daquelas palavras que eu não entendia bem, ainda que eu não soubesse o que era. Naquela época, minha cabeça não zunia ao ter de dar voltas e voltas nos mesmos versos.
Quando descobri que quase todas as suas peças se baseavam em obras da Antiguidade, foi o fim de um Império para mim. Simplesmente não entendia por que Shakespeare era tão cultuado, se não fora ele que criara suas próprias histórias. Sempre cultuei a autenticidade das coisas, acima de saber expressá-las. (Imagine que fui analfabeta até os 15, 16 anos, e que restringi muito a lista de livros lidos até então).
Deve ter demorado mais ou menos uns 5 anos desde aquela infante época para que eu entendesse que não adianta nada pensar sozinho sem saber como fazer os outros pensarem junto. Instigar o leitor é tê-lo vulnerável nas mãos, entregue às suas loucuras de forma que possa até complementá-las. Não se faz literatura se não consegues afetar de alguma forma o leitor. O que o incrementa não é o enredo, igual a tantos outros que estariam por vir, mas a forma como o escritor conta, como o cativa para dentro de seu texto.
O verdadeiro escritor não está no enredo, disputando ares com suas personagens, mas do lado de fora facilitando a identificação dos leitores, tornando seu mundo inventado mais palpável àqueles que dele o provam.
Mas escritor que não tem criatividade, é apenas um bom contador de histórias. Se me permitem dizer, Shakespeare foi um excelente contador que me fez querer ser escritora. Ou pelo menos me despertou a vontade plena de escrever, não que eu possua maiores pretensões do que isso.
Pois bem, e os blogs de hoje em dia com isso? Digo logo: tudo. Acordei cedo hoje, com aquela mesma sensação de criança ao ser a primeira a levantar e ver a casa ainda dormindo. Essa sensação deve ter algum parentesco com a sensação adolescente de ser a última a dormir, contemplando a rua respirando adormecida. Enfim... nada pra fazer, comecei a visitar blogs, um dando vazão a outros milhares.
Garanto que a cada 10, uns 7 deve ter como tema l'amour. Blogueiros de todas as idades, localidades, gêneros textuais... Vai soar arrogante, eu sei, mas é sempre a mesma coisa, a mesma procura incessante, a mesma frenesi! Gente com sede ao pote, transbordando de um mesmo assunto! A maioria escrevia bem demais, mas se dedicava exclusivamente a um tema do qual cada um tira suas próprias conclusões experimentando na própria boca, sem tirar nem pôr palavras alheias na mesma.
Não sei, já tive minha época em que não conseguia escrever sobre outra coisa. Talvez eu já seja incapaz de escrever sobre 'amor', só de reeditar textos antigos sobre o tema. Cansei de poluir minhas linhas com o romantismo de outrora, não faz mais sentido. Sei lá sabe, dizem que só se reconhece o amor quando é de verdade, então me mostra que eu só acredito vendo!
Vamos mudar de assunto...
Ficaí uma dica de post, um dos que me tocaram essa manhã (fiquei até intimidada para comentar, 31 comentários!) : Falar de amor, não é amar
Para ler ouvindo: The Story, de Norah Jones, trilha sonora de um dos meus filmes românticos favoritos, My Blueberry Nights - estupidamente traduzido para Um Beijo Roubado.
23 de fev. de 2010
Everywhere but home
A gente faz um enorme esforço para ser entendido. Aprende novos idiomas, imita sotaques, complementa com gestos... Tanto que até se pensa que todo gringo é meio abobalhado. É que fazem tanto esforço o tempo todo para entender o que está sendo dito que a atenção para todo o resto se dispersa, e até a linguagem corporal que normalmente ficaria contida se torna mais espontânea - e delatora. Se exaurem em um rápido diálogo, como se fizessem força o tempo todo. É difícil conter o nervosismo e a timidez quando se sabe que, naquele lugar que não é o seu, o som que sai da sua boca não salta naturalmente da sua língua, mas sai rasgando suas bochechas. A trepidação das cordas vocais pode ser sentida no estômago, e às vezes até embolar na respiração, feito um recém nascido que apenas grunhe curtos sons que acaba de ouvir.
Ser estrangeiro é nascer de novo como um personagem que não vai te acompanhar até em casa, mas será cúmplice de todas as suas presepadas nas situações mais simples. É se sentir tão feliz quando alguém te compreende que é como se viajasse o mundo inteiro apenas por aquele contato, com aquela pessoa sem rosto e por vezes sem nome, mesmo que o assunto seja dos mais simples. Nessas horas que se pode sentir correr pelo seu corpo o calor do outro, que tanto se esforça para te entender - ou até mesmo te ajudar. Ao flexibilizar a própria língua, essa pessoa que você nunca imaginaria existir faz com que seu dia valesse a pena, e a humanidade tenha restaurado sua gentileza.
Viajar requer coragem, para tentar se encaixar num lugar que esteve muito bem esse tempo todo sem você, e, principalmente, humildade, para transcendendo as semelhanças ver no outro um hábito, um gesto, um indivíduo diferente debaixo de seu véu, chamado cultura nacional. Ninguém é apenas o seu país de origem.
Identidade, no final das contas, é algo engraçado. Em nenhum lugar do mundo longe de casa você sentiria sua autenticidade 'aguada', desbotada, é uma sensação insossa que só se pode ter no epicentro de seu mundo, "hometown". Porque mesmo que eventuais conterrâneos partilhem de suas nostalgias e seus hábitos com você, é quase impossível que sejam nascidos e criados da mesma forma, no mesmo lugar. Às vezes a gente precisa ir para bem longe para perceber que as pessoas que conviviam com a gente são muito diferentes umas das outras, mesmo tendo costumes e estruturas familiares semelhantes. E aos poucos, pensa-se o mesmo a respeito dos nativos do país que você está invadindo por diversão, mera curiosidade.
Mais engraçado do que essa velha noção de identidade, nunca antes despertada com tantas cores diante de você, é que ainda assim você chamará de gringo quem chega a você, e se chamará de estrangeiro quando chega até eles. Não que qualquer um dos termos seja pejorativo hoje em dia, ambos se fazem passar por abobalhados de tempos em tempos, pra não dizer o tempo todo em que carregar uma câmera e um mapa. Ou abrir a boca para tentar se fazer entender.
Ser estrangeiro é nascer de novo como um personagem que não vai te acompanhar até em casa, mas será cúmplice de todas as suas presepadas nas situações mais simples. É se sentir tão feliz quando alguém te compreende que é como se viajasse o mundo inteiro apenas por aquele contato, com aquela pessoa sem rosto e por vezes sem nome, mesmo que o assunto seja dos mais simples. Nessas horas que se pode sentir correr pelo seu corpo o calor do outro, que tanto se esforça para te entender - ou até mesmo te ajudar. Ao flexibilizar a própria língua, essa pessoa que você nunca imaginaria existir faz com que seu dia valesse a pena, e a humanidade tenha restaurado sua gentileza.
Viajar requer coragem, para tentar se encaixar num lugar que esteve muito bem esse tempo todo sem você, e, principalmente, humildade, para transcendendo as semelhanças ver no outro um hábito, um gesto, um indivíduo diferente debaixo de seu véu, chamado cultura nacional. Ninguém é apenas o seu país de origem.
Identidade, no final das contas, é algo engraçado. Em nenhum lugar do mundo longe de casa você sentiria sua autenticidade 'aguada', desbotada, é uma sensação insossa que só se pode ter no epicentro de seu mundo, "hometown". Porque mesmo que eventuais conterrâneos partilhem de suas nostalgias e seus hábitos com você, é quase impossível que sejam nascidos e criados da mesma forma, no mesmo lugar. Às vezes a gente precisa ir para bem longe para perceber que as pessoas que conviviam com a gente são muito diferentes umas das outras, mesmo tendo costumes e estruturas familiares semelhantes. E aos poucos, pensa-se o mesmo a respeito dos nativos do país que você está invadindo por diversão, mera curiosidade.
Mais engraçado do que essa velha noção de identidade, nunca antes despertada com tantas cores diante de você, é que ainda assim você chamará de gringo quem chega a você, e se chamará de estrangeiro quando chega até eles. Não que qualquer um dos termos seja pejorativo hoje em dia, ambos se fazem passar por abobalhados de tempos em tempos, pra não dizer o tempo todo em que carregar uma câmera e um mapa. Ou abrir a boca para tentar se fazer entender.
20 de fev. de 2010
Cantiga
"Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela D'Alva,
rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar."
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela D'Alva,
rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar."
Manuel Bandeira
19 de fev. de 2010
Noite de Fevereiro
Deitei, pisquei. A escuridão em que me encontrava ainda permitia que eu distinguisse formas e objetos. Talvez eu só tivesse uma boa memória do quarto, e nada mais. Uma boa memória não é motivo para irritar ninguém. Não é nenhuma luz direta no rosto. Que bobeira, sim, bobeira. Vá dormir.
Fechei os olhos. Pisquei como quem faz força para mantê-los fechados.
Essa noite eu esperei a hora mais fria da madrugada para dormir. Sentei e esperei obedientemente no escuro de coisas distinguíveis, até decidir tombar um pouquinho para o lado. Me acomodar como desse.
Às vezes meu ventilador mais parece hélices de aeromotor; meu quarto não trepida nem meu encosto me massageia, mas o zumbido é infernal assim mesmo. Os repetidos estalos parecem engasgos de motores que se recusam a parar, mesmo quando o comandante desliga a ignição. Parecem querer alertar que é muito perigoso cessar a rotação em pleno vôo, seu comandante! é queda livre!
Cai macio o bocejo em minha boca, mas o turbilhão das turbinas zunindo aos meus ouvidos não param.
Se minha escuridão tivesse cor, seria amarela. Como se junto com a lâmpada do semáforo, piscasse também a consciência, em um nível de vigília que não alcançaria durante o dia nem se eu quisesse. Amarelo. Atenção. Atenção.
Me virei em posição de repouso. Pisquei. Moldei meu corpo a outro corpo: travesseiro. No verão, ninguém dorme abraçado com ninguém, mas era como se fosse. Jazia um corpo ao meu lado, na minha cama, de temperaturas comparáveis a minha, só mais inanimado, macio e maleável. Abracei-o como pude, deixando a nuca à mostra. Meu cabelo se espalhava feito serpentes de medusa ao vento. Fazia cócegas ao tocar o nariz, então tinha que enterrar bem o rosto no travesseiro. Transpiramos juntos do meu suor, desidratei sozinha.
Em nova posição de submissão - o travesseiro por cima, claro -, podia ouvir vozes. Algo corria e zunia dentro dela, minha cama. Levantei num susto, e silêncio. Tinha gente morando no meu colchão. Farejei o ar em busca do som. Definitivamente, acho que esses zumbidos vieram de dentro do colchão. Tem gente aí?
Um batuque pagão fazia o chão tremer. Mas tanta musicalidade não é motivo para ninguém se irritar, é cultura. Que bobeira, sim, bobeira. Volte a dormir.
Levantei num salto, para encarar com o rosto bem de perto o que o escuro não se importava em deixar exposto. Estava ali, paradinho, meu colchão. Pulei para salvar meu travesseiro daquela aberração, afinal, é o único que permito deitar ao meu lado. Rolamos para longe da cama, berço daquele mal, ostentação do perigo. Quanto medo tive de perdê-lo! Achei que seria seu fim, em face do perigo que corria, tão próximo ao estranho! Estava pálido, suava horrores, meu travesseiro! À salvo, dentro do armário, permitia-me pensar com mais clareza. O que fazer?
"Ei, você aí!"
Anh? Comigo...? Será que ele sabe que estou aqui?!
"Ei, você aí!"
Montei na fera e colei o ouvido em seu dorso, agarrando como podia o lençol. Não sabia o que esperar daquilo, talvez um touro mecânico? Enfim...
"Estou aqui" disse.
"Não vai dar? Não vai dar não?!"
"O quê, meu deus?!"
"Você vai ver a grande confusão..."
"Oi? Você tá me ameaçando?!! Que @#%%& é essa que rima dentro do meu colchão?!"
O chão tremia. Talvez meus joelhos tremessem também. Estava tudo tão quieto, mas as vozes não me deixavam em paz. Que ódio, que maldição! Eu, que tomara banho antes de me deitar, me liquidificava por todos os poros, misturando pânico ao senso prático de sobrevivência. Preciso liquidar desse colchão, decidi.
Peguei a arma mais próxima que encontrei: a tesoura sem ponta do Mickey em cima da escrivaninha. A escuridão amarela piscava freneticamente, mais em tom de advertência do que de enunciação. Não mais que de repente, o que era uma alerta se transformou numa súplica rubra, permanente. Meu quarto ambientava agora luzes de motel. Pare! Pare! Pare!
Apunhalei a fera até perder as contas. Se a Perícia me acusasse de esfaqueá-la certo número de vezes, eu não saberia dizer se estavam sendo justos no laudo. Precisava me livrar das evidências, para toda sorte.
Recolhi o enchimento que espirrou de dentro do estofado, tentei pressioná-lo de volta por um dos buracos. Atravessei o quarto, com o colchão ainda em mãos. Por um momento, me arrependi do que tinha feito, e sabia que me arrependeria do outro crime que estava prestes a cometer. Mas agora, Inês é morta. Literalmente. Essa alma 'batucante' repousava entre outras almas, onde quer que estivesse. E eu não tinha mais nada a ver com isso.
Arranquei as cortinas com tal brutalidade que a luz da rua não fez por menos com minhas retinas. Escancarei as janelas contra a parede, e arremessei a tesoura o mais longe que pude sem ver nada, o que não deve ter sido muita coisa, pois até ouvi esta se espatifar contra o asfalto. Quando apoiei o colchão na janela, convencida de terminar o que comecei, minha mente espaireceu. Minha visão, minha audição, meus sentidos recobraram minha razão. Eu podia sentir o cansaço em cada músculo, em cada osso de meu corpo irradiando. Por um momento, tive vontade de chorar, de deixar que meu corpo se espatifasse no chão e ficar assim, largada, até o sol penetrar essa escuridão fingida. Quando vi o que se passava do lado de fora, caí em mim. Down em mim.
O bloco passava com alegria, arrastando multidões, cerveja e lixo consigo por toda a orla. As risadas, os festins, o spray de espuma, tudo acontecia lá na rua. Inclusive os romances de Carnaval. Aquelas cores dançantes estagnaram-se em meus olhos, aquela música entupiu meus ouvidos assim que os invadiu.
"Ei, você aí!
Me dá um dinheiro aí!
Me dá um dinheiro aí!
Não vai dar?
Não vai dar não?
Você vai ver a grande confusão
Que eu vou fazer bebendo até cair!
Me dá, me dá, me dá, ô!
Me dá um dinheiro aí!"
Fechei os olhos. Pisquei como quem faz força para mantê-los fechados.
Essa noite eu esperei a hora mais fria da madrugada para dormir. Sentei e esperei obedientemente no escuro de coisas distinguíveis, até decidir tombar um pouquinho para o lado. Me acomodar como desse.
Às vezes meu ventilador mais parece hélices de aeromotor; meu quarto não trepida nem meu encosto me massageia, mas o zumbido é infernal assim mesmo. Os repetidos estalos parecem engasgos de motores que se recusam a parar, mesmo quando o comandante desliga a ignição. Parecem querer alertar que é muito perigoso cessar a rotação em pleno vôo, seu comandante! é queda livre!
Cai macio o bocejo em minha boca, mas o turbilhão das turbinas zunindo aos meus ouvidos não param.
Se minha escuridão tivesse cor, seria amarela. Como se junto com a lâmpada do semáforo, piscasse também a consciência, em um nível de vigília que não alcançaria durante o dia nem se eu quisesse. Amarelo. Atenção. Atenção.
Me virei em posição de repouso. Pisquei. Moldei meu corpo a outro corpo: travesseiro. No verão, ninguém dorme abraçado com ninguém, mas era como se fosse. Jazia um corpo ao meu lado, na minha cama, de temperaturas comparáveis a minha, só mais inanimado, macio e maleável. Abracei-o como pude, deixando a nuca à mostra. Meu cabelo se espalhava feito serpentes de medusa ao vento. Fazia cócegas ao tocar o nariz, então tinha que enterrar bem o rosto no travesseiro. Transpiramos juntos do meu suor, desidratei sozinha.
Em nova posição de submissão - o travesseiro por cima, claro -, podia ouvir vozes. Algo corria e zunia dentro dela, minha cama. Levantei num susto, e silêncio. Tinha gente morando no meu colchão. Farejei o ar em busca do som. Definitivamente, acho que esses zumbidos vieram de dentro do colchão. Tem gente aí?
Um batuque pagão fazia o chão tremer. Mas tanta musicalidade não é motivo para ninguém se irritar, é cultura. Que bobeira, sim, bobeira. Volte a dormir.
Levantei num salto, para encarar com o rosto bem de perto o que o escuro não se importava em deixar exposto. Estava ali, paradinho, meu colchão. Pulei para salvar meu travesseiro daquela aberração, afinal, é o único que permito deitar ao meu lado. Rolamos para longe da cama, berço daquele mal, ostentação do perigo. Quanto medo tive de perdê-lo! Achei que seria seu fim, em face do perigo que corria, tão próximo ao estranho! Estava pálido, suava horrores, meu travesseiro! À salvo, dentro do armário, permitia-me pensar com mais clareza. O que fazer?
"Ei, você aí!"
Anh? Comigo...? Será que ele sabe que estou aqui?!
"Ei, você aí!"
Montei na fera e colei o ouvido em seu dorso, agarrando como podia o lençol. Não sabia o que esperar daquilo, talvez um touro mecânico? Enfim...
"Estou aqui" disse.
"Não vai dar? Não vai dar não?!"
"O quê, meu deus?!"
"Você vai ver a grande confusão..."
"Oi? Você tá me ameaçando?!! Que @#%%& é essa que rima dentro do meu colchão?!"
O chão tremia. Talvez meus joelhos tremessem também. Estava tudo tão quieto, mas as vozes não me deixavam em paz. Que ódio, que maldição! Eu, que tomara banho antes de me deitar, me liquidificava por todos os poros, misturando pânico ao senso prático de sobrevivência. Preciso liquidar desse colchão, decidi.
Peguei a arma mais próxima que encontrei: a tesoura sem ponta do Mickey em cima da escrivaninha. A escuridão amarela piscava freneticamente, mais em tom de advertência do que de enunciação. Não mais que de repente, o que era uma alerta se transformou numa súplica rubra, permanente. Meu quarto ambientava agora luzes de motel. Pare! Pare! Pare!
Apunhalei a fera até perder as contas. Se a Perícia me acusasse de esfaqueá-la certo número de vezes, eu não saberia dizer se estavam sendo justos no laudo. Precisava me livrar das evidências, para toda sorte.
Recolhi o enchimento que espirrou de dentro do estofado, tentei pressioná-lo de volta por um dos buracos. Atravessei o quarto, com o colchão ainda em mãos. Por um momento, me arrependi do que tinha feito, e sabia que me arrependeria do outro crime que estava prestes a cometer. Mas agora, Inês é morta. Literalmente. Essa alma 'batucante' repousava entre outras almas, onde quer que estivesse. E eu não tinha mais nada a ver com isso.
Arranquei as cortinas com tal brutalidade que a luz da rua não fez por menos com minhas retinas. Escancarei as janelas contra a parede, e arremessei a tesoura o mais longe que pude sem ver nada, o que não deve ter sido muita coisa, pois até ouvi esta se espatifar contra o asfalto. Quando apoiei o colchão na janela, convencida de terminar o que comecei, minha mente espaireceu. Minha visão, minha audição, meus sentidos recobraram minha razão. Eu podia sentir o cansaço em cada músculo, em cada osso de meu corpo irradiando. Por um momento, tive vontade de chorar, de deixar que meu corpo se espatifasse no chão e ficar assim, largada, até o sol penetrar essa escuridão fingida. Quando vi o que se passava do lado de fora, caí em mim. Down em mim.
O bloco passava com alegria, arrastando multidões, cerveja e lixo consigo por toda a orla. As risadas, os festins, o spray de espuma, tudo acontecia lá na rua. Inclusive os romances de Carnaval. Aquelas cores dançantes estagnaram-se em meus olhos, aquela música entupiu meus ouvidos assim que os invadiu.
"Ei, você aí!
Me dá um dinheiro aí!
Me dá um dinheiro aí!
Não vai dar?
Não vai dar não?
Você vai ver a grande confusão
Que eu vou fazer bebendo até cair!
Me dá, me dá, me dá, ô!
Me dá um dinheiro aí!"
18 de fev. de 2010
Vegetarianismo
Já que estou produzindo literatura que nem fast food... Acho que tá valendo!
Não sou vegetariana. Evito comer carne apenas porque me sinto bem dessa forma. Me sinto leve, sem culpa e mais bem disposta. Às vezes acho que a gente não pensa muito no que está pondo para dentro do corpo. Como diz um amigo meu, você não comeria seu cachorro, mesmo que se dispusesse entre um garfo e uma faca. As pessoas não pensam muito no que comem, e se pensassem muito, acabariam não comendo nada. Porque até comer salada contribui para o aumento da quantidade de gás carbônico na atmosfera. (E olha que tem gente que acredita que isso não tem nada a ver com o aquecimento global!)
Enfim, acho uma palhaçada toda essa necessidade de auto-afirmação dos vegetarianos extremistas. Escolher o que você come é tão polêmico quanto escolher uma religião; é algo que se compreende entre os gostos e os ideais do indivíduo.E ainda assim, se todos pensassem bem sem opiniões pré-formadas, acho que ninguém teria uma religião!
Ninguém vai me fazer acreditar em carne, nem comer Deus! Ninguém!
Ops...
Vale a pena conferir: A truta, de Luís Fernando Veríssimo (o blog também é bem interessante...)
Não sou vegetariana. Evito comer carne apenas porque me sinto bem dessa forma. Me sinto leve, sem culpa e mais bem disposta. Às vezes acho que a gente não pensa muito no que está pondo para dentro do corpo. Como diz um amigo meu, você não comeria seu cachorro, mesmo que se dispusesse entre um garfo e uma faca. As pessoas não pensam muito no que comem, e se pensassem muito, acabariam não comendo nada. Porque até comer salada contribui para o aumento da quantidade de gás carbônico na atmosfera. (E olha que tem gente que acredita que isso não tem nada a ver com o aquecimento global!)
Enfim, acho uma palhaçada toda essa necessidade de auto-afirmação dos vegetarianos extremistas. Escolher o que você come é tão polêmico quanto escolher uma religião; é algo que se compreende entre os gostos e os ideais do indivíduo.E ainda assim, se todos pensassem bem sem opiniões pré-formadas, acho que ninguém teria uma religião!
Ninguém vai me fazer acreditar em carne, nem comer Deus! Ninguém!
Ops...
Vale a pena conferir: A truta, de Luís Fernando Veríssimo (o blog também é bem interessante...)
Marchinha
Adoro a versão de Fernando Takai para essa marchinha, beeem lentinha...
Como tudo fica mais lírico na sua voz, quisera eu ouví-la cantando essa versão. Não importa quantas vezes eu a ouça ou qual versão seja, pra mim ela sempre soa como uma cantada descarada e apelativa. Combina realmente com as "desfeitas" que o Carnaval promove rs
"Taí,
Eu fiz tudo pra você gostar de mim
Oh, meu bem, não faz assim comigo não,
Você tem, você tem
que me dar seu coração"
Como tudo fica mais lírico na sua voz, quisera eu ouví-la cantando essa versão. Não importa quantas vezes eu a ouça ou qual versão seja, pra mim ela sempre soa como uma cantada descarada e apelativa. Combina realmente com as "desfeitas" que o Carnaval promove rs
"Taí,
Eu fiz tudo pra você gostar de mim
Oh, meu bem, não faz assim comigo não,
Você tem, você tem
que me dar seu coração"
Sabe,
Antes você nunca parecia estar a fim
Ah, meu bem, não venha me passar sermão,
Você tem, você tem
é que me pedir perdão.
15 de fev. de 2010
Backup
Se escrevo poesias é por falta de algo mais, porque escrevê-las não grafa nenhuma parte de mim, não arranca pedaços. Se escrevo poesias é para que outro, totalmente adverso (e talvez até avesso) à mim possa se identificar no que grifo, no que grafo, no que dito em meu país libertário.
Nesse blog, o que eu queria era não alastrar pedaços, mas me deixar por inteira, verdadeira entrega. Porque se eu não puder dizer o que quero dizer porque outros o diriam melhor estaria deixando que o ego apare minhas arestas, me desfragmentando caco por caco.
É que eu me reinvento todos os dias, e queria fazer um backup do meu sistema, um ponto de restauração para o software. Porque se pudesse fazer cópias de backup do hardware, eu o faria, para me perdendo tentar me reencontrar durante o resto da eternidade.
Mas não sou imortal, já estive em frangalhos por não saber escrever, e por me soltar aos poucos; por pedaços. E não há tempo que retome o passado.
Nesse blog, o que eu queria era não alastrar pedaços, mas me deixar por inteira, verdadeira entrega. Porque se eu não puder dizer o que quero dizer porque outros o diriam melhor estaria deixando que o ego apare minhas arestas, me desfragmentando caco por caco.
É que eu me reinvento todos os dias, e queria fazer um backup do meu sistema, um ponto de restauração para o software. Porque se pudesse fazer cópias de backup do hardware, eu o faria, para me perdendo tentar me reencontrar durante o resto da eternidade.
Mas não sou imortal, já estive em frangalhos por não saber escrever, e por me soltar aos poucos; por pedaços. E não há tempo que retome o passado.
13 de fev. de 2010
Post desnecessário
Esse mês de descobertas... Tudo em meio àquela oligarquia que exala virtuosismo precoce e "assuntos mais interessantes" no ensino médio rs
Dancei forró esdruxulamente, cantarolei axé no banho, associei Diogo Nogueira à pessoa, e agora ouço Marilyn Manson enquanto digito esse post... Admito que seus vídeos ainda me assustam um pouco, mas começo a perceber a arte por trás de suas caras e bocas maquiadas. Só por Tainted Love e Sweet Dreams já valeu a pena procurar algo diferente para colocar na playlist de sempre.
Lembro-me até hoje de quão espantada fiquei com Mr. Manson em entrevista a Michael Moore, em Tiros em Columbine (2001, eu acho). Que homem estranho!, que nariz enorme!, mas cara... que discurso eloquente... Fica aí uma dica interessante, pra quem gosta de falar de tragédia ou de por que o mundo está assim.
Tem até um jogo de RPG satirizando o massacre estudantil por aí na internet para os mais sádicos. Não que agora eu tenha vontade de exterminar minha ex-oligarquia escolar, mas achei o jogo tão nada a ver... como esse post =D
"Sweet dreams are made of this
Who am I to disagree?
Travel the world and the seven seas
Everybody's looking for something
Some of them want to use you
Some of them want to get used by you
Some of them want to abuse you
Some of them want to be abused"
Dancei forró esdruxulamente, cantarolei axé no banho, associei Diogo Nogueira à pessoa, e agora ouço Marilyn Manson enquanto digito esse post... Admito que seus vídeos ainda me assustam um pouco, mas começo a perceber a arte por trás de suas caras e bocas maquiadas. Só por Tainted Love e Sweet Dreams já valeu a pena procurar algo diferente para colocar na playlist de sempre.
Lembro-me até hoje de quão espantada fiquei com Mr. Manson em entrevista a Michael Moore, em Tiros em Columbine (2001, eu acho). Que homem estranho!, que nariz enorme!, mas cara... que discurso eloquente... Fica aí uma dica interessante, pra quem gosta de falar de tragédia ou de por que o mundo está assim.
Tem até um jogo de RPG satirizando o massacre estudantil por aí na internet para os mais sádicos. Não que agora eu tenha vontade de exterminar minha ex-oligarquia escolar, mas achei o jogo tão nada a ver... como esse post =D
"Sweet dreams are made of this
Who am I to disagree?
Travel the world and the seven seas
Everybody's looking for something
Some of them want to use you
Some of them want to get used by you
Some of them want to abuse you
Some of them want to be abused"
(Se você ainda acha tem uma opinião sólida sobre Marilyn Manson, a versão do Eurythmics para Sweet Dreams também é beeem legal, e mais dançante ^.^)
Ausência
Está faltando ar nos meus textos
Está faltando unha nos meus dedos
Está faltando ânimo aos meus medos
Está faltando aquela oferta de emprego
Está faltando inteligência em lampejos
Está faltando dormir cedo
Está faltando desejo
A rotina agora é apenas desafio
O que faço e quanto aguento viver sem,
Vazio.
Sadio.
Vadio.
Está faltando unha nos meus dedos
Está faltando ânimo aos meus medos
Está faltando aquela oferta de emprego
Está faltando inteligência em lampejos
Está faltando dormir cedo
Está faltando desejo
A rotina agora é apenas desafio
O que faço e quanto aguento viver sem,
Vazio.
Sadio.
Vadio.
11 de fev. de 2010
Maio em demasiado
Me prometi que não ia publicar nenhum poema que tenha sido escrito com um remetente fixo, mas acho que não importa mais. Esse é das antigas, e dos mais sinceros que já escrevi:
Maio desfeito,
DesMaio.
Defeito refeito,
errei feio:
Descaso.
Noiva em fuga,
Meio doidinha ela,
demasiadamente mimada;
bem quer ao seu amigo,
todo o bem do mundo,
mais do que o bem comum!
Ela anda meio lesada
mas já não representa mal algum.
Maio desfeito,
DesMaio.
Defeito refeito,
errei feio:
Descaso.
Noiva em fuga,
Meio doidinha ela,
demasiadamente mimada;
bem quer ao seu amigo,
todo o bem do mundo,
mais do que o bem comum!
Ela anda meio lesada
mas já não representa mal algum.
Romance
Essa história já foi contada antes
Em várias línguas, de diferentes bocas,
dublado ou legendado,
Mas a audiência é pedante,
não entende que o amor só é romântico
quando inacabado.
Em várias línguas, de diferentes bocas,
dublado ou legendado,
Mas a audiência é pedante,
não entende que o amor só é romântico
quando inacabado.
Os desfechos são quase sempre similares
Sabe quem veste a carapuça de uma das personagens.
7 de fev. de 2010
???
Para qualquer lugar que eu vá, é uma companhia de ônibus, uma marca, um jogador de futebol, um outdoor ou um rosto familiar. Certas coisas são só pra me irritar, me lembrar, e me mastigar. Me instigam a esquecer de mim mesma, algo entre me matar ou me deixar desfalecer. Rompem com a ordem linear dos dias, despencam do tempo e roubam meu espaço.
Essas coisas se tornam mais frequentes à medida que vivo mais. Vão se acumulando, cada uma escolhendo seu momento inoportuno para cobrar uma lembrança à minha atenção.
Tenho insômnia, quero amnésia.
Essas coisas se tornam mais frequentes à medida que vivo mais. Vão se acumulando, cada uma escolhendo seu momento inoportuno para cobrar uma lembrança à minha atenção.
Tenho insômnia, quero amnésia.
6 de fev. de 2010
Sertão
Morar à beira da estrada, em um barraco menor do que meu quarto, com um extenso varal de pequenas roupinhas sujas de barro. Coloridas e desbotadas. O ar seca, a poeira levanta. Por dia cada criança deve manchar até as vísceras com essa terra vermelha e seca. Faça-se o sabão render.
Não ouso me sentir mal por ninguém daqui. É a magia contagiante do agreste interior da Bahia, que mistura um sonho bucólico com uma espécie de sina. Quem nunca sonhou em morar no meio do nada, ignorando o sentido de viver à margem da sociedade, tangendo a autoestrada da civilização?
Não ouso me sentir mal por ninguém daqui. É a magia contagiante do agreste interior da Bahia, que mistura um sonho bucólico com uma espécie de sina. Quem nunca sonhou em morar no meio do nada, ignorando o sentido de viver à margem da sociedade, tangendo a autoestrada da civilização?
Perigo
O perigo dorme no quarto ao lado. Um dia você chega em casa e está tudo diferente. Palavras haviam sido ditas e ainda reverberavam nas paredes, embora já tivessem se posto atrás da mobília mais próxima. O dia se levantou nessa casa, mas os afazeres se deitaram feito poeira. O perigo se impôs em frente à TV, se sentou à mesa de jantar e deixou as luzes ligadas ao passar.
O perigo, pronto para despertar, recolhe sua magnitude calado, talvez sem estar ciente de si ainda. O perigo é a restrição passeando pelos cômodos. Deixa as horas passarem, se fecha no escritório. O perigo mastiga suas palavras como o pai que roda o chinelo nas mãos. Para bater e deixar sua marca.
O perigo, pronto para despertar, recolhe sua magnitude calado, talvez sem estar ciente de si ainda. O perigo é a restrição passeando pelos cômodos. Deixa as horas passarem, se fecha no escritório. O perigo mastiga suas palavras como o pai que roda o chinelo nas mãos. Para bater e deixar sua marca.
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