Quando eu era criança, lia Shakespeare mesmo sem ser tarefa da escola. Todo mundo era obrigado a comprar a releitura infantil de todas as suas peças mais famosas para que a professora fizesse perguntas em um determinado dia, escolhido a dedo pouco antes das temidas provas. A gente se preparava como podia, e ainda assim gaguejava quando os olhos da Tia pousava sobre o coleguinha ao lado.
De teimosa, eu sempre pegava a versão original das peças, num livro de couro velho, daqueles que os pais escondem propositalmente no fundo da estante mais alta. Justamente por isso, eu deixava ele acreditar que eu lia a "releitura" que me comprara. Eu gostava mesmo era de sentir que tinha uma coisa muito mágica por trás daquelas palavras que eu não entendia bem, ainda que eu não soubesse o que era. Naquela época, minha cabeça não zunia ao ter de dar voltas e voltas nos mesmos versos.
Quando descobri que quase todas as suas peças se baseavam em obras da Antiguidade, foi o fim de um Império para mim. Simplesmente não entendia por que Shakespeare era tão cultuado, se não fora ele que criara suas próprias histórias. Sempre cultuei a autenticidade das coisas, acima de saber expressá-las. (Imagine que fui analfabeta até os 15, 16 anos, e que restringi muito a lista de livros lidos até então).
Deve ter demorado mais ou menos uns 5 anos desde aquela infante época para que eu entendesse que não adianta nada pensar sozinho sem saber como fazer os outros pensarem junto. Instigar o leitor é tê-lo vulnerável nas mãos, entregue às suas loucuras de forma que possa até complementá-las. Não se faz literatura se não consegues afetar de alguma forma o leitor. O que o incrementa não é o enredo, igual a tantos outros que estariam por vir, mas a forma como o escritor conta, como o cativa para dentro de seu texto.
O verdadeiro escritor não está no enredo, disputando ares com suas personagens, mas do lado de fora facilitando a identificação dos leitores, tornando seu mundo inventado mais palpável àqueles que dele o provam.
Mas escritor que não tem criatividade, é apenas um bom contador de histórias. Se me permitem dizer, Shakespeare foi um excelente contador que me fez querer ser escritora. Ou pelo menos me despertou a vontade plena de escrever, não que eu possua maiores pretensões do que isso.
Pois bem, e os blogs de hoje em dia com isso? Digo logo: tudo. Acordei cedo hoje, com aquela mesma sensação de criança ao ser a primeira a levantar e ver a casa ainda dormindo. Essa sensação deve ter algum parentesco com a sensação adolescente de ser a última a dormir, contemplando a rua respirando adormecida. Enfim... nada pra fazer, comecei a visitar blogs, um dando vazão a outros milhares.
Garanto que a cada 10, uns 7 deve ter como tema l'amour. Blogueiros de todas as idades, localidades, gêneros textuais... Vai soar arrogante, eu sei, mas é sempre a mesma coisa, a mesma procura incessante, a mesma frenesi! Gente com sede ao pote, transbordando de um mesmo assunto! A maioria escrevia bem demais, mas se dedicava exclusivamente a um tema do qual cada um tira suas próprias conclusões experimentando na própria boca, sem tirar nem pôr palavras alheias na mesma.
Não sei, já tive minha época em que não conseguia escrever sobre outra coisa. Talvez eu já seja incapaz de escrever sobre 'amor', só de reeditar textos antigos sobre o tema. Cansei de poluir minhas linhas com o romantismo de outrora, não faz mais sentido. Sei lá sabe, dizem que só se reconhece o amor quando é de verdade, então me mostra que eu só acredito vendo!
Vamos mudar de assunto...
Ficaí uma dica de post, um dos que me tocaram essa manhã (fiquei até intimidada para comentar, 31 comentários!) : Falar de amor, não é amar
Para ler ouvindo: The Story, de Norah Jones, trilha sonora de um dos meus filmes românticos favoritos, My Blueberry Nights - estupidamente traduzido para Um Beijo Roubado.
O próprio Shakespeare falava bastante de amor em suas peças, aliás, não me lembro de nenhuma em que tenha o amor ou como tema principal ou como um componente importante de suas histórias (posso estar errado quanto a isso, talvez).
ResponderExcluirMas enfim, creio eu que o amor seja a grande fixação da cultura ocidental e a única que ainda consiga sair incólume de tantas tragédias ao longo de séculos de história que nos fez bastante cínicos a outras coisas...