23 de fev. de 2010

Everywhere but home

A gente faz um enorme esforço para ser entendido. Aprende novos idiomas, imita sotaques, complementa com gestos... Tanto que até se pensa que todo gringo é meio abobalhado. É que fazem tanto esforço o tempo todo para entender o que está sendo dito que a atenção para todo o resto se dispersa, e até a linguagem corporal que normalmente ficaria contida se torna mais espontânea - e delatora. Se exaurem em um rápido diálogo, como se fizessem força o tempo todo. É difícil conter o nervosismo e a timidez quando se sabe que, naquele lugar que não é o seu, o som que sai da sua boca não salta naturalmente da sua língua, mas sai rasgando suas bochechas. A trepidação das cordas vocais pode ser sentida no estômago, e às vezes até embolar na respiração, feito um recém nascido que apenas grunhe curtos sons que acaba de ouvir.
Ser estrangeiro é nascer de novo como um personagem que não vai te acompanhar até em casa, mas será cúmplice de todas as suas presepadas nas situações mais simples. É se sentir tão feliz quando alguém te compreende que é como se viajasse o mundo inteiro apenas por aquele contato, com aquela pessoa sem rosto e  por vezes sem nome, mesmo que o assunto seja dos mais simples. Nessas horas que se pode sentir correr pelo seu corpo o calor do outro, que tanto se esforça para te entender - ou até mesmo te ajudar. Ao flexibilizar a própria língua, essa pessoa que você nunca imaginaria existir faz com que seu dia valesse a pena, e a humanidade tenha restaurado sua gentileza.
Viajar requer coragem, para tentar se encaixar num lugar que esteve muito bem esse tempo todo sem você, e, principalmente, humildade, para transcendendo as semelhanças ver no outro um hábito, um gesto, um indivíduo diferente debaixo de seu véu, chamado cultura nacional. Ninguém é apenas o seu país de origem.
Identidade, no final das contas, é algo engraçado. Em nenhum lugar do mundo longe de casa você sentiria sua autenticidade 'aguada', desbotada, é  uma sensação insossa que só se pode ter no epicentro de seu mundo, "hometown". Porque mesmo que eventuais conterrâneos partilhem de suas nostalgias e seus hábitos com você, é quase impossível que sejam nascidos e criados da mesma forma, no mesmo lugar. Às vezes a gente precisa ir para bem longe para perceber que as pessoas que conviviam com a gente são muito diferentes umas das outras, mesmo tendo costumes e estruturas familiares semelhantes. E aos poucos, pensa-se o mesmo a respeito dos nativos do país que você está invadindo por diversão, mera curiosidade.
Mais engraçado do que essa velha noção de identidade, nunca antes despertada com tantas cores diante de você, é que ainda assim você chamará de gringo quem chega a você, e se chamará de estrangeiro quando chega até eles. Não que qualquer um dos termos seja pejorativo hoje em dia, ambos se fazem passar por abobalhados de tempos em tempos, pra não dizer o tempo todo em que carregar uma câmera e um mapa. Ou abrir a boca para tentar se fazer entender.

2 comentários:

  1. e aí você acaba se esquecendo de ser você, no fim das contas.

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  2. "Viajar requer coragem, para tentar se encaixar num lugar que esteve muito bem esse tempo todo sem você..."

    Um texto muito bem escrito sobre um tema que eu adoro e que é super vasto: identidade. Fiquei apaixonado pelo blog. rs
    É tanta coisa pra falar de identidade, mas parece que ficou tudo dito em poucas linhas. Parabéns.

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