25 de mai. de 2011

Festa

Que fazia ela ali, de pé a um canto onde o som pudesse ainda reverberar? Bebericava o copo vazio e assim evitava a iminente exigência por um comentário seu; esmolaria trocados se estendesse o braço - com esse vestido de pedir elogios, talvez esmolasse por pequenas doses de admiração. Circulava o ambiente de um lado a outro como que para se mostrar entretida com alguma coisa e diluir seu tédio, ou diluir a negativa atenção que seu tédio poderia atrair numa festa como aquela. Há pessoas que são convidadas para dar mobilidade ao cenário, e simplesmente isso; nunca ficam presas muito tempo num mesmo círculo de conversa. A figuração não fala, sequer consegue alcançar a mesa para reabastecer o copo. Era o tipo de confraternização em que todos os convidados se conhecem, se apresentam entre si, e sobrevoam círculos alheios como pássaros acasalando na praia, a procura de novos membros para circunscrever na comunidade.
Os murmurinhos e brincadeiras preenchiam os corredores da casa até os quartos e o portão. Quanto mais longe da luz da sala, mais esparsos e menores os grupos reunidos; mais baixo e mais vagamente conversavam. E menos tímidos também, cuspindo palavras em bocas alheias, que só possuíam como estratégia de defesa concordar para voltar logo para a sala iluminada e barulhenta. Novos convidados chegavam com mais bebida, e arrastando para dentro as ovelhas atraídas para longe do rebanho.
Mas ela, cadê? Abandonara o copo vazio na pia do banheiro, o único vestígio que deixou para trás. Em que preciso momento deixou a festa; será que acompanhada com a mais indelicada presença, com o mais notável orador, ou silenciosamente desacompanhada? Esmolada ou molestada por uma presença, uma conversa, um comentário curvo... posso imaginar a urgência dessa aparição emergindo de seu tédio, espalhando palavras quebradas pela sua boca.
Estavam todos animados, mesmo quem não pertencesse a nenhum dos círculos presentes. O conteúdo e o formato do copo dizia muito sobre o tipo de convidados a ser aguardado, independentemente de suas vestes. E mesmo assim, me pergunto o que fazia ela ali e que fim levou aquela noite.

20 de mai. de 2011

Autura

Vontade de jogar fora um pouco de tudo. Livros e apostilas, faculdade e curso de línguas, uma ou outra possibilidade de intercâmbio. Chão e casa, teto e telhado, gato e sapatos. Pais, dinheiro, amor, amigos e programas de fim de semana. Blog e blogueiros, fotos, cds gravados e playlists.
Eu não vim pregar o desapego não, não faço idéia do que estou dizendo. Mas o que era mesmo pra eu estar fazendo com tudo isso, apostar? Curtir, viver, amar, gastar, recriar, guardar, enterrar, amargar até maturar? Sei lá eu...
Pra que que me deram tudo isso se eu não tenho onde pôr? Onde que vou guardar tanta tranqueira que já matei tantas vezes e continua a florescer no meu quarto tão logo abro a porta, e do meu cheiro sei que ali era meu lugar ou até então eu pensava que era. Não tá no momento de colher ainda, conquanto me adormece o braço para ceifar a safra. Chute no ar, sei que salgaram esse chão; quanto de seu sal são lágrimas de portugueses e nem um pouco minhas? é justo chorar a esse altura? Ah, a vertigem dessa autura... Vinícius disse aos gritos se mede um abismo, mas essa autura, essa autonomia, tem metragem no silêncio.

15 de mai. de 2011

Vida assimétrica

Eu só gostaria de ler-te as sensações que pululam nessa alma minha, e rir quando não se deve pois a cacofonia ainda persiste em esmolar a criatividade de jovens poetas.
Eu não poderia escrever um livro, eu não tenho nada a dizer! Eu tenho medo de dizê-lo, que para uma primeira pessoa significa quase a mesma coisa.
Ai, por uma cacofonia eu trocava toda rima se assim me fizesse rir... Vida e literatura só se assemelham nisto: só valem a pena se garantirem uma boa risada. As coisas que te acontecessem não são de se levar a sério, a menos que contadas de forma adequada. E onde se encaixaria uma cacofonia aí - vê que não presta se não fizer rir? -, nem que seja a carimbar na sobriedade alguma irreverência infantil?
Vê, assim, que não tenho nada a dizer; sou tão madura...
E agora, me comprometo a recortar desse texto os últimos parágrafos que só lhe tornam robusta a silhueta. Com um alicate, pois desde que comecei a escrever, minha altivez literária parece ter encarecido esta folha de papel, ou até mesmo enrijecido, eu diria; a rigidez literária dos jovens poetas é que encarece suas vidas assimétricas, ou vice-versa.

6 de mai. de 2011

Tirar ou ceder à realidade

Toma uma pílula. Toma uma pílula, que o soluço passa.
Toma uma pílula, que o soluço passa, o medo desabrocha em flor. A clareza insurge do que pensava confuso. Florais de Bach. Toma um pílula, que tudo vai dar certo, e a agonia cessa, cada sessão vai desenterrar um pouquinho o que está te incomodando tanto. Planta pílula na garganta pra desenterrar caixão de mágoa, tão bem guardado. Mas não é que as coisas ficaram mais leves agora, depois de içar memórias à superfície? Toma pílula pra sossegar a cabeça e pensar melhor no que grava tanta seriedade ridícula; abraça com tuas raízes o que, confuso, antes não via. É preciso antes se aquietar para ver.
Agora sonha um sonho. Cria mais na realidade do que ela merece. Sonha um sonho sozinho, coletivo, engajado, que assim clareza insurge dos seus pensamentos confusos. Completa o mundo com o que falta, planta-lhe um pílula de loucura, que assim surge alguma coisa nova. Flores de Keukenhof. É preciso antes sonhar para criar.