Arrasta meu foco como se tivesse as mãos em concha impedindo o fluxo de um córrego, e tomasse meu ponto de luz sobre os dedos acolchoados para outro lugar, como uma pérola fresca. Sabe? E tudo escurecesse ao redor, enquanto parasito e sobrevôo em busca do meu ponto iluminado, que ocultaste com os dedos.
Cada vez que se descuida, que se permite se descuidar, avisto meu foco, minha luz, minha pérola. E só então posso partir escuridão adentro. Às vezes me choco contra outro pontos que não o meu, e isso pode até causar desconforto; podem pensar que lhes roubei. Só que algo me assaltara antes, e nada suprirá esse vazio deformado.
Eu preciso de meu raciocínio, meu foco. Eu preciso desse auto-controle mais do que primordial, mais do que libertário. Eu preciso do meu ponto de luz, como um sol que fora posto em pleno dia.
27 de nov. de 2010
Afinal, o que querem as mulheres?
a gola da camisa amassada
brincava com o pescoço magro
que encobria sem cobrir
que vestia sem vestir
sambava e expunha um corpo
que mal preenchia um abraço
mas que se interpunha sem ruir
sua delgada presença
execrava a curvada idade
que pesavam de seus óculos robustos
e assim era
olhos brilhantes, cabelos brutos
caudalosos, lábios carnosos
emoldurando um sorriso esguio
debaixo dos pêlos curtos da face
um único ombro desnudo
ainda escapa desse invólucro mordaz
que perdeu o último botão
(ou o primeiro,
tanto fez como tanto faz!),
que importa, se esse pescoço ninguém laça
se teu rosto ninguém sombreia
se tua voz não se acoleira
ele é livre
para se despir
para se interpor
e emoldurar sua presença
estreita
e magra.
brincava com o pescoço magro
que encobria sem cobrir
que vestia sem vestir
sambava e expunha um corpo
que mal preenchia um abraço
mas que se interpunha sem ruir
sua delgada presença
execrava a curvada idade
que pesavam de seus óculos robustos
e assim era
olhos brilhantes, cabelos brutos
caudalosos, lábios carnosos
emoldurando um sorriso esguio
debaixo dos pêlos curtos da face
um único ombro desnudo
ainda escapa desse invólucro mordaz
que perdeu o último botão
(ou o primeiro,
tanto fez como tanto faz!),
que importa, se esse pescoço ninguém laça
se teu rosto ninguém sombreia
se tua voz não se acoleira
ele é livre
para se despir
para se interpor
e emoldurar sua presença
estreita
e magra.
24 de nov. de 2010
Paralamas
"Minha alma é lavada, desencardida
E quem destratou a sua vida foi você
Desamarrada, desimpedida, desarmada
Voa livre pelo mundo até escurecer
Desamarrada, desimpedida, desarmada
Voa livre pelo mundo até escurecer
Quando faz frio perto do mar
Quando não há nuvens no céu
Quando sopra o vento terral de manhã
Vale a pena acordar pra ver
Quando não há nuvens no céu
Quando sopra o vento terral de manhã
Vale a pena acordar pra ver
Sempre atrasada, sempre iludida
De que vai voltar a vida que você deixou
O tempo, os homens
As marcas de noites e dias mal vividos
Nada disso te perdoou
De que vai voltar a vida que você deixou
O tempo, os homens
As marcas de noites e dias mal vividos
Nada disso te perdoou
Rede de surfistas no mar
Ligados por computador
Novas maravilhas pra se admirar
Não me venha com a velha dor
Ligados por computador
Novas maravilhas pra se admirar
Não me venha com a velha dor
O trem da juventude é veloz
Quando foi olhar já passou
Os trilhos do destino cruzando entre nós
Pela vida, trazendo o novo"
Quando foi olhar já passou
Os trilhos do destino cruzando entre nós
Pela vida, trazendo o novo"
20 de nov. de 2010
Ela, que encontra novas mensagens nos filmes de sempre, e guarda-as com tanto esmero com quem se deixa reger pela regra, pela graça, pela desgraça desregrada.
O olhar brilha, a boca entre-abre possuída por um sorriso de entendimento. Esse saber que a perpetra nunca antes havia encontrado espaço por entre as fendas de seu rosto. O tempo passa, as fendas se aprofundam, e ali se aloja o conhecimento tímido, corriqueiro, com medo mortal de ser incompreendido. É ainda menino, procurando aconchego de mulher conhecida.
Ela tem sua poltrona favorita sob os quadris, o tapete magenta sob os pés, a almofada florida sobre o colo. E tem um filme se repetindo na tela diante dela. A gente sabe como acaba, a gente já viu antes. Mas ela guarda cada fala de efeito com tanto esmero, como se não bastasse saltarem do roteiro urgindo por suas próprias tramas paralelas. São falas açucaradas, ou amargas; são armadilhas catárticas que exaurem toda a expressão emocional dos atores, esvaziando-a de credibilidade. Como os mandamentos bíblicos, que ela achou super-moderno desconhecer.
O sol começa a se pôr do lado de fora da janela, embora as cortinas passadas estejam alinhadas em ambos os lados, formando vistosos gomos. A luz da tela ilumina a sala, desenhando contornos estridentes a partir dos objetos sobre a mesa de centro. No seu rosto, a luz branca pinta sombras profundas como sulcos. Os olhos lacrimosos ressecam sem piscar, e ela parece pronta para ser emoldurada.
Esse filme a gente sabe como acaba: sem créditos ou palavras. Apenas a televisão desligada, e ela se levanta, enfim, para regar as plantas em seus vasos.
O olhar brilha, a boca entre-abre possuída por um sorriso de entendimento. Esse saber que a perpetra nunca antes havia encontrado espaço por entre as fendas de seu rosto. O tempo passa, as fendas se aprofundam, e ali se aloja o conhecimento tímido, corriqueiro, com medo mortal de ser incompreendido. É ainda menino, procurando aconchego de mulher conhecida.
Ela tem sua poltrona favorita sob os quadris, o tapete magenta sob os pés, a almofada florida sobre o colo. E tem um filme se repetindo na tela diante dela. A gente sabe como acaba, a gente já viu antes. Mas ela guarda cada fala de efeito com tanto esmero, como se não bastasse saltarem do roteiro urgindo por suas próprias tramas paralelas. São falas açucaradas, ou amargas; são armadilhas catárticas que exaurem toda a expressão emocional dos atores, esvaziando-a de credibilidade. Como os mandamentos bíblicos, que ela achou super-moderno desconhecer.
O sol começa a se pôr do lado de fora da janela, embora as cortinas passadas estejam alinhadas em ambos os lados, formando vistosos gomos. A luz da tela ilumina a sala, desenhando contornos estridentes a partir dos objetos sobre a mesa de centro. No seu rosto, a luz branca pinta sombras profundas como sulcos. Os olhos lacrimosos ressecam sem piscar, e ela parece pronta para ser emoldurada.
Esse filme a gente sabe como acaba: sem créditos ou palavras. Apenas a televisão desligada, e ela se levanta, enfim, para regar as plantas em seus vasos.
Minha musa é um museu
Eu precisava me livrar da pressão. Eu não tinha grandes acontecimentos pra relatar sobre minha vida, nunca participei de alguma grande tragédia. Minha vida simplesmente tomou o rumo de um filete d'água por entre as pedras, sem confrontar montanhas ou quedas livres. E ainda assim, eu podia apalpar a pressão em meu corpo, fingindo com meus dedos que aquilo que tocava não era meu. Eu podia simplesmente ter sublimado dali e permanecido apenas nas pontas dos dedos. Esse nível de concentração só se alcança poucas vezes na vida, apenas para saber que, de fato, algo se transpira nessas horas.
E então eu soube, pelo ar que se dobrava ao redor das minhas falanges, que eu não me lembrava de onde toda essa pressão veio. Minha musa é um museu, e minha história é o ar que desfila por entre suas obras. Qualquer visita poderia inalá-la para dentro de si, mas jamais teria a oportunidade de observar suas formas. Até mesmo eu, que expiro e transpiro para um salão que torna tudo o que já fora tão esparso.
E então eu soube, pelo ar que se dobrava ao redor das minhas falanges, que eu não me lembrava de onde toda essa pressão veio. Minha musa é um museu, e minha história é o ar que desfila por entre suas obras. Qualquer visita poderia inalá-la para dentro de si, mas jamais teria a oportunidade de observar suas formas. Até mesmo eu, que expiro e transpiro para um salão que torna tudo o que já fora tão esparso.
13 de nov. de 2010
José Luis Piqueiro
Crianças, experimentai fazê-lo em casa
e sabereis como é bom sem ninguém vos contar.
Recordai que não há nada que vos possam ensinar vossos pais.
Eles não são vós.
Deitai-vos, bebei.
Há séculos que estas coisas acontecem
e ninguém demonstrou até agora
que sejam muito piores que a guerra.
Há um paraíso para lá dessa linha branca.
Tudo o que faz mal e vós não fazeis,
crianças, estai-lo trocando pela serenidade.
Falaram-vos dela? Algum de vós sabe a que sabe?
Se ignorais quem sois, evitai o rodeio
de averiguá-lo, juntai-vos aos outros. Um lugar no grupo
é um posto no mundo;
ora bem,
crianças,
erga lá a mão o que queira morrer sendo útil e sensato.
Lá está, não é nada divertido.
Quanto ao resto, eu sei que não sois felizes,
quando menos pensáveis que todo o mundo vos odeia.
Pois é certo, mas não faltam motivos, sois jovens e
estúpidos e não tendes direito
a todo esse futuro que ides desperdiçar (como nós, aliás).
Estais sós, é isso? Com efeito.
Aprendei a ser livres, da mentira não fujais;
sabereis por experiência que é mais sólida
que qualquer verdade pactuada.
E sobretudo,
meus lindos,
não deveis crer
que a vida vale a pena vivê-la
só por tal jurarem desde sempre os maiores cabrões.
e sabereis como é bom sem ninguém vos contar.
Recordai que não há nada que vos possam ensinar vossos pais.
Eles não são vós.
Deitai-vos, bebei.
Há séculos que estas coisas acontecem
e ninguém demonstrou até agora
que sejam muito piores que a guerra.
Há um paraíso para lá dessa linha branca.
Tudo o que faz mal e vós não fazeis,
crianças, estai-lo trocando pela serenidade.
Falaram-vos dela? Algum de vós sabe a que sabe?
Se ignorais quem sois, evitai o rodeio
de averiguá-lo, juntai-vos aos outros. Um lugar no grupo
é um posto no mundo;
ora bem,
crianças,
erga lá a mão o que queira morrer sendo útil e sensato.
Lá está, não é nada divertido.
Quanto ao resto, eu sei que não sois felizes,
quando menos pensáveis que todo o mundo vos odeia.
Pois é certo, mas não faltam motivos, sois jovens e
estúpidos e não tendes direito
a todo esse futuro que ides desperdiçar (como nós, aliás).
Estais sós, é isso? Com efeito.
Aprendei a ser livres, da mentira não fujais;
sabereis por experiência que é mais sólida
que qualquer verdade pactuada.
E sobretudo,
meus lindos,
não deveis crer
que a vida vale a pena vivê-la
só por tal jurarem desde sempre os maiores cabrões.
Tradução do incrível A.M., do Rua das Pretas
(Apaixonada por esses blogs-coletâneas... esse daí prioriza a poesia latina! - até onde sei...)
11 de nov. de 2010
10 de nov. de 2010
Boicote!
Querendo ou não, brincar com os sonhos de uma pessoa é maldade, ainda que "sempre tenha o ano que vem" para tentar de novo. Mas o que quero dizer é mais abrangente do que o estudante vulnerável a todo esse processo de seleção.
Sei que todos os civis devem achar uma vergonha os fatos que têm decorrido da prova do ENEM, ainda que não possuem parentes ou amigos diretamente envolvidos com isso, mas sei que não comparecerão à passeata do dia 12 pois isso não lhes beneficia diretamente.
Sei também que muitos pré-vestibulandos não comparecerão à passeata porque temos 2 provas importantes neste fim de semana aqui no Rio. E sei que muitos deles já citou alguma vez em alguma redação que os franceses devem ser tidos como exemplo quando se trata do exercício da democracia e da livre expressão. Assim como, na redação de domingo, muitos devem ter escrito que o trabalho traz sim dignidade ao homem sem sequer já ter trabalhado na vida!
Pois bem, somos estudantes. O único compromisso que um estudante de classe média poderia ter nesse instante seria passar no vestibular. Mas diga-me, quantos estarão preocupados com o próprio desempenho nos demais concursos para não demonstrarem ao público a sua insatisfação com o método de seleção? Diga-me, se não nesta fase da vida, quando poderemos manifestar à la francese nossas opiniões publicamente? Quando estivermos estabelecidos profissionalmente, com família e filhos para cuidar?
Se tornou uma questão cultural para o brasileiro não saber se manifestar publicamente. Porque ninguém acredita que a própria iniciativa dará certo, quando nem atitudes conjuntas parecem impactar de alguma forma o todo. E assim, priorizando então as questões individuais às plurais, nada é dito. Quer dizer, é dito sim, entre quatro paredes, ou ao calor de uma churrasqueira, que nada do que é feito nesse país dá certo. E que mesmo as questões que te atingem diretamente não podem ser alteradas.
Será que alguém já pensou que a corrupção dos atos cotidianos, como a música alta do celular ao fundo do ônibus ou o assalto sem armas, só ocorrem porque nada é dito? Será mesmo que a negligência do Estado frente a tantas outras questões só não é possível devido ao silêncio congênito do brasileiro?
O que eu queria mesmo dizer é apenas isso: mesmo que nada vá de fato mudar, espera-se que algo seja dito. Para que saibam, ao menos, que todos aqueles que lhes estão submetidos se importam. E que estão de olho.
Vale a pena conferir: Vestibulando-se, por devaneios viscerais
9 de nov. de 2010
Homem de vidro
Um homem vítreo jaz na praia ao amanhecer. E o mar está ali presente, para constatar. A água insiste, em tirocínio, com planos de um dia adentrar em cada fenda de seu corpo, cobrir-lhe a incompletude e servir-lhe como um molde disforme de suas necessidades. Assim é a água que pulveriza e intemperiza: também preenche espaços e suplanta o vazio.
Desfocado o seu olhar mira o alto - que não exatamente o céu -, como se uma percepção obtusa soubesse de todas as coisas, e tudo o que não se deve saber o invadisse com volúpia, procurando frestas carnosas em seu ser para se abrigar. Covarde. Corrosivo. Bicheira.
Mãos grandes, pulsos largos, dedos polposos. As ondas tratam de dar movimento aos teus braços, que mais parecem asas se vistos da calçada. A areia que se acumula sobre os músculos alongados não é a mesma que as correntes trouxeram, que não a mesma que repousou na Ilha de Lia, que não a mesma que já sonhou um dia em ser rocha. Porque tocou em seus braços nus estendidos, suas unhas róseas, suas fibras expostas. Porque depois das poucas horas de hoje, esse mar não é mais o mesmo, tão-pouco o grão de areia que ousou atravessá-lo a nado.
Penso que dorme, e em breve a sensibilidade dos dedos vão lhe despertar. Deve ter adormecido admirado da Lua, espero. Teria sido lindo. O Sol que se alevantou neste instante deve ter se envergonhado ao se deparar com ele, largo na areia por outro astro. Deve ter se demorado a subir, temendo não ser capaz de erguê-lo com seu apelo. Por isso, a manhã se arrasta, e só a água pungente tem o privilégio de tocar-lhe os pêlos. O que será que vê por esses olhos altos, quando o rosto intumescido pelo bocejo que não deu suspira?
Há uma leve brisa no ar, apenas, e o dia parece imóvel. O tempo se dirige para a praia, apenas isso, para ver o jazigo do homem vítreo. Ele deve ter sido trazido pela maré enquanto a Lua insurgia, e se enterrado ali, naquele litoral, para uma denúncia. Mas de quê?
Há paz nesse litoral como nunca antes fora visto. As nuvens cobrem o céu, o mar acinzenta; a areia, o Sol, a Lua; é tudo um profundo nada de tão branco. É tudo almofadado, vistoso, perto do homem vítreo. É um palco para ninguém.
Desfocado o seu olhar mira o alto - que não exatamente o céu -, como se uma percepção obtusa soubesse de todas as coisas, e tudo o que não se deve saber o invadisse com volúpia, procurando frestas carnosas em seu ser para se abrigar. Covarde. Corrosivo. Bicheira.
Mãos grandes, pulsos largos, dedos polposos. As ondas tratam de dar movimento aos teus braços, que mais parecem asas se vistos da calçada. A areia que se acumula sobre os músculos alongados não é a mesma que as correntes trouxeram, que não a mesma que repousou na Ilha de Lia, que não a mesma que já sonhou um dia em ser rocha. Porque tocou em seus braços nus estendidos, suas unhas róseas, suas fibras expostas. Porque depois das poucas horas de hoje, esse mar não é mais o mesmo, tão-pouco o grão de areia que ousou atravessá-lo a nado.
Penso que dorme, e em breve a sensibilidade dos dedos vão lhe despertar. Deve ter adormecido admirado da Lua, espero. Teria sido lindo. O Sol que se alevantou neste instante deve ter se envergonhado ao se deparar com ele, largo na areia por outro astro. Deve ter se demorado a subir, temendo não ser capaz de erguê-lo com seu apelo. Por isso, a manhã se arrasta, e só a água pungente tem o privilégio de tocar-lhe os pêlos. O que será que vê por esses olhos altos, quando o rosto intumescido pelo bocejo que não deu suspira?
Há uma leve brisa no ar, apenas, e o dia parece imóvel. O tempo se dirige para a praia, apenas isso, para ver o jazigo do homem vítreo. Ele deve ter sido trazido pela maré enquanto a Lua insurgia, e se enterrado ali, naquele litoral, para uma denúncia. Mas de quê?
Há paz nesse litoral como nunca antes fora visto. As nuvens cobrem o céu, o mar acinzenta; a areia, o Sol, a Lua; é tudo um profundo nada de tão branco. É tudo almofadado, vistoso, perto do homem vítreo. É um palco para ninguém.
8 de nov. de 2010
5 de nov. de 2010
Sobre aparência
Saber que a aparência atrai mais do que o conteúdo inaparente me é um alívio. As pessoas ainda buscam a beleza nas coisas. As pessoas precisam de beleza, o que significa que procuram a arte, ainda que no âmbito mais palpável: no rótulo de um produto, na capa de um livro, na beleza de um físico. O abandono do lirismo não me desagrada nesse ponto.
O que me desagrada realmente é o uso da beleza como vil atrativo, enquanto poderia estar recheada de significados, facilitando a sua adesão às mentes que possui. A beleza como meio, e não um fim.
Afinal, era essa a função da arte, comunicar alguma coisa; quem foi que teve a brilhante idéia de fazer da arte algo oco, inócuo?! Percebe a transparência, o vazio de uma arte que se exalta?
É triste quando um organismo precisa de pura beleza para se preencher, tem sede de alvura sem significados, de virgens sem passado. Mas ainda não é o fim dos tempos; ao menos beleza ainda é apreciada.
Haverá quem se canse de pomposos desfiles, de tanta beleza desamparada e, guloso, penetre no impalpável universo de cores em infinita queda. Amor pela desordem. E quem sabe, não tope com o discurso imoderado, o lirismo sôfrego ou o movimento perfeito... é um longo caminho sem volta, é queda livre. E a beleza - é apenas a cereja ao topo da taça. A membrana que envolve o orifício de emersão depois que cicatriza.
O que me desagrada realmente é o uso da beleza como vil atrativo, enquanto poderia estar recheada de significados, facilitando a sua adesão às mentes que possui. A beleza como meio, e não um fim.
Afinal, era essa a função da arte, comunicar alguma coisa; quem foi que teve a brilhante idéia de fazer da arte algo oco, inócuo?! Percebe a transparência, o vazio de uma arte que se exalta?
É triste quando um organismo precisa de pura beleza para se preencher, tem sede de alvura sem significados, de virgens sem passado. Mas ainda não é o fim dos tempos; ao menos beleza ainda é apreciada.
Haverá quem se canse de pomposos desfiles, de tanta beleza desamparada e, guloso, penetre no impalpável universo de cores em infinita queda. Amor pela desordem. E quem sabe, não tope com o discurso imoderado, o lirismo sôfrego ou o movimento perfeito... é um longo caminho sem volta, é queda livre. E a beleza - é apenas a cereja ao topo da taça. A membrana que envolve o orifício de emersão depois que cicatriza.
3 de nov. de 2010
vExame Nacional do Ensino Médio
Se eu pudesse dar algum conselho para algum vestibulando hoje, seria simples. Você pode até concordar com cada molécula orgânica que vibra em suas fibras que escolher uma carreira logo após o Ensino Médio é muito duro; mas mesmo assim você vai se pressionar horrores para passar no vestibular de primeira. Faz sentido?
Eu acho que todo mundo deveria passar por um ano de pré; faz bem pro ego, faz com que você dê mais valor a suas conquistas. É um ano em que você não trabalha, não constrói ou produz nada durante seu tempo útil; é estar na merda. É o limbo social, o intervalo em sua existência, e o tempo dosado para pensar no tipo de vida que se quer ter.
Leve sempre em consideração que a tendência é piorar, então se você já está insatisfeito agora com o cansaço e com o ritmo de sua rotina, pense na vida acadêmica. Claro que haverá chopadas, veteranos endiabrados e coleguinhas afáveis, mas na hora de sentar pra estudar, amigo, é pra aprender mesmo... E logo depois virão as greves universitárias, os primeiros empregos, a pós que não sai... e a carreira que não vai ser um mar de rosas todos os dias para sempre.
Eu acho que o mais importante do período de pré-vestibular é sempre procurar coisas que te façam esquecer completamente dos estudos. Coisas que cansam mesmo, como esportes, palavras cruzadas, sudoku, música... pra que quando você se deparar com uma apostila de exercícios, queira estar ali resolvendo-os. Porque não adianta forçar quando a palavra de ordem é digressão.
E é sempre uma boa bosta quando até o coleguinha que não fez porra de merda nenhuma o caralho do ano todo passa pra uma curso cool, mas cara, ele não é feliz. O trote dele não foi emocionante. A vida dele está fadada à infelicidade: ele não fez cursinho pré-vestibular.
Sabe o sentido da vida? Ele não encontrou, pode ter certeza.
E outra: sabe o ENEM? CAGA pro ENEM. É uma prova que não testa sua aptidão, seus conhecimentos, sua resistência, nada. Só mede a sua sorte. Então se você não nasceu com a bunda virada pra Lua, leia o horóscopo no jornal antes de sair de casa. Se der zica, nem vai lá fazer a prova, não. Caga.
Cara, quando estou nervosa, eu rio. Eu gargalho pra dentro, que nem um porquinho. Quando vi que não ia dar tempo de fazer a prova de matemática quase que inteira no ano passado, eu chorava de rir. Eu parecia uma cadeira rangendo. Eu cagava no amor próprio. Tenho certeza que muita gente chorou após essa prova, tenho certeza que houveram aquelas que riram também. Mas eu cagava. A menina do meu lado me olhava aterrorizada, tipo quem botou essa merda desse Coringa do meu lado?
Agora, pras outras provas não caga, não. Essas sim são sérias. Essas selecionam os candidatos mais aptos. E não é que nem o slogan da UFF ano passado, ninguém vai ser extinto se não passar. Mas ainda assim, depois de um ano de pré, não é como se jogar a merda no ventilador fosse uma solução tão sensata, ainda que no ventilador dos outros é refresco. Essas são a prova real, o 'novesfora'.
Pra quem está na merda com a auto-estima toda cagada, só digo isso: ego não faz fotossíntese. Então estuda, porque figurinha repetida no ano seguinte não completa álbum.
Eu acho que todo mundo deveria passar por um ano de pré; faz bem pro ego, faz com que você dê mais valor a suas conquistas. É um ano em que você não trabalha, não constrói ou produz nada durante seu tempo útil; é estar na merda. É o limbo social, o intervalo em sua existência, e o tempo dosado para pensar no tipo de vida que se quer ter.
Leve sempre em consideração que a tendência é piorar, então se você já está insatisfeito agora com o cansaço e com o ritmo de sua rotina, pense na vida acadêmica. Claro que haverá chopadas, veteranos endiabrados e coleguinhas afáveis, mas na hora de sentar pra estudar, amigo, é pra aprender mesmo... E logo depois virão as greves universitárias, os primeiros empregos, a pós que não sai... e a carreira que não vai ser um mar de rosas todos os dias para sempre.
Eu acho que o mais importante do período de pré-vestibular é sempre procurar coisas que te façam esquecer completamente dos estudos. Coisas que cansam mesmo, como esportes, palavras cruzadas, sudoku, música... pra que quando você se deparar com uma apostila de exercícios, queira estar ali resolvendo-os. Porque não adianta forçar quando a palavra de ordem é digressão.
E é sempre uma boa bosta quando até o coleguinha que não fez porra de merda nenhuma o caralho do ano todo passa pra uma curso cool, mas cara, ele não é feliz. O trote dele não foi emocionante. A vida dele está fadada à infelicidade: ele não fez cursinho pré-vestibular.
Sabe o sentido da vida? Ele não encontrou, pode ter certeza.
E outra: sabe o ENEM? CAGA pro ENEM. É uma prova que não testa sua aptidão, seus conhecimentos, sua resistência, nada. Só mede a sua sorte. Então se você não nasceu com a bunda virada pra Lua, leia o horóscopo no jornal antes de sair de casa. Se der zica, nem vai lá fazer a prova, não. Caga.
Cara, quando estou nervosa, eu rio. Eu gargalho pra dentro, que nem um porquinho. Quando vi que não ia dar tempo de fazer a prova de matemática quase que inteira no ano passado, eu chorava de rir. Eu parecia uma cadeira rangendo. Eu cagava no amor próprio. Tenho certeza que muita gente chorou após essa prova, tenho certeza que houveram aquelas que riram também. Mas eu cagava. A menina do meu lado me olhava aterrorizada, tipo quem botou essa merda desse Coringa do meu lado?
Agora, pras outras provas não caga, não. Essas sim são sérias. Essas selecionam os candidatos mais aptos. E não é que nem o slogan da UFF ano passado, ninguém vai ser extinto se não passar. Mas ainda assim, depois de um ano de pré, não é como se jogar a merda no ventilador fosse uma solução tão sensata, ainda que no ventilador dos outros é refresco. Essas são a prova real, o 'novesfora'.
Pra quem está na merda com a auto-estima toda cagada, só digo isso: ego não faz fotossíntese. Então estuda, porque figurinha repetida no ano seguinte não completa álbum.
Nelson Rodrigues que me perdoe
Sinto saudades de fotografar.
Sinto saudades de andar em grupos risonhos, levantando o pó do meio fio junto aos pesados ônibus que passavam a correr.
Sinto saudades de evitar olhares.
Sinto saudades de andar de mãos dadas.
Sinto saudades de sentar meio torta contra uma pilastra suja.
Sinto saudades de deslizar sem obstáculos.
Sinto saudades de me juntar a uma multidão de iguais.
Sinto saudades das piadas de sempre.
Sinto saudades de não saber ao certo o que comíamos.
Sinto saudades daqueles que faziam parte do dia-a-dia apenas por notá-los passarem.
Sinto saudades de encarar o portão fechado, e ter de dar a volta.
Sinto saudades de voltar pra casa no meio da tarde.
Sinto saudades de dosar os gestos para não levantar a saia.
(Sim, eu era muito mais acatada quando usava saia...)
Sinto saudades de andar em grupos risonhos, levantando o pó do meio fio junto aos pesados ônibus que passavam a correr.
Sinto saudades de evitar olhares.
Sinto saudades de andar de mãos dadas.
Sinto saudades de sentar meio torta contra uma pilastra suja.
Sinto saudades de deslizar sem obstáculos.
Sinto saudades de me juntar a uma multidão de iguais.
Sinto saudades das piadas de sempre.
Sinto saudades de não saber ao certo o que comíamos.
Sinto saudades daqueles que faziam parte do dia-a-dia apenas por notá-los passarem.
Sinto saudades de encarar o portão fechado, e ter de dar a volta.
Sinto saudades de voltar pra casa no meio da tarde.
Sinto saudades de dosar os gestos para não levantar a saia.
(Sim, eu era muito mais acatada quando usava saia...)
2 de nov. de 2010
Origami
Todo tipo de arrependimento é anacrônico.
Você faz o que acha que deve ser feito, da forma que julgar mais sensato, e aquilo escapa de suas mãos. Agora é um origami fugidio, uma idéia concreta. Você pode tentar desmontar, redobrar, se contorcer, e inverter, mas não adianta aplicar o conhecimento de agora sobre folha dobrada. É com violência que o tempo se torna implacável, com cartas marcadas, e, olhe só, sem jogo roubado.
Esse olhar pretensioso que jogas pra trás engana; só existe porque hoje descobres o brilho diferente de coisas que não sabias, e por conta dessas coisas o presente amassa o passado, denso feito papel alumínio. E quanto ao futuro, acredito que esse se desdobra, deixando leves sulcos a serem percorridos com os dedos.
Escapar dessas marcas é arrependimento; mas só te tornas consciente disto após tatear o papel liso e indiferente.
Você faz o que acha que deve ser feito, da forma que julgar mais sensato, e aquilo escapa de suas mãos. Agora é um origami fugidio, uma idéia concreta. Você pode tentar desmontar, redobrar, se contorcer, e inverter, mas não adianta aplicar o conhecimento de agora sobre folha dobrada. É com violência que o tempo se torna implacável, com cartas marcadas, e, olhe só, sem jogo roubado.
Esse olhar pretensioso que jogas pra trás engana; só existe porque hoje descobres o brilho diferente de coisas que não sabias, e por conta dessas coisas o presente amassa o passado, denso feito papel alumínio. E quanto ao futuro, acredito que esse se desdobra, deixando leves sulcos a serem percorridos com os dedos.
Escapar dessas marcas é arrependimento; mas só te tornas consciente disto após tatear o papel liso e indiferente.
1 de nov. de 2010
Anel de Malpighi
O anel que eu te dei
era para ser dourado
era para ter durado
sob as formas da lei
daquele que ama
pro ser amado,
antes de
qualquer coisa outra,
de qualquer contrato
Além do esperado
e de tudo o que sei
Amargo, descontado
no final do mês
Lasca de madeira
Vil tronco da terra
que desponta sem firmeza
e se enlaça ao osso, co'o nó
apertado sob a pele
esbranquiçada
esticada
tensionada
e é solto, enfim
a escorregar pelas laterais
de um dedo circuncisado
Amargo, não vingarei mais
sem um amor burguês
era para ser dourado
era para ter durado
sob as formas da lei
daquele que ama
pro ser amado,
antes de
qualquer coisa outra,
de qualquer contrato
Além do esperado
e de tudo o que sei
Amargo, descontado
no final do mês
Lasca de madeira
Vil tronco da terra
que desponta sem firmeza
e se enlaça ao osso, co'o nó
apertado sob a pele
esbranquiçada
esticada
tensionada
e é solto, enfim
a escorregar pelas laterais
de um dedo circuncisado
Amargo, não vingarei mais
sem um amor burguês
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