Ela, que encontra novas mensagens nos filmes de sempre, e guarda-as com tanto esmero com quem se deixa reger pela regra, pela graça, pela desgraça desregrada.
O olhar brilha, a boca entre-abre possuída por um sorriso de entendimento. Esse saber que a perpetra nunca antes havia encontrado espaço por entre as fendas de seu rosto. O tempo passa, as fendas se aprofundam, e ali se aloja o conhecimento tímido, corriqueiro, com medo mortal de ser incompreendido. É ainda menino, procurando aconchego de mulher conhecida.
Ela tem sua poltrona favorita sob os quadris, o tapete magenta sob os pés, a almofada florida sobre o colo. E tem um filme se repetindo na tela diante dela. A gente sabe como acaba, a gente já viu antes. Mas ela guarda cada fala de efeito com tanto esmero, como se não bastasse saltarem do roteiro urgindo por suas próprias tramas paralelas. São falas açucaradas, ou amargas; são armadilhas catárticas que exaurem toda a expressão emocional dos atores, esvaziando-a de credibilidade. Como os mandamentos bíblicos, que ela achou super-moderno desconhecer.
O sol começa a se pôr do lado de fora da janela, embora as cortinas passadas estejam alinhadas em ambos os lados, formando vistosos gomos. A luz da tela ilumina a sala, desenhando contornos estridentes a partir dos objetos sobre a mesa de centro. No seu rosto, a luz branca pinta sombras profundas como sulcos. Os olhos lacrimosos ressecam sem piscar, e ela parece pronta para ser emoldurada.
Esse filme a gente sabe como acaba: sem créditos ou palavras. Apenas a televisão desligada, e ela se levanta, enfim, para regar as plantas em seus vasos.
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