Querendo ou não, brincar com os sonhos de uma pessoa é maldade, ainda que "sempre tenha o ano que vem" para tentar de novo. Mas o que quero dizer é mais abrangente do que o estudante vulnerável a todo esse processo de seleção.
Sei que todos os civis devem achar uma vergonha os fatos que têm decorrido da prova do ENEM, ainda que não possuem parentes ou amigos diretamente envolvidos com isso, mas sei que não comparecerão à passeata do dia 12 pois isso não lhes beneficia diretamente.
Sei também que muitos pré-vestibulandos não comparecerão à passeata porque temos 2 provas importantes neste fim de semana aqui no Rio. E sei que muitos deles já citou alguma vez em alguma redação que os franceses devem ser tidos como exemplo quando se trata do exercício da democracia e da livre expressão. Assim como, na redação de domingo, muitos devem ter escrito que o trabalho traz sim dignidade ao homem sem sequer já ter trabalhado na vida!
Pois bem, somos estudantes. O único compromisso que um estudante de classe média poderia ter nesse instante seria passar no vestibular. Mas diga-me, quantos estarão preocupados com o próprio desempenho nos demais concursos para não demonstrarem ao público a sua insatisfação com o método de seleção? Diga-me, se não nesta fase da vida, quando poderemos manifestar à la francese nossas opiniões publicamente? Quando estivermos estabelecidos profissionalmente, com família e filhos para cuidar?
Se tornou uma questão cultural para o brasileiro não saber se manifestar publicamente. Porque ninguém acredita que a própria iniciativa dará certo, quando nem atitudes conjuntas parecem impactar de alguma forma o todo. E assim, priorizando então as questões individuais às plurais, nada é dito. Quer dizer, é dito sim, entre quatro paredes, ou ao calor de uma churrasqueira, que nada do que é feito nesse país dá certo. E que mesmo as questões que te atingem diretamente não podem ser alteradas.
Será que alguém já pensou que a corrupção dos atos cotidianos, como a música alta do celular ao fundo do ônibus ou o assalto sem armas, só ocorrem porque nada é dito? Será mesmo que a negligência do Estado frente a tantas outras questões só não é possível devido ao silêncio congênito do brasileiro?
O que eu queria mesmo dizer é apenas isso: mesmo que nada vá de fato mudar, espera-se que algo seja dito. Para que saibam, ao menos, que todos aqueles que lhes estão submetidos se importam. E que estão de olho.
Vale a pena conferir: Vestibulando-se, por devaneios viscerais

Mais bem argumentado não poderia estar
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