Pessoalmente prefiro os anos em que a gente termina com o cú na mão.
É uma questão de gosto, eu sei.
31 de dez. de 2010
Minha educação sentimental
Uma história vulgar
"[...]
porque um jovem não pensa seriamente
- esse, aliás, o presente maior da vida –
que o seu destino seja a degradação.
É vulgar esta história como aquelas
que lias distante nos versos alheios:
outro homem compreende que gastou
para sempre a parte mais preciosa
e também a mais breve do seu tempo.
É vulgar esta história
e ao mundo não lhe interessa.
O que tem de novo é que agora
esse homem és tu."
"[...]
porque um jovem não pensa seriamente
- esse, aliás, o presente maior da vida –
que o seu destino seja a degradação.
É vulgar esta história como aquelas
que lias distante nos versos alheios:
outro homem compreende que gastou
para sempre a parte mais preciosa
e também a mais breve do seu tempo.
É vulgar esta história
e ao mundo não lhe interessa.
O que tem de novo é que agora
esse homem és tu."
Resolução de fim de ano (cuidado: moralismo!)
Tem gente que gosta de pensar que não. E sei como é isso: quando mais se quer uma resposta do além, ela não cai do céu. Mas sempre que possível, a vida me dá o gosto de como poderia ser se eu optasse por determinado desfecho. Acho que acontece com todo mundo, quando menos se presta atenção na utilidade daquilo - assim mesmo, meio fora de contexto.
Ninguém me dá pista alguma sobre qual alternativa devo escolher numa encruzilhada, mas penso que (por isso mesmo) essas bifurcações, que não permitem qualquer retomada do antigo caminho, somos nós mesmos que criamos. Porque a vida inteira nos dá o gostinho do que vem em seguida, ainda mais se somos capazes de nos sensibilizarmos com um bom livro ou filme. Esses gostinhos que ficam, sim, são os que não tem volta.
Bom, é isso aí... muito embora do que virá esse ano eu não faça a mínima idéia...
Feliz 2011, galerë, um ano de descobertas e oportunidades longe do lugar-comum!
Ninguém me dá pista alguma sobre qual alternativa devo escolher numa encruzilhada, mas penso que (por isso mesmo) essas bifurcações, que não permitem qualquer retomada do antigo caminho, somos nós mesmos que criamos. Porque a vida inteira nos dá o gostinho do que vem em seguida, ainda mais se somos capazes de nos sensibilizarmos com um bom livro ou filme. Esses gostinhos que ficam, sim, são os que não tem volta.
Bom, é isso aí... muito embora do que virá esse ano eu não faça a mínima idéia...
Feliz 2011, galerë, um ano de descobertas e oportunidades longe do lugar-comum!
30 de dez. de 2010
Roda Viva
"Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...
[...]"
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...
[...]"
Chico Buarque
(versão com Fernanda Porto) http://www.youtube.com/watch?v=4waQ7092O5c
28 de dez. de 2010
Pai da Medicina
Eu sei que acidentes acontecem. O que eu queria mesmo era prevení-los de acontecer, dar um novo rumo às coisas, a possibilidade de que sejam diferentes como poderiam ter sido.
Eu sei que nem tudo pode ser consertado. E é justamente por isso que não entendo porque deixa-se acontecer certas coisas que poderiam ser prevenidas.
As pessoas poderiam preferir os coletivos e evitar muitos acidentes de trânsito, poderiam abdicar a violência como resposta imediata. Pra que investir nessas pessoas que procuram se destruir, procurando na gula, nas drogas, na insalubridade a autosatisfação? A medicina, na prática, pode ser tão paliativa quando emendamos pessoas que não sabem cuidar de si mesmas.
Eu, que tenho tantos motivos para me dar o direito de transgredir, e não consigo deixar de tentar ser melhor, por que eu tenho que cuidar dessas pessoas?
Alguém me explica por que o pai da Medicina se chamava Hipócrates?
Eu quero mesmo... é cuidar de quem não pode fazê-lo sozinho. E mostrar a opção de fazer diferente.
Eu sei que nem tudo pode ser consertado. E é justamente por isso que não entendo porque deixa-se acontecer certas coisas que poderiam ser prevenidas.
As pessoas poderiam preferir os coletivos e evitar muitos acidentes de trânsito, poderiam abdicar a violência como resposta imediata. Pra que investir nessas pessoas que procuram se destruir, procurando na gula, nas drogas, na insalubridade a autosatisfação? A medicina, na prática, pode ser tão paliativa quando emendamos pessoas que não sabem cuidar de si mesmas.
Eu, que tenho tantos motivos para me dar o direito de transgredir, e não consigo deixar de tentar ser melhor, por que eu tenho que cuidar dessas pessoas?
Alguém me explica por que o pai da Medicina se chamava Hipócrates?
Eu quero mesmo... é cuidar de quem não pode fazê-lo sozinho. E mostrar a opção de fazer diferente.
27 de dez. de 2010
Tédio
Quedo o braço lento
ao lado
como se doasse o sangue
que pulsa aos dedos
magros
Quedo o braço lento
ao lado
como se esperasse o afago
de outros dedos
apertado
Mas a agulha não fura
uma mão não se enovela
e o dia tarda a anoitecer.
Quedo o braço lento
ao lado
do corpo
sobre o lençol
limpo
Ninguém viu
nem nada acontece.
ao lado
como se doasse o sangue
que pulsa aos dedos
magros
Quedo o braço lento
ao lado
como se esperasse o afago
de outros dedos
apertado
Mas a agulha não fura
uma mão não se enovela
e o dia tarda a anoitecer.
Quedo o braço lento
ao lado
do corpo
sobre o lençol
limpo
Ninguém viu
nem nada acontece.
Tempo, tempo, tempo
Carai, todos esses blogs que coletam e transcrevem e traduzem poemas de tudo quanto é canto... Pergunta: como que eu chego nesse nível literário? Onde arranjo tais livros? 0.o'
Sinto que sigo meu próprio tempo, e ando tão atrasada!!
Sinto que sigo meu próprio tempo, e ando tão atrasada!!
26 de dez. de 2010
Dois* poeminhas com Sputnik
*dos quais só vou transcrever um...
II
Uma cachorrinha
Girando no espaço
Sozinha, sozinha
Girando no espaço
Uma cachorrinha
Sem rede e sem fome
Girando no espaço
Por causa do homem:
Tanta mulherzinha
Girando no espaço
Por causa de homem...
_Salve, mulherzinha!
_Eia, cachorrinha!
II
Uma cachorrinha
Girando no espaço
Sozinha, sozinha
Girando no espaço
Uma cachorrinha
Sem rede e sem fome
Girando no espaço
Por causa do homem:
Tanta mulherzinha
Girando no espaço
Por causa de homem...
_Salve, mulherzinha!
_Eia, cachorrinha!
Vinícius de Moraes
(em homenagem à cadela Laika)
(em homenagem à cadela Laika)
#300
Assegredado pelas cobertas de um desejo perfeito, me diga se conhecê-lo foi sorte ou acaso.
Ou se, pelos motivos errados descoberta, a empolgação abandonará o seu leito, esmorecida pela falta de calor fora deste.
Sei que tens muito a me dizer ainda.
Comemorando o post #300 com um texto que, pra mim, significa ruptura, estancamento com tudo o que era até então. Porque não dá mais pra ser a mesma depois de 2010. Vou renegar o passado só um pouquinho, mas é que preciso saudar essa novidade!
Ou se, pelos motivos errados descoberta, a empolgação abandonará o seu leito, esmorecida pela falta de calor fora deste.
Sei que tens muito a me dizer ainda.
Comemorando o post #300 com um texto que, pra mim, significa ruptura, estancamento com tudo o que era até então. Porque não dá mais pra ser a mesma depois de 2010. Vou renegar o passado só um pouquinho, mas é que preciso saudar essa novidade!
20 de dez. de 2010
Geração pós-moderna
Percebo hoje, exatamente a partir dessa madrugada, um mundo menos egocentrista do que aparenta; são pessoas buscando em si suas razões, e não depositando no outro o que chamo de "broca" da felicidade.
É bem verdade que minha geração procura menos o próximo - porque pode sabê-lo demais, e desconfiar-lhe -, mas nem todos reconhecem ao certo esse movimento de retorno a si mesmo, buscando assim a devassidão e a superficialidade exposta para preencher o espaço que deveria ser ocupado por aquilo que não sabe ao certo que procura.
Nos afastamos dos outros e olhamos mais para dentro, queremos integridade e mais solidez. Minha geração pode produzir e deter toda a cultura do mundo, e embora muitos traiam esse movimento, minha geração também busca a espontaneidade das relações e das emoções, tanto pelo desapego da Descartabilidade como pela insegurança de "firmar contratos". Insegurança que promove o desapego ao outro, enquanto demanda integridade e solidez de seus sentimentos: encontro neste o nosso grande dilema.
É bem verdade que minha geração procura menos o próximo - porque pode sabê-lo demais, e desconfiar-lhe -, mas nem todos reconhecem ao certo esse movimento de retorno a si mesmo, buscando assim a devassidão e a superficialidade exposta para preencher o espaço que deveria ser ocupado por aquilo que não sabe ao certo que procura.
Nos afastamos dos outros e olhamos mais para dentro, queremos integridade e mais solidez. Minha geração pode produzir e deter toda a cultura do mundo, e embora muitos traiam esse movimento, minha geração também busca a espontaneidade das relações e das emoções, tanto pelo desapego da Descartabilidade como pela insegurança de "firmar contratos". Insegurança que promove o desapego ao outro, enquanto demanda integridade e solidez de seus sentimentos: encontro neste o nosso grande dilema.
19 de dez. de 2010
Posfácio elegante
Todo mundo deveria eleger um dia de seu ano para ser completamente impessoal. Esqueça os melhores amigos, os colegas de trabalho e os passantes - lembre-se apenas disto: ninguém precisa que nada lhe seja dito.
Deveria haver um dia do ano em que se visita a casa, passeia entre os amigos, acopla-se ao cenário. Deveria haver um dia em que nada faz sentido mesmo, e ninguém te diz respeito. Porque é uma verdadeira bênção ter essa consciência de que aquele lugar só se torna parte da sua vida porque assim você o quis. Que de todos os outros lugares e outras pessoas com quem você poderia estar, você está logo ali.
Que nada é tão por acaso como a gente quer.
Esse dia será um dia memorável, do desapego ao resultado, da satisfatória compreensão do presente. Será um dia com lua no décimo-nono andar e cheiro de hidratante caro. E o ônibus que o leva lá, as pessoas que cumprimenta pela manhã, o lugar onde almoça e todos os padrões que se repetem serão agraciados pelo humor. Porque poderiam ter sido de qualquer outra forma que não esta, mas também preferiram estar ali,
daquele jeitinho de sempre.
Relembrar é viver: Na Hora da Verdade
Deveria haver um dia do ano em que se visita a casa, passeia entre os amigos, acopla-se ao cenário. Deveria haver um dia em que nada faz sentido mesmo, e ninguém te diz respeito. Porque é uma verdadeira bênção ter essa consciência de que aquele lugar só se torna parte da sua vida porque assim você o quis. Que de todos os outros lugares e outras pessoas com quem você poderia estar, você está logo ali.
Que nada é tão por acaso como a gente quer.
Esse dia será um dia memorável, do desapego ao resultado, da satisfatória compreensão do presente. Será um dia com lua no décimo-nono andar e cheiro de hidratante caro. E o ônibus que o leva lá, as pessoas que cumprimenta pela manhã, o lugar onde almoça e todos os padrões que se repetem serão agraciados pelo humor. Porque poderiam ter sido de qualquer outra forma que não esta, mas também preferiram estar ali,
daquele jeitinho de sempre.
Relembrar é viver: Na Hora da Verdade
17 de dez. de 2010
Eu só queria dizer...
1. Que não passar no vestibular foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida
2. Que se ele é safado, eu não tenho nada a ver com isso
3. Que eu ando meio sem assunto mesmo, e o silêncio subsequente não me incomoda
4. Que ele ser safado é realmente uma pena
5. Que o posfácio dessa jornada está me dilacerando por dentro
Ai, falei!
15 de dez. de 2010
14 de dez. de 2010
Nova perspectiva (desabafo)
Eu acho que se eu fosse mais extrovertida, talvez me vissem de uma forma diferente. Ninguém nunca vai me perceber como uma igual se lhes faltam tanta perspicácia para perceber os sinais que envio nas coisas que não digo. Serei sempre vista como uma presença altiva, e por vezes arrogante, pela falta de entusiasmo pela multidão.
Acontece que não sei contar histórias. Elas só tem graça quando já se sabe o final, porque impetuosamente desejo acabar de contar o mais rápido possível. Não me sinto apta a segurar a atenção das pessoas por tanto tempo e, ao mesmo tempo, incitar-lhes a imaginação. Ou pode ser também que eu nunca tenha vivido um grande história que pudesse ser contada fora do círculo comum de amizades. Pode ser isso, talvez.
Eu não sou de falar muito. Nunca senti necessidade de falar, quando meus pais insistiam em completar minhas frases por mim. Mas ao contrário do que possa parecer, não era cômodo, mas era minha forma de revidar-lhes. Acho que com o tempo desaprendi os artifícios da fala, e conservei minha expressão no nível mais elementar da linguagem. Eu sou boa em ler rostos, isso eu sei fazer, mas gaguejar e trocar palavras não são habilidades muito valorizadas no discurso oral.
Eu me senti muito orgulhosa de mim quando descobri que poderia escrever e controlar essa 'ejaculação precoce' de palavras (ainda que essa deficiência ainda me ocorra com certa frequência). Mas é um avanço, certo? Posso me comunicar com meu namorado por 'cartinhas', mandar e-mails pros meus pais e enviar sms pros melhores amigos! Só não vou poder contar minhas histórias assim, sob a empolgação de suas presenças.
Acontece que não sei contar histórias. Elas só tem graça quando já se sabe o final, porque impetuosamente desejo acabar de contar o mais rápido possível. Não me sinto apta a segurar a atenção das pessoas por tanto tempo e, ao mesmo tempo, incitar-lhes a imaginação. Ou pode ser também que eu nunca tenha vivido um grande história que pudesse ser contada fora do círculo comum de amizades. Pode ser isso, talvez.
Eu não sou de falar muito. Nunca senti necessidade de falar, quando meus pais insistiam em completar minhas frases por mim. Mas ao contrário do que possa parecer, não era cômodo, mas era minha forma de revidar-lhes. Acho que com o tempo desaprendi os artifícios da fala, e conservei minha expressão no nível mais elementar da linguagem. Eu sou boa em ler rostos, isso eu sei fazer, mas gaguejar e trocar palavras não são habilidades muito valorizadas no discurso oral.
Eu me senti muito orgulhosa de mim quando descobri que poderia escrever e controlar essa 'ejaculação precoce' de palavras (ainda que essa deficiência ainda me ocorra com certa frequência). Mas é um avanço, certo? Posso me comunicar com meu namorado por 'cartinhas', mandar e-mails pros meus pais e enviar sms pros melhores amigos! Só não vou poder contar minhas histórias assim, sob a empolgação de suas presenças.
12 de dez. de 2010
Sobre vertigem
Então é isso que chamam de vertigem; ora o fundo do precipício parece calçar meus pés, ora a idéia de pular derrete meu cérebro já no ponto de partida.
Esse é o tipo de problema que poderia ser solucionado com um mata-borrão, deixando apenas as linhas de contorno no papel. Porque no preenchimento a gente pensa mais tarde; por enquanto, o desafio é se manter íntegro durante todo o processo de quedar-se.
Mas nessas horas, até as ferramentas mais brilhantes já foram extintas das mãos dos homens. Vai que acontece de eu tropeçar e borrar a paisagem toda? Vai que os Vigilantes apagam minhas linhas sem querer pra consertar a realidade?
Vai ver vertigem é isso: pensar nas consequências como num desenho animado. Pode ser um pouco caricatural, mas é, digamos... uma metáfora certeira.
Esse é o tipo de problema que poderia ser solucionado com um mata-borrão, deixando apenas as linhas de contorno no papel. Porque no preenchimento a gente pensa mais tarde; por enquanto, o desafio é se manter íntegro durante todo o processo de quedar-se.
Mas nessas horas, até as ferramentas mais brilhantes já foram extintas das mãos dos homens. Vai que acontece de eu tropeçar e borrar a paisagem toda? Vai que os Vigilantes apagam minhas linhas sem querer pra consertar a realidade?
Vai ver vertigem é isso: pensar nas consequências como num desenho animado. Pode ser um pouco caricatural, mas é, digamos... uma metáfora certeira.
Blues do ano 2000
se até o ano 2000
o mundo
não
acabar
e eu estiver vivo
na rua
ou num bar
eu vou pra sempre te esperar
o blues é assim, baby,
o blues é assim
o mundo
não
acabar
e eu estiver vivo
na rua
ou num bar
eu vou pra sempre te esperar
o blues é assim, baby,
o blues é assim
Ele e aquela cara de carranca. Eu disse. Ela disse que disse. Eu disse o que eu ouvi. Ela riu. Ele e aquela carranca, mal me olhando.
Eu ri também. Ela disse que disse que disse. O que eu queria mesmo era que ele risse. Ela disse que disse que disse que...
Ele esticou os braços. Eu achei que essa era a hora; me aproximei. Ele foi se sentar do outro lado.
O que eu queria mesmo era que ele risse, ingênua. Ele disse que estava apenas cansado.
Ela disse. Eu tornei a repetir. Ela riu.
FIM
Eu ri também. Ela disse que disse que disse. O que eu queria mesmo era que ele risse. Ela disse que disse que disse que...
Ele esticou os braços. Eu achei que essa era a hora; me aproximei. Ele foi se sentar do outro lado.
O que eu queria mesmo era que ele risse, ingênua. Ele disse que estava apenas cansado.
Ela disse. Eu tornei a repetir. Ela riu.
FIM
O último perfil do Orkut
E agora que só me resta o lixo digital, fotos velhas e descrições bastardas; agora que não há mais ninguém para começar o diz-que-diz a respeito do meu álbum mais novo, nem ninguém para dizer que esteve naquela mesma festa naquele dia; agora que não sei por onde tem andado a amiga dela... de que me serve a inclusão digital?
Os links para downloads se encontram às moscas, todos os arquivos foram removidos. Nos fóruns, no players, no game.
Os moderadores de todas as comunidades largaram o osso: eu poderia ser o dono exclusivo de todo esse webspace, e ainda nomear comunidades da forma que quisesse. Mas ninguém riria das minhas tiradas.
É sacal ter um BuddyPoke expressando seu humor para ninguém.
É triste não ser coagido a atualizar a foto do perfil.
E é ainda mais solitário quando ninguém sabe nada a seu respeito, e se você quiser saber sobre eles, tem de perguntar.
Os links para downloads se encontram às moscas, todos os arquivos foram removidos. Nos fóruns, no players, no game.
Os moderadores de todas as comunidades largaram o osso: eu poderia ser o dono exclusivo de todo esse webspace, e ainda nomear comunidades da forma que quisesse. Mas ninguém riria das minhas tiradas.
É sacal ter um BuddyPoke expressando seu humor para ninguém.
É triste não ser coagido a atualizar a foto do perfil.
E é ainda mais solitário quando ninguém sabe nada a seu respeito, e se você quiser saber sobre eles, tem de perguntar.
Resumo
E eis que o que sentia não era medo, era a tamanha amplitude de minhas escolhas, que se acotovelavam para embarcar em meu corpo por uma única fenda.
Resumindo: tomei no cú.
Resumindo: tomei no cú.
11 de dez. de 2010
8 de dez. de 2010
Acabou a luz
Só à luz podem
dentes à mostra
ser uma ameaça
Porque no escuro
dentes são só dentes,
só podem ser
um sorriso
Só à luz pode
o olhar ao alto
gravitar com o cinismo
Porque no escuro
onde quer que estejam,
olhos vêem mais do que
os olhos
Eita que no escuro
tudo parece tão mais claro!
ainda que acabe tua luz
e não sejas tão safo,
antes que te caia a fase
dentes à mostra
ser uma ameaça
Porque no escuro
dentes são só dentes,
só podem ser
um sorriso
Só à luz pode
o olhar ao alto
gravitar com o cinismo
Porque no escuro
onde quer que estejam,
olhos vêem mais do que
os olhos
Eita que no escuro
tudo parece tão mais claro!
ainda que acabe tua luz
e não sejas tão safo,
antes que te caia a fase
1 de dez. de 2010
Por que eu?
Porque quando alguém pergunta "por que eu?", sempre espera que uma verdade reveladora sobre si mesmo fuja ondulante dos lábios de outra pessoa; porque de outra forma, sem que lhe fosse dito, talvez não acreditasse. Até porque se essa verdade escapar dos limites que excluem o absurdo - ao invés de delimitar o acreditável -, não será acatado. O acreditável está sempre sujeito a alterações, enquanto que a verdade reveladora já existia sossegada, sem que no silêncio pudesse ser notada.
Por outro lado, quando alguém pergunta "por que não eu?", é justamente o contrário: o que deseja ouvir é exatamente o que em qualquer outra instância seria incrível. E assim, acredita. Até porque todo o resto que possuir verossimilhança nunca irá satisfazê-lo como resposta. Porque, nesse caso, a verdade pode sim estar sujeita a mutações instantâneas.
Porque é assim que é.
Por outro lado, quando alguém pergunta "por que não eu?", é justamente o contrário: o que deseja ouvir é exatamente o que em qualquer outra instância seria incrível. E assim, acredita. Até porque todo o resto que possuir verossimilhança nunca irá satisfazê-lo como resposta. Porque, nesse caso, a verdade pode sim estar sujeita a mutações instantâneas.
Porque é assim que é.
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