A tia da secretaria,ao pôr um papel na minha frente, sorri ligeiramente diante da minha preocupação acerca do que me propõe. Ela desfila por entre as carteiras, e repete o mesmo ritual para cada aluno, dá as mesmas instruções inúmeras vezes sem se abater, e sai. Bate a porta atrás de si, e sente-se admirada com os vários rostinhos pensantes curvados sobre os papéis que acaba de distribuir. A tia pensa, hoje cumpri meu papel na vida dessas crianças.
Se há censuras exasperadas no corredor, é porque nenhum barulho pode atrapalhar seus meninos. Seu olhos de mãe pela vidraça são de gosto, que tanto afaga o teu cansaço como te desafia a passar por aquela porta sem terminar a sua tarefa.
De tempos em tempos, o tio da limpeza passa do lado de fora, o rosto franzido olhando para frente, mas os olhos perfurando a vidraça de relance. O Grande Irmão está de olho em você.
Esse ritual tem se repetido com frequência. E me pego escrevendo redações como se fosse postá-las aqui no AA, e talvez isso não interesse ao professor de gramática. Talvez eu devesse destrinchar com calma cada argumento, um por parágrafo, e tornar meu ponto de vista irrefutável - ainda que eu não concorde com ele -, e respeitar os tópicos frasais, e usar as palavras certas, sem metáforas ou intertextualidades com obras não-tão-conceituadas.
Não posso recomendar filmes pro meu avaliador!!! E agora?!
E a sala vai se esvaziando lentamente, o som do ar condicionado vai se tornando mais alto... Eu nem sei quais argumentos escolher, são tantas vertentes que posso desenvolver, de tantas formas posso fugir ao tema!
Vou usar a matéria da aula passada de geografia política! Tomara que não mostrem isso pro respectivo professor... Posso imaginar a cara dele, a piadinha cruel, a voz espalhafatosa... Professores de cursinho são uns engraçadinhos!
Às vezes, fico olhando pela janelinha da porta (aliás, a única que tem na sala de aula) pensando, vida de professor de cursinho deve ser cruel. Quer dizer, você torce por aqueles garotos, você faz parte da conquista deles enquanto usufrui suas juventudes transbordando pelo corredor; e no ano seguinte, serão outros garotos, depois outros... As pessoas vão embora fazer algo da vida delas, mas você está sempre ali, por 20 anos vendo garotos crescerem; e você ali, apenas se atualizando na matéria, fazendo volume na torcida, vendo a vida passar por aquelas portas. A forma como trata esses meninos acaba se tornando quase que metódica, basta alguém se rematricular no cursinho no ano seguinte para notar que as piadinhas gratuitas - que salvam a aula dos contínuos monólogos - são as mesmas. Os exemplos são os mesmos.
É tudo muito lindo, nessa belle èpoque, e impessoal.
As famigeradas dissertações argumentativas também o são. Como querem que eu desenvolva uma argumentação sólida a respeito de qualquer coisa, com embasamento cultural e exemplificações cotidianas em tão pouco? Basta você digitar seu texto para ver que 25 linhas não são nada! Eu que sei! Mas vamos lá, escolher 3 argumentos...
Uma vez o professor de literatura, que já fora corretor de provas federais, disse que nunca leu uma redação até o final, bastava enxergar (ou não) a estrutura que se espera que o candidato desenvolva e seguir pra próxima prova. Percebeu? Impessoalidade. Eles querem que essa geração degenerada seja capaz de produzir cultura, mas instalam um modelo de expressão e limite de linhas para as idéias. Caceta, se você nem vai ler meu texto, como quer avaliar minha capacidade de contextualização, de associação de informações interdisciplinares? Numa prova objetiva, à la ENEM?
Tenho certeza que muitos escritores consagrados seriam incapazes de gabaritar a redação dos vestibulares. Tenho convicção de que todo jovem sabe se expressar de alguma forma, e que tem idéias interessantes sobre esses temas incontornáveis. A questão é que a mecanização do processo de correção não quer que seja escrita literatura, querem textos fáceis de dar nota, e seguir para a próxima.
Concluo: se não houvessem estruturas prontas para a desenvoltura do tema, garanto que os professores de literatura se surpreenderiam com o que os secundaristas tem a dizer, ou como o dizem, cada um a sua forma. Os novos Andrades, Lispectors e Drummonds estão aí em algum lugar, aprendendo a moldar seus textos à nota final.
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