6 de mar. de 2010

"Não existe rua com pedras mudas nem casa sem ecos."
Góngora

Ainda assim, nessa cidade que não é a minha, há gente que mija nas calçadas e gente que invade casas aos gritos. Não posso deixar de me sentir estranha aqui, a cada passo que dou levo junto ao corpo os meus pertences como que para absolver outra pessoa de um possível crime. Ainda assim, prefiro andar por ruas vazias. Porque todas aquelas vozes nas calçadas, trazendo seus passos secos, não me dizem nada. É através do chão frio e equacionado ou do teto estrelado de goteiras que essa cidade se revela a mim, com seus sussurros ininteligíveis que só se ouve quando se vaga distraído, como um jovem inutilizando sua vida atrai um velho e bom contador de histórias lustrosas.
A minha cidade, salpicada por novos prédios, não me diz respeito, não me diz nada. Sou surda pra ela. O som que ouço é da cidade que procura conforto em um forasteiro, e mesmo assim não pertencerei a esse lugar.
Tem gente que faz xixi na esquina onde ele beijou sua esposa pela primeira vez. Tem gente que faz um fumódromo do quarto que antes só continha um berço e uma velha cômoda. Os vestígios ficam pelas paredes, debaixo do novo tapete e da argamassa. O Rio de Janeiro faz barulho demais, ainda que não se ouça.

3 comentários:

  1. "a cada passo que dou levo junto ao corpo os meus pertences como que para absolver outra pessoa de um possível crime."

    Essa frase poderia,facilmente,ter nascido dos meus dedos.

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  2. Adorei. Uma escrita incrivelmente madura.

    Eu sei que é irrelevante já que o texto é SEU e reflete SUA OPINIÃO mas eu pessoalmente discordo. Tenho um sentimento muito forte de pertencimento ao Rio.

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  3. hauhauah
    Apesar de tudo, o Rio continua lindo, João. Mas não deixa de ser estranho, porque eu não nasci aqui, nem minha família tem uma história que se mistura com a daqui.
    É difícil explicar...

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