12 de dez. de 2010

Resumo

E eis que o que sentia não era medo, era a tamanha amplitude de minhas escolhas, que se acotovelavam para embarcar em meu corpo por uma única fenda.

Resumindo: tomei no cú.

8 de dez. de 2010

Um sorriso no escuro
é mais sorriso do que
um sorriso no claro
quando brilha a luz
própria dos objetos
tão perto, ao alcance
de seu hálito.

Acabou a luz

Só à luz podem
dentes à mostra
ser uma ameaça
Porque no escuro
dentes são só dentes,
só podem ser
um sorriso

Só à luz pode
o olhar ao alto
gravitar com o cinismo
Porque no escuro
onde quer que estejam,
olhos vêem mais do que
os olhos

Eita que no escuro
tudo parece tão mais claro!
ainda que acabe tua luz
e não sejas tão safo,
antes que te caia a fase

1 de dez. de 2010

Por que eu?

Porque quando alguém pergunta "por que eu?", sempre espera que uma verdade reveladora sobre si mesmo fuja ondulante dos lábios de outra pessoa; porque de outra forma, sem que lhe fosse dito, talvez não acreditasse. Até porque se essa verdade escapar dos limites que excluem o absurdo - ao invés de delimitar o acreditável -, não será acatado. O acreditável está sempre sujeito a alterações, enquanto que a verdade reveladora já existia sossegada, sem que no silêncio pudesse ser notada.
Por outro lado, quando alguém pergunta "por que não eu?", é justamente o contrário: o que deseja ouvir é exatamente o que em qualquer outra instância seria incrível. E assim, acredita. Até porque todo o resto que possuir verossimilhança nunca irá satisfazê-lo como resposta. Porque, nesse caso, a verdade pode sim estar sujeita a mutações instantâneas.
Porque é assim que é.

27 de nov. de 2010

Analógico

Arrasta meu foco como se tivesse as mãos em concha impedindo o fluxo de um córrego, e tomasse meu ponto de luz sobre os dedos acolchoados para outro lugar, como uma pérola fresca. Sabe? E tudo escurecesse ao redor, enquanto parasito e sobrevôo em busca do meu ponto iluminado, que ocultaste com os dedos.
Cada vez que se descuida, que se permite se descuidar, avisto meu foco, minha luz, minha pérola. E só então posso partir escuridão adentro. Às vezes me choco contra outro pontos que não o meu, e isso pode até causar desconforto; podem pensar que lhes roubei. Só que algo me assaltara antes, e nada suprirá esse vazio deformado.
Eu preciso de meu raciocínio, meu foco. Eu preciso desse auto-controle mais do que primordial, mais do que libertário. Eu preciso do meu ponto de luz, como um sol que fora posto em pleno dia.

Afinal, o que querem as mulheres?

a gola da camisa amassada
brincava com o pescoço magro
que encobria sem cobrir
que vestia sem vestir
sambava e expunha um corpo
que mal preenchia um abraço
mas que se interpunha sem ruir

sua delgada presença
execrava a curvada idade
que pesavam de seus óculos robustos
e assim era
olhos brilhantes, cabelos brutos
caudalosos, lábios carnosos
emoldurando um sorriso esguio
debaixo dos pêlos curtos da face

um único ombro desnudo
ainda escapa desse invólucro mordaz
que perdeu o último botão
(ou o primeiro,
tanto fez como tanto faz!),
que importa, se esse pescoço ninguém laça
se teu rosto ninguém sombreia
se tua voz não se acoleira
ele é livre
para se despir
para se interpor
e emoldurar sua presença
estreita
e magra.