6 de abr. de 2010
"Mas a chuva é minha amiga, e eu não vou me resfriar..."
E respondia, arteira, às preocupações da outra, que tão pouco descobrira da vida, dos homens e do mundo.
_Vó, mas e se chover?
_Ué, menina! Molha...
_Vó, mas e se chover?
_Ué, menina! Molha...
Sob a grossa garoa
Me sinto batizada, mesmo longe de meu berço. Fui cativa de um engarrafamento de 3 horas na marginal de um valão; só faltou o túnel encher d'água. (Nunca vou entender esses doces cariocas, que fecham todas as janelas da condução em sincronia ao menor sinal de garoa, mas tá valendo.)
Esses pingos desengonçados, espaçados, pesados... não sabem se comportar como uma fina garoa, que gela sem molhar, que aconchega cada um em seu lugar. Mas não me importei muito, as risadas rolavam soltas, até porque para muitos ficar dentro do ônibus era melhor do que descer, à procura da calçada. Gradativamente os celulares iam tocando, como uma onda agora dentro do automóvel. Os toques estabeleciam uma sinfonia bizarra, se complemetando no ar, se confundindo, e ninguém do outro lado da linha parecia acreditar no engarrafamento em que estávamos metidos. Muitos melhores amigos ajudavam a passar o tempo, muitos planos foram desfeitos, muitos filhos estavam com fome; mas reclamar não vai trazer ninguém mais rápido para casa. Gente, não é desculpa não, é sério, tá? Tá tudo parado!
E quem liga?
Esses pingos desengonçados, espaçados, pesados... não sabem se comportar como uma fina garoa, que gela sem molhar, que aconchega cada um em seu lugar. Mas não me importei muito, as risadas rolavam soltas, até porque para muitos ficar dentro do ônibus era melhor do que descer, à procura da calçada. Gradativamente os celulares iam tocando, como uma onda agora dentro do automóvel. Os toques estabeleciam uma sinfonia bizarra, se complemetando no ar, se confundindo, e ninguém do outro lado da linha parecia acreditar no engarrafamento em que estávamos metidos. Muitos melhores amigos ajudavam a passar o tempo, muitos planos foram desfeitos, muitos filhos estavam com fome; mas reclamar não vai trazer ninguém mais rápido para casa. Gente, não é desculpa não, é sério, tá? Tá tudo parado!
E quem liga?
4 de abr. de 2010
Púrpura
Um dia conheci uma menina cor de areia de praia, ou de miolo de pão. Uma menina doce, de sorriso alvo e palavras contidas. Eu morria de medo de lhe falar e de romper sua candura com minha insensibilidade, porque ela me parecia uma chama sem cor que eu poderia afastar com o sopro de minha voz. Assim, observei-a de longe por muito tempo.
Houve um dia, não sei bem porquê, o vento a trouxe até mim de novo. Eu sentia que meus segredos não escapariam por um suspiro seu, e que de certa forma, ela me revelava seus mistérios com a suavidade que lhe é única. Sua naturalidade parecia desinibir qualquer segredo, da mesma forma que suas palavras haviam lhe dado novas cores. Ela sempre fora tão gentil comigo, tão aconchegante com suas palavras, mas sempre terá tons frios. Ela tem nome de heroína, de musa, mas parece guardar só para si uma dorzinha latente, que só outro dia pude perceber em sua voz, num lapso entre um riso e um suspiro. Ela, que me encoraja a resguardar minhas palavras até a maturação adequada, não gosta de falar de si mesma, portanto nunca lhe perguntei.
Ela vive em um mundo idílico, capaz de inspirar até em mim a sensibilidade de uma poesia, e que conferiu sentido ao seu temperamento de todo amável, que antes me parecia impossível de um ser humano. Contudo, ainda não consigo aceitar que por trás de toda a sua candura e suas diversas cores haja o mínimo vestígio de qualquer obscuridade.
Por isso, se eu pudesse te dar uma cor, te daria a cor da inspiração, da transformação e da intuição espiritual. Eu te daria um mundo inteiro púrpura.
Hihi, essa menina é pura poesia.
Houve um dia, não sei bem porquê, o vento a trouxe até mim de novo. Eu sentia que meus segredos não escapariam por um suspiro seu, e que de certa forma, ela me revelava seus mistérios com a suavidade que lhe é única. Sua naturalidade parecia desinibir qualquer segredo, da mesma forma que suas palavras haviam lhe dado novas cores. Ela sempre fora tão gentil comigo, tão aconchegante com suas palavras, mas sempre terá tons frios. Ela tem nome de heroína, de musa, mas parece guardar só para si uma dorzinha latente, que só outro dia pude perceber em sua voz, num lapso entre um riso e um suspiro. Ela, que me encoraja a resguardar minhas palavras até a maturação adequada, não gosta de falar de si mesma, portanto nunca lhe perguntei.
Ela vive em um mundo idílico, capaz de inspirar até em mim a sensibilidade de uma poesia, e que conferiu sentido ao seu temperamento de todo amável, que antes me parecia impossível de um ser humano. Contudo, ainda não consigo aceitar que por trás de toda a sua candura e suas diversas cores haja o mínimo vestígio de qualquer obscuridade.
Por isso, se eu pudesse te dar uma cor, te daria a cor da inspiração, da transformação e da intuição espiritual. Eu te daria um mundo inteiro púrpura.
Hihi, essa menina é pura poesia.
3 de abr. de 2010
2 de abr. de 2010
Ushuaia
Não sei se já a mencionei antes aqui no AA (hauahauah), mas recomendo a leitura da crônica a seguir ouvindo "Knocked Up", do Kings of Leon. Acho que joguei fora o texto que devia mencioná-la, mas enfim, ela delineia bem na sua harmonia a sensação que tento passar nesse texto (a parte sobre fertilidade só me ocorreu depois ouvindo mais atentamente a letra rs)
Quando esparramo meu corpo estreito na cama uma densa matéria quebranta meus limites geográficos e inunda a imensidão do espaço vazio. Só que sou tão contida dentro de minhas fronteiras que tudo o que me transpassa não tem o menor sentido, se debate em meu leito em desatinado prurido. Esse infinito aborto drena meus excessos viscosos, impermeabiliza minhas extremidades contra o mundo sobrecutâneo e esvazia a pressão interna por alguns minutos; esses acabam se tornando seus propósitos, quando a verdade verdadeira é que infertilizo o meio que cultivo com minha essência. A esterilidade do ambiente me acalma, me unifica, me delimita. Eu não sou possível fora do meu corpo.
Se penso-o, emerge a palavra discrepância. É sonora, é concreta, mas ainda não é precisa. Meu físico se expressa em relevos, de acidente em acidente... se pudesse me ver sem os olhos seria uma cordilheira, de fossas deixadas nos lençóis. E cada um de meus cumes a neve desprendida lubrificaria em obtusa imersão.
Uma lufada de ar se estreita pelos ventres, afaga minhas arestas. O eco é voz. O som adentra as montanhas e insurge como pensamento. Autônomo e recém-nascido, refratando o próprio caminho. Os vales reverberam antes de se preencherem de um valioso silêncio; a neve ali assentada, na noite passada, não deixa marcas nem pegadas. Todas as montanhas respiram juntas sob os poucos raios de sol, criando em toda a paisagem minúsculos espelhinhos luminosos. O vento pára, e respira com todo o conjunto.
Meu corpo irregular se inscreve em seus sulcos, cada fenda é apenas um risco escuro à superfície, e nada mais. São uma manifestação arrogante a todas as coisas que não podem entrar; a todos os animais e plantas que não fazem parte de tanta terra, pedra, água e luz. É um lugar inóspito que não esconde a vida que pulsa dentro de suas fendas, que não tolera tanta inquietude de tantos que não conhecem o valor do silêncio. O silêncio que se expande do ventre à superfície, envolvendo o nascimento de cada pensamento andante que vai percorrer o mundo.
Do meu silencioso ventre nasce o pensamento, já é hora de levantar; de deter os berros do despertador que ainda adormece em paz.
Quando esparramo meu corpo estreito na cama uma densa matéria quebranta meus limites geográficos e inunda a imensidão do espaço vazio. Só que sou tão contida dentro de minhas fronteiras que tudo o que me transpassa não tem o menor sentido, se debate em meu leito em desatinado prurido. Esse infinito aborto drena meus excessos viscosos, impermeabiliza minhas extremidades contra o mundo sobrecutâneo e esvazia a pressão interna por alguns minutos; esses acabam se tornando seus propósitos, quando a verdade verdadeira é que infertilizo o meio que cultivo com minha essência. A esterilidade do ambiente me acalma, me unifica, me delimita. Eu não sou possível fora do meu corpo.
Se penso-o, emerge a palavra discrepância. É sonora, é concreta, mas ainda não é precisa. Meu físico se expressa em relevos, de acidente em acidente... se pudesse me ver sem os olhos seria uma cordilheira, de fossas deixadas nos lençóis. E cada um de meus cumes a neve desprendida lubrificaria em obtusa imersão.
Uma lufada de ar se estreita pelos ventres, afaga minhas arestas. O eco é voz. O som adentra as montanhas e insurge como pensamento. Autônomo e recém-nascido, refratando o próprio caminho. Os vales reverberam antes de se preencherem de um valioso silêncio; a neve ali assentada, na noite passada, não deixa marcas nem pegadas. Todas as montanhas respiram juntas sob os poucos raios de sol, criando em toda a paisagem minúsculos espelhinhos luminosos. O vento pára, e respira com todo o conjunto.
Meu corpo irregular se inscreve em seus sulcos, cada fenda é apenas um risco escuro à superfície, e nada mais. São uma manifestação arrogante a todas as coisas que não podem entrar; a todos os animais e plantas que não fazem parte de tanta terra, pedra, água e luz. É um lugar inóspito que não esconde a vida que pulsa dentro de suas fendas, que não tolera tanta inquietude de tantos que não conhecem o valor do silêncio. O silêncio que se expande do ventre à superfície, envolvendo o nascimento de cada pensamento andante que vai percorrer o mundo.
Do meu silencioso ventre nasce o pensamento, já é hora de levantar; de deter os berros do despertador que ainda adormece em paz.
27 de mar. de 2010
Invisível
Este é meu rosto. Às vezes implico com ele, às vezes brinco com suas expressões. Se forço algumas rugas ao redor das minhas eventuais espinhas, minhas veias saltam. Às vezes me sinto meio andrógena a seu respeito, mas ninguém deve reparar tanto assim nele. Eu tenho cara de quem esconde alguma coisa; culpo as sobrancelhas sempre convergindo sobre o nariz.
Esse é meu corpo. Ele tem marcas, pêlos encravados, costelas salientes. Ele se comporta elegantemente quando esqueço que o tenho, a ponto de me arrepender de não prestar a devida atenção. Devidamente coberto de pele, e mesmo assim nem todo ele você pode ver. Aprendi a gostar das minhas roupas porque elas podem falar por mim antes que eu precise tomar coragem, muito embora as palavras que eu realmente quisesse dizer se condensassem sobre a pele. Tem gente que só ouve as roupas, tem gente que só degusta a pele, mas ao menos alguém vê as palavras.
Essa é minha mente. Se consigo definí-la, descrevo-a aguda, estridente, ágil. Ela é sensível a quase tudo, nada passa completamente despercebido; grande parte do tempo, ela fica apenas rebolando fora de ritmo, sem par para dançar. Os pensamentos mais fantásticos que tenho são sempre cortados ao meio, e tenho que laboriosamente resgatá-lo do esquecimento, ou da sobreposição de idéias oportunistas. É inconveniente escutar sua própria voz o tempo todo, sabendo que ninguém vai ouvir quando algo importante surgir; ainda mais quando só você é obrigado a ouvir sempre a mesma porcaria todo dia. Eu queria calar a boca da minha cabeça, sério.
Essa é minha rotina. Por horas eu controlo etapas importantes desta, com força, com rédeas, na marra. Os momentos que eu me acho mais bonita só ocorrem quando ninguém está vendo, quando não estou me importando que vejam. E mesmo assim, nem todos eles você pode ver. Eu gostava de ter um tempo reservado para pensar em nada, eu me sentia resolvida e, de repente, eu era mais bonita. Eu gostava de me sentir bonita sem estar bem vestida, fazia parecer fácil amar alguém mesmo que ele não se esforçasse para ser amado. Faz parte da minha rotina brincar com meu rosto, ouvir meu corpo, brigar com minha mente; só que fazer parte do meu dia-a-dia não é suficiente, se sei que para você, e pra todo mundo, tudo isso é transparente.
Esse é meu corpo. Ele tem marcas, pêlos encravados, costelas salientes. Ele se comporta elegantemente quando esqueço que o tenho, a ponto de me arrepender de não prestar a devida atenção. Devidamente coberto de pele, e mesmo assim nem todo ele você pode ver. Aprendi a gostar das minhas roupas porque elas podem falar por mim antes que eu precise tomar coragem, muito embora as palavras que eu realmente quisesse dizer se condensassem sobre a pele. Tem gente que só ouve as roupas, tem gente que só degusta a pele, mas ao menos alguém vê as palavras.
Essa é minha mente. Se consigo definí-la, descrevo-a aguda, estridente, ágil. Ela é sensível a quase tudo, nada passa completamente despercebido; grande parte do tempo, ela fica apenas rebolando fora de ritmo, sem par para dançar. Os pensamentos mais fantásticos que tenho são sempre cortados ao meio, e tenho que laboriosamente resgatá-lo do esquecimento, ou da sobreposição de idéias oportunistas. É inconveniente escutar sua própria voz o tempo todo, sabendo que ninguém vai ouvir quando algo importante surgir; ainda mais quando só você é obrigado a ouvir sempre a mesma porcaria todo dia. Eu queria calar a boca da minha cabeça, sério.
Essa é minha rotina. Por horas eu controlo etapas importantes desta, com força, com rédeas, na marra. Os momentos que eu me acho mais bonita só ocorrem quando ninguém está vendo, quando não estou me importando que vejam. E mesmo assim, nem todos eles você pode ver. Eu gostava de ter um tempo reservado para pensar em nada, eu me sentia resolvida e, de repente, eu era mais bonita. Eu gostava de me sentir bonita sem estar bem vestida, fazia parecer fácil amar alguém mesmo que ele não se esforçasse para ser amado. Faz parte da minha rotina brincar com meu rosto, ouvir meu corpo, brigar com minha mente; só que fazer parte do meu dia-a-dia não é suficiente, se sei que para você, e pra todo mundo, tudo isso é transparente.
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