Eu acho que se eu fosse mais extrovertida, talvez me vissem de uma forma diferente. Ninguém nunca vai me perceber como uma igual se lhes faltam tanta perspicácia para perceber os sinais que envio nas coisas que não digo. Serei sempre vista como uma presença altiva, e por vezes arrogante, pela falta de entusiasmo pela multidão.
Acontece que não sei contar histórias. Elas só tem graça quando já se sabe o final, porque impetuosamente desejo acabar de contar o mais rápido possível. Não me sinto apta a segurar a atenção das pessoas por tanto tempo e, ao mesmo tempo, incitar-lhes a imaginação. Ou pode ser também que eu nunca tenha vivido um grande história que pudesse ser contada fora do círculo comum de amizades. Pode ser isso, talvez.
Eu não sou de falar muito. Nunca senti necessidade de falar, quando meus pais insistiam em completar minhas frases por mim. Mas ao contrário do que possa parecer, não era cômodo, mas era minha forma de revidar-lhes. Acho que com o tempo desaprendi os artifícios da fala, e conservei minha expressão no nível mais elementar da linguagem. Eu sou boa em ler rostos, isso eu sei fazer, mas gaguejar e trocar palavras não são habilidades muito valorizadas no discurso oral.
Eu me senti muito orgulhosa de mim quando descobri que poderia escrever e controlar essa 'ejaculação precoce' de palavras (ainda que essa deficiência ainda me ocorra com certa frequência). Mas é um avanço, certo? Posso me comunicar com meu namorado por 'cartinhas', mandar e-mails pros meus pais e enviar sms pros melhores amigos! Só não vou poder contar minhas histórias assim, sob a empolgação de suas presenças.
14 de dez. de 2010
12 de dez. de 2010
Sobre vertigem
Então é isso que chamam de vertigem; ora o fundo do precipício parece calçar meus pés, ora a idéia de pular derrete meu cérebro já no ponto de partida.
Esse é o tipo de problema que poderia ser solucionado com um mata-borrão, deixando apenas as linhas de contorno no papel. Porque no preenchimento a gente pensa mais tarde; por enquanto, o desafio é se manter íntegro durante todo o processo de quedar-se.
Mas nessas horas, até as ferramentas mais brilhantes já foram extintas das mãos dos homens. Vai que acontece de eu tropeçar e borrar a paisagem toda? Vai que os Vigilantes apagam minhas linhas sem querer pra consertar a realidade?
Vai ver vertigem é isso: pensar nas consequências como num desenho animado. Pode ser um pouco caricatural, mas é, digamos... uma metáfora certeira.
Esse é o tipo de problema que poderia ser solucionado com um mata-borrão, deixando apenas as linhas de contorno no papel. Porque no preenchimento a gente pensa mais tarde; por enquanto, o desafio é se manter íntegro durante todo o processo de quedar-se.
Mas nessas horas, até as ferramentas mais brilhantes já foram extintas das mãos dos homens. Vai que acontece de eu tropeçar e borrar a paisagem toda? Vai que os Vigilantes apagam minhas linhas sem querer pra consertar a realidade?
Vai ver vertigem é isso: pensar nas consequências como num desenho animado. Pode ser um pouco caricatural, mas é, digamos... uma metáfora certeira.
Blues do ano 2000
se até o ano 2000
o mundo
não
acabar
e eu estiver vivo
na rua
ou num bar
eu vou pra sempre te esperar
o blues é assim, baby,
o blues é assim
o mundo
não
acabar
e eu estiver vivo
na rua
ou num bar
eu vou pra sempre te esperar
o blues é assim, baby,
o blues é assim
Ele e aquela cara de carranca. Eu disse. Ela disse que disse. Eu disse o que eu ouvi. Ela riu. Ele e aquela carranca, mal me olhando.
Eu ri também. Ela disse que disse que disse. O que eu queria mesmo era que ele risse. Ela disse que disse que disse que...
Ele esticou os braços. Eu achei que essa era a hora; me aproximei. Ele foi se sentar do outro lado.
O que eu queria mesmo era que ele risse, ingênua. Ele disse que estava apenas cansado.
Ela disse. Eu tornei a repetir. Ela riu.
FIM
Eu ri também. Ela disse que disse que disse. O que eu queria mesmo era que ele risse. Ela disse que disse que disse que...
Ele esticou os braços. Eu achei que essa era a hora; me aproximei. Ele foi se sentar do outro lado.
O que eu queria mesmo era que ele risse, ingênua. Ele disse que estava apenas cansado.
Ela disse. Eu tornei a repetir. Ela riu.
FIM
O último perfil do Orkut
E agora que só me resta o lixo digital, fotos velhas e descrições bastardas; agora que não há mais ninguém para começar o diz-que-diz a respeito do meu álbum mais novo, nem ninguém para dizer que esteve naquela mesma festa naquele dia; agora que não sei por onde tem andado a amiga dela... de que me serve a inclusão digital?
Os links para downloads se encontram às moscas, todos os arquivos foram removidos. Nos fóruns, no players, no game.
Os moderadores de todas as comunidades largaram o osso: eu poderia ser o dono exclusivo de todo esse webspace, e ainda nomear comunidades da forma que quisesse. Mas ninguém riria das minhas tiradas.
É sacal ter um BuddyPoke expressando seu humor para ninguém.
É triste não ser coagido a atualizar a foto do perfil.
E é ainda mais solitário quando ninguém sabe nada a seu respeito, e se você quiser saber sobre eles, tem de perguntar.
Os links para downloads se encontram às moscas, todos os arquivos foram removidos. Nos fóruns, no players, no game.
Os moderadores de todas as comunidades largaram o osso: eu poderia ser o dono exclusivo de todo esse webspace, e ainda nomear comunidades da forma que quisesse. Mas ninguém riria das minhas tiradas.
É sacal ter um BuddyPoke expressando seu humor para ninguém.
É triste não ser coagido a atualizar a foto do perfil.
E é ainda mais solitário quando ninguém sabe nada a seu respeito, e se você quiser saber sobre eles, tem de perguntar.
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