Num quarto escuro de olhos fechados. Nem assim o que vejo é o preto-negro da paleta de aquarelas. Será que desbotaram meus olhos?
Meu deus, o que aconteceu com a escuridão abismal, de conjurar a eternidade, e desverter claustrofóbicos? A escuridão é cinza escuro agora, quase de se levar a sério, desbotada. Será que embaçaram minhas lentes anteriores aos óculos, ou houve corte de orçamento na pintura da realidade?
Saturaram a matiz da hipotética escuridão; e eu, que sempre achei que negra era uma câmara escura. Oh, céus, como dormir agora, quando desfila tanta claridade debaixo de minhas pálpebras - meus branquinhos globos oculares, eu já devia desconfiar que não me levavam a sério...
Sinto que escapa luz de trás de meus olhos, de dentro da minha cabeça. Algo queima e dilata de dentro pra fora. Meus olhos vão fugir às órbitas; minha cabeça vai explodir de um grito contido. E a lânguida escuridão desse quarto, lesada, vai ser tomada por um clarão tão forte, tão forte e súbito, que silhuetas ficarão marcadas na parede, como a explosão de uma bomba radioativa. Um forte flash, pausa pra foto. E quando eu abrir os olhos, a escuridão vai ser da cor que eu quiser.
9 de abr. de 2011
6 de abr. de 2011
Há uma linha muito tênue entre o querer e o não-querer; porque num minuto se quer, mas de que adianta se em seguida não se quer mais? É como enrolar uma cartolina, e pelo buraco pensar que assim enxerga as coisas mais de perto. Mentira. Só deixa de ver todas as outras. O querer também funciona assim, é esquecido do mundo - que dirá o bem-querer...
E o não-querer abre portas? Fecha-as com violência? Quem irá dizer...
Melhor: o que é que eu estava dizendo?
E o não-querer abre portas? Fecha-as com violência? Quem irá dizer...
Melhor: o que é que eu estava dizendo?
4 de abr. de 2011
Laboratório sentimental
Falam que essa vida só se faz completa pra quem mergulha de cabeça, mas eu não tenho esse ânimo todo. Eu acho que tem certas coisas que não são tão fáceis de perceber, e que são essenciais (aha!); talvez por isso esses que tanto dizem tenham de mergulhar de cabeça pra preencher a falta de perspectiva, do essencial, as limitadas opções de futuro.
Foi pra descobrir isso que ainda vou apanhar na rua.
Foi pra descobrir isso que ainda vou apanhar na rua.
2 de abr. de 2011
Sobre imagem, rosto e nome
"_Imagine que você tenha vivido num mundo em que não existem espelhos. Você teria sonhado com o seu rosto, o teria imaginado como uma espécie de reflexo exterior daquilo que se encontra em você. E depois, suponha que com quarenta anos tenham-lhe estendido um espelho. Imagine seu espanto. Teria visto um rosto totalmente estranho. E compreenderia nitidamente aquilo que recusa a admitir: seu rosto não é você.
_Agnes, disse Paulo levantando-se. Estava bem próximo dela. Nos olhos de Paulo via o amor; e nos traços de Paulo, sua sogra. Parecia-se com ela, como a sogra, sem dúvida, parecia-se com o pai, que por sua vez se parecia com alguém. A primeira vez em que vira essa mulher, Agnes se sentira muito perturbada com a sua semelhança física com o filho. Mais tarde, quando fizera amor com Paulo, uma espécie de crueldade trouxe-lhe de volta essa semelhança, em ponto de parecer-lhe em alguns momentos que havia uma senhora de idade deitada sobre ela, o rosto deformado pelo prazer. Mas há muito tempo Paulo esquecera que levava em seu rosto o decalque de sua mãe, certo de que seu rosto era seu e de nenhuma outra pessoa.
_Nosso nome, também, vem por acaso, prosseguiu ela, sem que saibamos quando apareceu no mundo, nem como nosso desconhecido antepassado o conseguiu. Não compreendemos absolutamente esse nome, não conhecemos sua história, e mesmo assim o usamos com grande fidelidade, nos confundimos com ele, gostamos dele, somos ridiculamente orgulhosos dele, como se o tivéssemos inventado num lance de genial inspiração. Quanto ao rosto, é a mesma coisa. Lembro-me, isso deve ter acontecido no fim da minha infância [...]
_[...] O que há com você, Agnes? O que anda acontecendo com você ultimamente?"
_Agnes, disse Paulo levantando-se. Estava bem próximo dela. Nos olhos de Paulo via o amor; e nos traços de Paulo, sua sogra. Parecia-se com ela, como a sogra, sem dúvida, parecia-se com o pai, que por sua vez se parecia com alguém. A primeira vez em que vira essa mulher, Agnes se sentira muito perturbada com a sua semelhança física com o filho. Mais tarde, quando fizera amor com Paulo, uma espécie de crueldade trouxe-lhe de volta essa semelhança, em ponto de parecer-lhe em alguns momentos que havia uma senhora de idade deitada sobre ela, o rosto deformado pelo prazer. Mas há muito tempo Paulo esquecera que levava em seu rosto o decalque de sua mãe, certo de que seu rosto era seu e de nenhuma outra pessoa.
_Nosso nome, também, vem por acaso, prosseguiu ela, sem que saibamos quando apareceu no mundo, nem como nosso desconhecido antepassado o conseguiu. Não compreendemos absolutamente esse nome, não conhecemos sua história, e mesmo assim o usamos com grande fidelidade, nos confundimos com ele, gostamos dele, somos ridiculamente orgulhosos dele, como se o tivéssemos inventado num lance de genial inspiração. Quanto ao rosto, é a mesma coisa. Lembro-me, isso deve ter acontecido no fim da minha infância [...]
_[...] O que há com você, Agnes? O que anda acontecendo com você ultimamente?"
Trecho de A Imortalidade, de Milan Kundera
Sobre imagem e imagólogos
"_ [...] O homem não é nada além de sua imagem. Os filósofos podem nos explicar que a opinião do mundo conta pouco e que só consta aquilo que somos. Mas os filósofos não compreendem nada. Enquanto vivermos entre os homens, seremos aquilo que os seres humanos acham que somos. Passamos por patifes ou espertalhões quando no fundo nos perguntamos sem parar como os outros nos enxergam, quando nos esforçamos por parecer o mais simpáticos que podemos. Mas entre meu eu e o do outro, será que existe um contato direto, sem os olhos como intermediários? É possível pensar o amor sem a busca angustiada de sua própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando o que o outro pensa de nós não tem mais importância, é porque deixamos de amá-lo.
_Você tem razão, disse Bernardo com sua voz baixa.
_É uma ilusão ingênua achar que nossa imagem é uma simples aparência, atrás da qual se esconderia a verdadeira substância do nosso eu, independente do olhar do mundo. Com um cinismo radical, os imagólogos provam o que contrário é verdadeiro: nosso eu é uma simples aparência, inatingível, indescritível, confusa, enquanto que a única realidade, fácil demais de apreender e de descrever, é nossa imagem nos olhos dos outros. E pior, você não tem o comando sobre isso. Você primeiro tenta pintá-la você mesmo, depois pelo menos conserva uma influência sobre ela, controlá-la, mas em vão: basta uma fórmula maldosa para transformá-la para sempre numa lamentável caricatura."
_Você tem razão, disse Bernardo com sua voz baixa.
_É uma ilusão ingênua achar que nossa imagem é uma simples aparência, atrás da qual se esconderia a verdadeira substância do nosso eu, independente do olhar do mundo. Com um cinismo radical, os imagólogos provam o que contrário é verdadeiro: nosso eu é uma simples aparência, inatingível, indescritível, confusa, enquanto que a única realidade, fácil demais de apreender e de descrever, é nossa imagem nos olhos dos outros. E pior, você não tem o comando sobre isso. Você primeiro tenta pintá-la você mesmo, depois pelo menos conserva uma influência sobre ela, controlá-la, mas em vão: basta uma fórmula maldosa para transformá-la para sempre numa lamentável caricatura."
Trecho de A Imortalidade, de Milan Kundera
Estranhamente tenho pensado muito nisso. O que é que deixo transparecer, e o quanto isso é sincero. E principalmente: todos esses vilões de novela não podem manipular a própria imagem tão bem assim, as vítimas que não se apegam aos estranhos detalhes do que lhes é disposto. Parece até que já cheguei a alguma conclusão, mas a pergunta é um pouco mais elaborada do que isso, mas não quer se fixar no papel de jeito nenhum.
Aliado de seus próprios coveiros
"_Vou lhe dizer uma coisa, Paulo, disse Grizzly com sua inquietante lentidão, e podia-se dizer que ia levantar sua pesada pata para aplicar um golpe: se a grande cultura está perdida, você também está, e essas idéias paradoxais junto com você, porque o paradoxo como tal tem como base a grande cultura e não as gritarias infantis. Você me faz penar nesses jovens que antigamente aderiam aos movimentos nazista ou comunista, não com a intenção de praticar o mal nem por arrivismo, mas por excesso de inteligência. Nada na realidade realidade exige mais esforço do pensamneto do que a argumentação necessária para justificar o não-pensamento. Pude constatar isso depois da guerra, quando os intelectuais e artistas entraram como bezerros para o partido comunista, que depois, com o maior prazer, liquidou-os sistematicamente. Você faz exatamente a mesma coisa. Você é o brilhante aliado de seus próprios coveiros."
Trecho de A Imortalidade, de Milan Kundera
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