Num quarto escuro de olhos fechados. Nem assim o que vejo é o preto-negro da paleta de aquarelas. Será que desbotaram meus olhos?
Meu deus, o que aconteceu com a escuridão abismal, de conjurar a eternidade, e desverter claustrofóbicos? A escuridão é cinza escuro agora, quase de se levar a sério, desbotada. Será que embaçaram minhas lentes anteriores aos óculos, ou houve corte de orçamento na pintura da realidade?
Saturaram a matiz da hipotética escuridão; e eu, que sempre achei que negra era uma câmara escura. Oh, céus, como dormir agora, quando desfila tanta claridade debaixo de minhas pálpebras - meus branquinhos globos oculares, eu já devia desconfiar que não me levavam a sério...
Sinto que escapa luz de trás de meus olhos, de dentro da minha cabeça. Algo queima e dilata de dentro pra fora. Meus olhos vão fugir às órbitas; minha cabeça vai explodir de um grito contido. E a lânguida escuridão desse quarto, lesada, vai ser tomada por um clarão tão forte, tão forte e súbito, que silhuetas ficarão marcadas na parede, como a explosão de uma bomba radioativa. Um forte flash, pausa pra foto. E quando eu abrir os olhos, a escuridão vai ser da cor que eu quiser.
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