Uma risada rasga o mundo, e sei por aquela fresta na realidade que atrás do que é aparente há algo muito mais pastoso e suave; manteiga fresca no pão fresco. Às vezes tenho altura pra olhar através do buraco redondo na cerca aplainada, e vejo morno o que se configura como verdadeiro mas não poderia estar sobreposto à realidade. E ora não tenho altura, e só carrego no bolso a rolha física; que outra prova poderia eu ter da metafísica do mundo, se não a rolha do buraco por onde ela escoa?
É um exercício de alma se esticar tanto pra enxergar, sem pé a pé do irmão ou pódio pra subir. Ora, você acredita nas coisas que vê, mas os cegos fazem como? Será que a nossa fé pode ser tão forte quanto a de um cego? Então, acreditar com rolha na mão é quase ver. É lembrar pra ver, mas acreditar sem estar vendo. E quando se vê o que há pra ver, e nada mais, é até saber.
Eu passava pelo mundo de olhos bem abertos e não via, transpassava e tornava a desperceber. Até que por atrito um rasgo se deu e me deu o gosto do que tem por detrás, do que poderia ser. Feito orgasmo em camisinha rompida. E desde então, é exercício de alma isso de tornar a ver. Não entendo quem acredita a vida toda sem nunca ter visto, e fica sempre pequeno, sem altura pra bisbilhotar.
Hoje não há mais atritos com o mundo, a realidade se move lasciva e sempre deixa uma brecha pra que eu sinta pastoso e suave o que se procura por toda a parte, e está em todo lugar, mas por debaixo dos panos. É uma questão de treinar os olhos e esticar a alma pra ver. Que é quase sentir. No início a gente só olha de relance, vê, mas só quando tem essa consciência do quão perto estava, a gente se dá a liberdade de sentir.
É o mesmo com o mundo que cada um conserva dentro de si; diz que sente a realidade transgressora a roubar sua graça. Não, tudo o que se pede é uma abertura pra que se possa ver, observar desabrocharem as pétalas dentro de ti; justamente por tanto querer se manter em segredo que a realidade tateia violando as fronteiras do seu corpo, masturbando seu ego e mente.
A realidade, o mundo, nossas almas, todos temos um quê de voyeur. O segredo da vida é ter o gosto de ver, e lutar pra espiar de novo.
Que Lindo,Lia!
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