12 de abr. de 2011

Abstrato

Tem certas coisas que fazem mais sentido se a gente ignorar. (Será que usei a expressão certa? Ficou um pouco forte essa frase...) Deixe-me começar de novo. Ontem li que falar sobre uma idéia não precisa ser abstrato, como se faz por aí. Então me deixa tentar de novo.
Existem certas coisas para as quais se faz 'vista grossa'. Existem coisas com as quais concordamos, então aplaudimos como incentivo. Mas há coisas que nos são alheias, que sob as quais não nos submeteríamos seja por razões morais, impedimentos físicos/psicológicos, etc; e a ainda assim, a postura correta é se fingir blasé. Com todo a imponência da indiferença dirigida, há certas coisas incomuns que, por algum motivo, incomodam, para as quais devemos nos impor desimportados, fingir que fazem parte de nosso dia-a-dia. A naturalidade da mentira, da ostentação velada, como se algum transeunte pudesse desmascarar em público sua vergonha de ter a atenção fisgada por algo 'comum', de ser alheio àquilo - e não o contrário, o que na maior parte das vezes está subentendido.
Pode alguma coisa no mundo ser mais distinta do que um palhaço colorido no asfalto, anunciando bom-dias no corredor de retrovisores, derretendo em vão sua maquiagem no calor de março; suas cores desfilando pelas faixas brancas de pedestre, pulando amarelinha fora dos quadrados? É surreal essa injeção de alegria numa manhã morna de domingo.
Mas o mais 'viajado' dos passantes não deve se concentrar em coisas outras que não sejam suas questões, aquelas debatidas entre 4 portas com os vidros lacrados, em um mundo de ar-condicionado. É essa a condição para ser palhaço: persistir além da ignorância que lhe é ofertada; a esquizofrenia de ser colorido numa rua cinza, de muros brancos e carros todos prateados. Afinal de contas, quem nunca viu um palhaço? É tão comum que perderam o status de artista, passo por esse cruzamento todo dia. Nunca dou dinheiro, virou pedágio?
E um homem bêbado tropeçando na calçada? Comum, saio com meus amigos todos os fins de semana. E o casal transando na areia da praia? Normal, também tenho uma namorada. E um mendigo de cama feita debaixo da marquize? (Não, aí já é de praxe mesmo.)
(Acho que falhei: mendigos sim são concretos para contar uma idéia, por que mesmo fui escolher um palhaço que ninguém viu? Imagine, um palhaço na rua!? Isso é muito abstrato.)

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