2 de abr. de 2011

Sobre imagem, rosto e nome

"_Imagine que você tenha vivido num mundo em que não existem espelhos. Você teria sonhado com o seu rosto, o teria imaginado como uma espécie de reflexo exterior daquilo que se encontra em você. E depois, suponha que com quarenta anos tenham-lhe estendido um espelho. Imagine seu espanto. Teria visto um rosto totalmente estranho. E compreenderia nitidamente aquilo que recusa a admitir: seu rosto não é você.
_Agnes, disse Paulo levantando-se. Estava bem próximo dela. Nos olhos de Paulo via o amor; e nos traços de Paulo, sua sogra. Parecia-se com ela, como a sogra, sem dúvida, parecia-se com o pai, que por sua vez se parecia com alguém. A primeira vez em que vira essa mulher, Agnes se sentira muito perturbada com a sua semelhança física com o filho. Mais tarde, quando fizera amor com Paulo, uma espécie de crueldade trouxe-lhe de volta essa semelhança, em ponto de parecer-lhe em alguns momentos que havia uma senhora de idade deitada sobre ela, o rosto deformado pelo prazer. Mas há muito tempo Paulo esquecera que levava em seu rosto o decalque de sua mãe, certo de que seu rosto era seu e de nenhuma outra pessoa.
_Nosso nome, também, vem por acaso, prosseguiu ela, sem que saibamos quando apareceu no mundo, nem como nosso desconhecido antepassado o conseguiu. Não compreendemos absolutamente esse nome, não conhecemos sua história, e mesmo assim o usamos com grande fidelidade, nos confundimos com ele, gostamos dele, somos ridiculamente orgulhosos dele, como se o tivéssemos inventado num lance de genial inspiração. Quanto ao rosto, é a mesma coisa. Lembro-me, isso deve ter acontecido no fim da minha infância [...]
_[...] O que há com você, Agnes? O que anda acontecendo com você ultimamente?"


Trecho de A Imortalidade, de Milan Kundera

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