27 de mar. de 2010

Invisível

Este é meu rosto. Às vezes implico com ele, às vezes brinco com suas expressões. Se forço algumas rugas ao redor das minhas eventuais espinhas, minhas veias saltam. Às vezes me sinto meio andrógena a seu respeito, mas ninguém deve reparar tanto assim nele. Eu tenho cara de quem esconde alguma coisa; culpo as sobrancelhas sempre convergindo sobre o nariz.
Esse é meu corpo. Ele tem marcas, pêlos encravados, costelas salientes. Ele se comporta elegantemente quando esqueço que o tenho, a ponto de me arrepender de não prestar a devida atenção. Devidamente coberto de pele, e mesmo assim nem todo ele você pode ver. Aprendi a gostar das minhas roupas porque elas podem falar por mim antes que eu precise tomar coragem, muito embora as palavras que eu realmente quisesse dizer se condensassem sobre a pele. Tem gente que só ouve as roupas, tem gente que só degusta a pele, mas ao menos alguém vê as palavras.
Essa é minha mente. Se consigo definí-la, descrevo-a aguda, estridente, ágil. Ela é sensível a quase tudo, nada passa completamente despercebido; grande parte do tempo, ela fica apenas rebolando fora de ritmo, sem par para dançar. Os pensamentos mais fantásticos que tenho são sempre cortados ao meio, e tenho que laboriosamente resgatá-lo do esquecimento, ou da sobreposição de idéias oportunistas. É inconveniente escutar sua própria voz o tempo todo, sabendo que ninguém vai ouvir quando algo importante surgir; ainda mais quando só você é obrigado a ouvir sempre a mesma porcaria todo dia. Eu queria calar a boca da minha cabeça, sério.
Essa é minha rotina. Por horas eu controlo etapas importantes desta, com força, com rédeas, na marra. Os momentos que eu me acho mais bonita só ocorrem quando ninguém está vendo, quando não estou me importando que vejam. E mesmo assim, nem todos eles você pode ver. Eu gostava de ter um tempo reservado para pensar em nada, eu me sentia resolvida e, de repente, eu era mais bonita. Eu gostava de me sentir bonita sem estar bem vestida, fazia parecer fácil amar alguém mesmo que ele não se esforçasse para ser amado. Faz parte da minha rotina brincar com meu rosto, ouvir meu corpo, brigar com minha mente; só que fazer parte do meu dia-a-dia não é suficiente, se sei que para você, e pra todo mundo, tudo isso é transparente.

26 de mar. de 2010

Poema torto

Procuro aquilo que me habita
corre e zune na minha cabeça
Mas essa dorzinha sisuda se distancia,
eremita, recolhe os seus da mesa
E faz que não se interessa por mim, 
se recolhe e vai sumindo, toda besta.
Se esconde atrás das minhas idéias
E se procuro, já não consigo saber quem era, 
quem me dera meus pensamentos 
fossem transparentes
É que cada pergunta arrasta consigo uma resposta
E é atrás delas que se esconde essa dorzinha poente
São todos tendenciosos, meu pensamentos,
e ocultam coisinhas irritantes e latentes.


Era para terem sido versos brancos, seria mais Drummond e teria mais graça. Mas, como disse antes, estou escrevendo como quem 'cozinha' Fast Food. Se não gostou, chama a mamãe pra tirar o picles... '¬.¬

23 de mar. de 2010

Lua

É menina, não poderia ser diferente:
Ronca com a satisfação de quem hoje foi obediente
Adormece entre os pais, carente,
como quem colhe sedenta um pouco mais de proteção.
O enforcador só ornamenta o pescoço que compreende,
não carece de outra função.

Os olhos se abrem, um de cada vez,
E ela se levanta, requebra, escorrega,
Ela é a gigante alegria por trás de tamanha insensatez.


21 de mar. de 2010

Narrativa sem clímax

Corría-me por entre os olhos idéias enervecidas, sequelas ideológicas, pensamentos bastardos, canhotos. A ansiedade se sobrepunha à dúvida, que se sobrepunha à confusão, que se sobrepunha ao medo; que por acaso acobertava todo o resto.
Sentei-me à beira do dia, esperando-o acontecer. Um pé cruzado sob o corpo permanecia na realidade, o outro pendia no infinito. O sono que trazia comigo se dissolveu em sonhos profundos, na beira do abismo. Pendia desinteressadamente o braço, como quem desenha na água na borda de uma piscina. Pensei que hoje, em especial, algo iria me levar pelas mãos para outro nível de consciência, mas não foi bem assim. O dia continuou sem acontecer do outro lado de minhas viseiras, de minha preguiça. Acordei com marcas pelo rosto, dividindo a testa ao meio e as laterais dos olhos.
Círculos circuncêntricos se projetavam de minha percepção, feito sonar. A maré tratava de levar embora a torrente de informações que queria me inundar. Eu mergulhava no silêncio, imersa por palavras que não eram as minhas; eu me sentia um submarino amarelo em meio à corrida armamentista.



Meu deus! Não sei como terminar esse texto! Minha narrativa nem tem clímax, quanto mais um desfecho! hauahauahhau
Pior que era pra ser uma metáfora sobre minhas manhãs no cursinho, mas tô tão sem perspectiva que nem sei o que poderia salvar minha rotina! Qualquer desfecho que eu desse a esse texto seria, portanto, clichê, que por sua vez seria uma mentira. Socorro...

Sem "Le Petit"

Deparei-me com a pequenez de meu ser. Coração guloso, medos volúveis, lembranças etéreas do que não posso comprovar a veracidade. Um misto de ostentação para impressionar e discrição oportuna.
Deparei-me com olhares sobre os ombros, dedos que procuram a ponta da camiseta ou fios de cabelo fora do lugar. Fora do lugar, sem canto. Desencanto. Desperdício de espaço; pra quem quer partir basta um beijo e um abraço, e lugar pra ir.
Gente miúda vive se preocupando com coisas pequenas, e vive querendo fugir das responsabilidades. Gente grande vai de avião, como se quisesse voltar mais rápido, e ganhar mais responsabilidades. De avião ou não, vou sempre parecer uma gracinha.
Deparei-me comigo mesma ao descer os degraus, abraçada aos joelhos onde a escada faz a curva. O choro que eu esperava não vinha, só o fino apito do nariz entupido. Coçava os pés entre si, fingindo ter paciência com as lágrimas. Gente miúda é assim, tem paciência pra tudo, enquanto gente grande não pode perder tempo. Gente miúda não sabe o tempo que perde.
Deparei-me com aquele olhar mentiroso para dentro de si, que mira sem enxergar. Gente pequena enxerga com conveniência, por medo do que possa ver. Gente grande contorce o cenho, espreme os olhos, procura pelos óculos, mesmo que não vá notar certas miudezas. Gente miúda se interessa tanto por miudezas que perde o olhar dentro de si - são tantos segredos bordados, tantos mistérios enovelados... seus mistérios mais íntimos só têm valor quando emersos à flor da pele.
Gente grande traz nos olhos ceticismo quanto aos grandes mistérios. Traz no temperamento a muda consciência de que conserva mistérios que ninguém nunca descobriu, e de que os levará consigo ao túmulo mesmo que sejam a melhor fração de sua identidade. Gente grande sabe que possui coisas que poderiam torná-los gigantes, mas que ninguém prudente escala gigantes atrás de mais mistérios.
Deparei-me com minha tara por escaladas. com meu discurso ensaiado dentro do elevador. Foi uma rápida ascensão até aqui, para um ser tão pequeno. Foi um grande passo, um êxtase imenso, uma embriguez tão grande que me deparei com minha pequenez. De repente eu não cabia mais dentro de mim, porque na busca pela juventude eterna eu vou encolhendo.

17 de mar. de 2010

Almoço

Almoçava tranquilo
sem pesar, sem pesares
prato feito de idéias
vendido aos quilos,
viscosidade de geléia.
Mas aquilo não se pesa!
Não ponha na balança
palavras ainda não proferidas!
Sem talheres, lia um livro
na nova medida:
TransQuilo
Caçamba, acho que o post que mais recebeu comentários nesse blog foi justo o que tinha apenas uma imagem hauhuahauhaauh mas tá valendo, tá valendo.
Bem, só por questão de atualizar o blog:

Solidão necessária,
Essa noite vou solar
Vou solo pelas ruas
sob o inconsolável luar
o brilho dos astros,
assolados pela escuridão
Vai solidificar o Sol
na porta de um bar.