25 de ago. de 2010

Para Lídia

" Lídia, a vida mais vil antes da morte
 Que desconheço, quero; e as flores colho
                  Que te entrego, votivas
                  De um pequeno destino."

A. Caeiro

Amada Lídia,

Penso que um dia terei ao menos uma filha, e há de ser você. Minha avó se chama Lídia, e gosto dos sabores que isso desperta em mim. Minha filha há de ter dentro de seu nome o meu; acolha-o quando entrego tão grosseiramente essa partícula que se desfragmentou da geração passada.
A cada vão suspiro, penso que mudas de formas e de gostos. Penso que assim que fores, não serás mais o que és sucessivamente. Eu quero que tenha gosto pela vida, apenas, sem que essa fome vital se transforme num insulto. Nunca sabemos a força que nossos nomes carregam - e nem devemos -, mas lhe antecipo: o teu brilho ninguém apaga.
Minha avó é uma mulher doce, ativa, e está sempre cercada de amores. Visitas estão sempre à espreita: algum filho ou neto, motivos para cozinhar e chamar ainda mais gente. Ela é o eixo de toda a vida ao seu redor, a engrenagem dessa ciranda de corda. Eu queria ser essa pessoa circundada pela sinceridade familiar, com muitos filhos e amigos passando pela minha mesa de jantar, e nunca a pessoa que desencarna suas mágoas no enterro de um homem íntegro. Lídia, eu queria muito compartilhar isso com você: a presença, a falta de tato, o excesso de carinho, o mal-jeito e os maus hábitos. Eu ainda acredito que isso existe pra mim. Num mundo idílico, em que não haja pressa e encontrões, talvez.
Eu lhe desejo uma irmã mais nova, tão etérea que lhe ponha os pés no chão. Por isso, não penso em nome melhor do que Cecília. Um criança sorridente, brincalhona, dócil, e, por vezes, tola. Quero que sejas boa para ela, e que saiba que mesmo que tenha responsabilidades para com ela, saiba renunciar de seus direitos também. Amar é renúncia, e sei o quanto pode ser difícil aprender isto. Mas amar se aprende amando, é de infalível fórmula.
Minha menina, arda de possibilidades. Nada é mais pesado do que o fardo da "leveza do ser", e não deixe que lhe cobrem demais ou lhe instiguem o contrário. Aceite de uma vez por todas que tudo pode acontecer, e que nem sempre lhe cabe decidir. Não adianta procurar por um gabarito, ou só visualizar a verdade quando enunciada por outra pessoa: faça o que deve ser feito, porque não há nada tão irremediável quanto o curso das próprias coisas.
E não sinta medo, porque não faz a menor diferença. O medo apenas desperta agonia e um grau muito elevado de consciência, como ler um livro no microscópio. Sentir medo, em si, não é um problema. O problema é lhe dar utilidade. Lídia, eu tenho medo todos os dias, e tenho de inventar constantemente um novo ritual para acalmá-lo. Entretém por um tempo, mas cansa. Eu sempre vou temer coisas que ainda não aconteceram, é assim mesmo, mas não é saudável; não me acrescenta em nada. Seja corajosa, e concisa.
Não desperdice seu sono, nem por si mesma nem por nada, pois é só quando não se consegue dormir que lhe damos o devido valor. Sono é revigorante. E se não conseguir dormir, sonhe acordada mesmo, e saiba que, com o tempo, a aflição de estar acordada enquanto todo mundo dorme passa. Aprenda a usar isso a seu favor, até porque é preciso encontrar algo que lhe devolva a paz para voltar a dormir um dia.
Leia livros. Ame, meu amor, até as coisas que ainda não existem, e não tenha pressa. Vá na valsa, sobre os lírios que deixarei.

Um infinito abraço,
Usui de Itamaracá




Geografia - em Do Trapézio, sem rede

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