16 de ago. de 2010

Sobre o que não se pode e o que não se deve

Não se pode escrever sobre coisas que só você viu, senão o leitor não interage com o texto, não se identifica e não lê até o final. Então não vou falar sobre a frenesi das sombras que a água projetava, ou sobre a areia recém-molhada que brilhava feito tinta fresca; não vou falar da minha sombra, que dificilmente é do meu tamanho, nem como sinto ocos os dedos sem calos contra uma superfície. Não vou falar sobre o que pensei quando o spalla se levantou e deu o tom para toda a orquestra. Não vou falar sobre o menino que mexia as pontas dos pés enquanto falava ao telefone público, ou sobre o punhado de luzes distantes que, sobrepostas ao acaso, são tão mais lindas. Eu me transporto para lá. Não vou falar dos meus problemas, ou das minhas recém-conquistas.
Não se deve falar de coisas que só a gente vê. Porque induz os outros a pensarem da mesma forma e a esquecerem o que estavam pensando sozinhos. Ô, menina linda, não se deve falar de amor, nem por um suspiro, nem por um espirro. Fale sobre a saudade, dê-lhes o óbvio até que enxerguem.
Qualquer outra coisa sobre a qual se escreva deve conduzir o leitor pelas mãos para que não se perca nesse universo; quem que nunca se fascinou à primeira vista pela imensidão de um lugar desconhecido? Por entre prédios e ruas estreitas, o mistério espreita cada esquina de sua imaginação. O óbvio velado enfrenta resistências, é uma verdade sobrepujando o próprio véu, sem mistérios.
Dê-lhes o óbvio, a nascente do olhar crítico, para que conservem o próprio curso e enxaguem os cenários de cada paisagem. E a verdade, estia, se revele sem mistérios.

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