13 de out. de 2010

Inadvertida

Eles vinham caminhando até a porta do supermercado, cruzando os passos. Ela possuía as passadas muito mais longas, mas a dinâmica inabalável dessa harmonia impedia que se descompassassem. Ela de repente pára e o olha bem nos olhos enquanto se aproxima do chão. Ela pende o corpo para dentro daqueles poços negros, inadvertida sobre o perigo de quedar-se. Amarra a guia numa pilastra próxima sem uma palavra, sem notar que o fundo daqueles poços também ia a seu encontro na superfície da pele.
Adentra. Ele a segue com o olhar até onde a vista a alcança, sem uma palavra. Absorve seu cheiro até o último átomo distraído que pudesse ter se desprendido de seu corpo, desavisado.
Há uma mancha no chão, uma passante, um silêncio de espera. Espera em silêncio. Seu olhar antes suplicante subitamente emudece com a consciência passageira da repetição desse ato. Se distancia da entrada, dos passantes, dos sons, da mancha, e se deita ao léu.
Ela jamais me deixaria.
E eu, certa de que jamais alcançaria essa certeza, observo calada de uma lanchonete próxima. Ele me olha de soslaio e revela certo desprezo por não ser Ela. Eu, que tantas vezes estremeci ao ver um certo rapaz partir e que selei seus lábios como se fosse cada beijo o último. Eu, que vivi aqueles momentos intensamente, na memória suguei o sangue de cada segundo, e sempre que o deixava, ansiava para que não fosse a última vez. E eis que um dia foi, mesmo.
Eu sinto o marasmo daquele cão refratar pelas portas de vidro. Mas aquele nível de sabedoria, eu nunca fui capaz de alcançar.

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