24 de out. de 2010

Dois rios

É verdade que somos daqueles que se encontram apenas nos momentos de tensão da linha que conduz ao outro, quando se exige a fixação de um gancho nos olhos para que houvesse um caminho por onde as palavras pudessem deslizar. E essa linha torce e distorce, mas jamais poderia enovelar-se de tão curta.
Outros poderiam falar com esmero o tempo todo sobre coisas profanas, e briguinhas aguadas lhes passariam despercebidas, como se nada tivesse ocorrido. Mas conosco, tem de ser assim; quando se trata de nós dois, o vento passa pelo rosto quente sem ser notado, a mágoa emerge como toras de praias longínquas e barcos imersos, e flutua como se sempre ali estivera. Nosso contato se restringe às palavras duras e inadiáveis, porém transponíveis, porque logo em seguida, cada um seguirá sua reta, e nada do que fora dito terá adiantado.
Não é porque poupamos de nós mesmos a intensidade de todas as conversas para despejar no outro palavras encardidas e desbotadas; o momento chega em que sentimos a necessidade de falar sobre as coisas, mas isso não muda o que prossegue. Porque a vida prossegue, como sempre fora, e perfurá-la uma vez em quando não o torna uma constante.
És tão perene como o rio que seca diante dos olhos de todos os ribeirinhos, coberto de súplicas e lamentos pela estiagem. És amargo como qualquer alga que deita sobre seu leito, dourada de insabedorias. E te tornas assim, apenas transponível.

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