20 de ago. de 2009

???

Admito que temia que meu diário acabasse virando um blog, até porque quando chegar o ponto de não escrever mais em papel, provavelmente não irei fazer introspecções muito íntimas em público. E acho que é pra esse tipo de autoconhecimento que se inicia um diário, certo? Só não sei exatemente pra que mantê-lo, depois de um ponto.
Agora, o simples suspense de que alguém pode entrar e ler o que poderia ser uma entrada do meu diário me fascina! Quem poderia ser, como me descobrira? Aquela lâmpada pendente em uma sala escura com aquele ar inquisidor! *.*

Bem, eu me lembro que comecei a escrever um diário primeiro porque queria me lembrar de alguns fatos engraçados dos meus 15 anitos - que perto do que veio depois, parecem banais; e, em segundo, porque queria melhorar minha escrita. Acho que melhorei um pouquinho sim, mas como bem sei, não dura muito esse tipo "ascensão". Basta sair dos eixos um pouquinho...
Nem os assuntos ficam mais fáceis de achar. Você acha que o tempo e a experiência cura isso (experiência de... um ano? rs) mas parece só tornar as coisas mais difíceis quando você transita sempre naqueles mesmos ambientes, entrando e saindo dos mesmos mundinhos carentes.
Eu juro que tenho tentado frequentar todos os tipos de ambientes, e falar com todos os tipos de pessoas. De fato, acabei fazendo amiguinhos interessantes, e outros nem tanto. Falaram pra eu me "expor" ao acaso, e que isso seria um bom início pra quebrar a rotina.
Atravessei ruas fora do sinal, comi sem lavar as mãos e passeei com a Lua sem a guia. Passei a olhar nos olhos das pessoas, a sorrir mesmo sem vontade e a interromper menos as pessoas.
Sei lá, mesmo assim tudo o que de fato muda é muito pouco. Quisera que tivesse sido eu a sumir em Taiwan... Fiquei por aqui, ao invés disso, esperando pelo golpe do destino. Vai ver só faltou mesmo o acaso me "acertar".

A-cético

Seu ceticismo estúpido fazia com que me sentisse burra, e nunca um discurso tão seco me pareceu tão sensível. Ele ria quebrado pelos cantos da boca em uma bufada só, mais intrigado do que divertido: "E o que você esperava do mundo, minha jovem?" E é lógico que esperava uma resposta que satisfizesse seu súbito interesse.
"Estrelas são só gases. Dinheiro é só papel. Você é só água. E amor, é só amor." Silêncio. E no que parecia mais um sussuro, completa: "E bastasse ser só o que é para ser maravilhoso o suficiente."
Ele se movimenta tão rapidamente em minha direção que aperto os olhos, esperando pelo choque. Ele parece sempre tão preocupado em orientar meus pensamentos, que seus movimentos são quase imprevisíveis, e tão súbito quanto a sua mudança de humor. Um verdadeiro guardador de rebanhos, sinceramente preocupado com o que está tentado a ordenar. Desperta minha mão direita para uma consciente existência com sua mão esquerda, e pressiona ambas sobre seu peito.
"Você pode tocar meu corpo, são só vísceras e carne. Você não se sente levitando ao tocar isso, sim? Meu coração acelera ao seu toque macio, mas não é pra me sufocar de amores, é pra me fazer respirar - e viver. Eu não ouço trompetes, violinos, pianos tocando uma doce melodia quando estou com você. Você não me parece mais especial agora do que em qualquer outro momento." Se desvencila de minha mão como se meu choque o repelisse.
"Vã poesia, a sua! Cria coisas que não existem entre o céu e a terra! Descreve apenas o que quer ver, e você, minha jovem, só é capaz de sentir o que é capaz de imaginar. Vã poesia! Garanto-lhe que não olha para as estrelas todo o tempo que diz querer, mas pode sempre dedicá-las a alguém! E no verso seguinte diz que falta beleza em sua vida..."
"Deixe-me dizer uma coisa: as coisas são apenas o que elas são, e não vão deixar de ser. Beleza não lhes faltam. Mas não enxerga as coisas como são, quer sempre mais! Você nunca vai se contentar com nada nesse mundo?"
Olhei envergonhada para o chão. Ele pisou em minha poesia, fez dela tão chata quanto uma folha. Me parecia agora tão pessoal e tão inexata, como desesperada para se tornar especial para alguém ou ilustrar suas dores, para que depois eu pudesse me sentir compreendida.
Mas enfim o espanto se desfez, assim como todo o encanto "a-cético". Ele fizera da minha poesia só palavras. E nada mais.

14 de ago. de 2009

Sem ritmo, noção ou assunto II

Hoje pressenti a mesma coisa [continuando o post anterior]. Não tive um sonho, ou pesadelo, nem foi tão prazeroso quanto dormir acordada. Jamais que escolheria experimentar tais sensações em um sonho lúcido. Foi mais como uma epifania, algo mais intenso; algo mais. Ponto.
Eu acariciava-lhe o topete marrom quando me ocorreu. Era como tatear o fino fio de vida que o mantém ligado a esse mundo, em meio a tantos terminais puídos. Era fino, firme, brilhante, branco feito diamante contra a luz, e tensionado como corda de violão. Como se com o tempo as tarraxas fossem girando, tensionando, tensionando o fio de vida que lhe restava. Tentei me segurar com todas as forças a ele, mas ninguém acreditaria como é escorregadio e pegajoso ao mesmo tempo, gélido e quente à medida que se atritava contra minhas mãos. Eu fui caindo, caindo em direção ao nada, sem me soltar daquilo que o mantinha perto de mim.
Quando algo deteve minha queda, pensei ter chegado ao âmago do nada. E pude ver a ampla rede de fios que se extendia até o infinito que me segurava, uma vasta teia de vida que aquele ser pôde tecer (e que pude ter a honra de presenciar). Compreendi que a única coisa concreta que podemos realizar em nossas vidas é uma vasta teia, tecida com paciência e carinho; entendi que sua teia já estava tecida, e eu pude fazer parte dela o quanto quis. Fitei o nada, estirada nas linhas que me asseguravam, e pude ouvir a música da morte: tinha apenas uma nota. Não me dava mais tanto medo. Se o fio estivesse pronto apra se arrebentar e sua teia ser engolida pelo nada ao redor, então era assim que devia ser. Eu que estava grudada nela, sem poder escalar até a superfície do mundo - como o conhecemos. Foi então que vi, e tive mais medo: quanto mais eu lutasse, mais me embolava em sua teia de vida pegajosa e perfeitamente arquitetada. Meu desejo de perpetuá-lo só me prendia ainda mais, atrapalhando o momento em que aquele fio devia se arrebentar. Assim que se é consumido pelo nada, por medo.

Sem ritmo, noção ou assunto

Eu acredito que na natureza não há desperdícios.
Eu acredito que nada é por acaso.
Eu acredito em destino e em consequências.
Eu acredito que tudo tem sua função e seu lugar.
Eu acredito em karma.
Eu acredito no amor.

Mas nada disso nunca me impediu de vomitar palavras ácidas no vácuo de minha embriaguez. Nunca me impediu, por exemplo, de chamar de coincidência tudo o que veio depois de meu erro mais insensato. Nunca me impediu de armazenar a atmosfera em meu peito, e gritar abafada que está tudo errado, de que não era pra ser assim. Nunca me impediu de me sentir uma "coisinha inútil", "pequena" e mestiça. Nunca me impediu de pensar, qualquer vez que fosse, que só existiu Inferno Astral para mim. Nunca me impediu de me sentir uma herege, por preferir andar sozinha.
Algum grande pensador disse que a grande vantagem de ser humano é saber que se vai morrer impreterivelmente. Não acredito que ele passou a aproveitar mais a própria vida a partir dessa constatação brilhante! Pro inferno o que ele ou eu acreditamos! De que isso serve? Não procuro uma crença mais "palpável" ou "palatável" para me satisfazer, não é isso. As crenças nos sustentam, para que não sejamos tão vulneráveis ao acaso, talvez; mas não garantem coisa alguma.
Talvez ter crenças demais te conduza a uma vida tão vazia e tão chata quanto viver sem crença alguma.

Não era sobre crenças que eu queria falar, na verdade. Talvez eu quisesse tornar esse post o maior possível, para diminuir a probabilidade de algum maníaco por blogs lê-lo. Eu sei bem como é... por isso que prefiro poesia às prosas vazias, que quando se chega ao fim, não se sabe nem porquê aquilo te chamou atenção em primeiro lugar. Enfim...
Qual o grande privilégio de saber que se morre, e não ter certeza de quando, ou como, ou o que vem depois? Não me tornei mais vivaz, nem mais feliz por isso. Me tornei medrosa.
E ter medo me apavora? Sim, mas não exatamente isso; Será que ele sabe que vai morrer? Será que pressente quando? Será que tem medo, do que vem depois? O que me deixaria mais apavorada no mundo seria vê-lo com medo. Tenho uma letra de música na manga só pra descrever isso:

"You follow me home
When I'm finished at work
You're creeping so quietly
So I don't get scared

I feel like I know you
In every way
Though we never spoke
What we never say"

Quer dizer, eu tenho mais medo do que ele, porque fatalmente sei o que lhe vai ser fatal. Sei que nem por isso se torna mais fácil pro moribundo.
Talvez eu tenha medo porque às vezes pressinto coisas. Coisas das quais prefiro não falar. Porque na verdade, eu comecei esse blog com um tom de humor, auto-crítico e muito ácido, e não era pra ser aberto ao público. Mas hoje a noite eu sei quem me espera, sensual, ao leito - é como se eu nem tivesse chance de escolher: insomnia. E antes de que me consuma por inteira - ou que me engula o edredom, mastigando, chupando ou babando em eterna degustação antropofágica -, eu quero ter a oportunidade de falar desse medo. Já que tudo acaba um dia mesmo, e teoricamente eu sei disso. Não só falar (atirar palavras para o nada em contínuo desperdício), mais do que isso. Eu queria que todos soubessem; e que se tornasse tão notório o que vou dizer agora que a agonia fosse pandêmica, e se passasse adiante até o último ser que souber que tudo tem um fim. Não sou egoísta por querer que todos saibam o que estou sentindo, sou? Abandone o lápis então. E o Lápis Autônomo também.
Aqui vai, e puxa... [esse post] vai ser longo...
A música acima se chama You've Got a Friend in Me, e sempre que a canto, me lembro de um amigo valioso, que aqui adotarei o codinome Dingo. Nós costumamos ser ciumentos com as músicas que ouvimos, mas me foi muito valioso ouvir o som que EU descobri no mp3 dele. E um dia, no cartão-postal de nossa cidade lhe revelei um sonho que minha insomnia não pôde me tirar:
O moribundo corria em uma savana, esguio e ágil como uma raposa (pensei até em dingos agora rs). Corria como quem pára avião no ar, ou faz gaivotas voarem para trás. Corria feliz. E uma foice o perseguia, negra, golpeava o ar com fome de atingir algo consistente em meio aquele mato alto. O dia nascia, e em breve se punha, a foice a caçar o moribundo, e ele a guiar alegre sua liberdade. Anoitece. Fim de cena. Acordei com um espírito burguês a flor da pele: exploraria o proletariado que fosse pra comprar uma coleira de brilhantes, se pudesse. Mas foi entre abrir os olhos e levantar que me dei conta de que a foice era negra, não vermelha.

12 de ago. de 2009

Nonsense I

Damien Rice
The Rat Within the Grain

"[...]

I wouldn’t want you to want
To be wanted by me
I wouldn’t want you to worry
You'd be drowned within my sea

I only wanted to be wonderful
And wonderful is true
In truth I only really wanted
To be wanted by you

[...]"



Por causa de músicas como essa, nas trilhas de filmes como aquele, em fina garoa caindo como está, que eu andei engordando >.<

hauahauahuhau é vero....

11 de ago. de 2009

Eu acredito em coincidências

Mamãe sempre me dizia na porta do supermercado que, se eu me perdesse, eu devia ficar onde estava, pra que ela pudesse me encontrar. "Deixa eu te encontrar, não saia por aí me procurando."
Mas era em lojas de departamento que eu a exauria, deixando que me procurasse entre as araras circulares de roupas. E sempre na fila de pagamento da C&A, eu puxava meu irmão pra dentro desse mundo de tecidos, e fazia deles a cortina do meu próprio show. Meu irmão fazia aquela cara de adulto, e voltava para o mundo adulto de minha mãe, e fazia aquela cara de filho exemplar a acompanhando na fila. Eu adorava vê-la me procurar, mesmo que não fosse tão prazeroso para ela. E odiava a expressão dele, de irmão mais velho, vestindo o rompante da razão.
E foi numa das noites insones dessa semana - cada vez mais intensas, diante da desimportância do horário de despertar - que senti pela primeira vez o chão mexendo embaixo de mim. Lenta, preguiçosamente. Todo o ar, a mobília, as paredes do meu quarto se moviam como uma caixa de sapato, tudo o que nele continha se movia com o conjunto; eu era apenas uma bonequinha de olhos bem abertos, carregada dentro da minha casinha, nas mãos de uma criança.
Até então uma criança serena, até que caí em mim: crianças de verdade não carregam caixas de brinquedos como se esperassem que algo vivo morasse ali dentro; crianças de verdade correm na fila do cinema, dão risadas no teatro, brincam de circo em lojas de departamento...
Ela era uma adorável criança, de vestidinho de rendas branco, com bolinhas verdes e rosas, fitas nos punhos e no cabelo brancas, sapatinho de boneca - correndo com a caixa na mão, trôpega, insensata, mais parecia dançar os passos de uma dança contemporânea qualquer do que alternadamente impor cada uma das pernas para frente! Mais parecia uma delinquente propaganda de biscoito de aveia!
E essa criança dá a volta ao mundo todos os dias carregando a caixa de sapato; minha vida inteira cabe dentro de uma caixa de sapatos nas mãos irresponsáveis de uma criança... Como eu era vulnerável em meu quarto, esperando o rosto gigante de um infante arrancar o telhado e apertar meu corpinho na cama! E se eu morasse na Linha do Equador, essa criança percorreria um espaço maior também no mesmo período de 24h: essa criança se moveria ainda mais rápido! As paredes do meu quarto começam a chacoalhar, o chão parece uma cama elástica jogando tudo para o alto! Alguém pare essa criança!!!
Tudo bem, tudo bem. Esqueça a criança demente. Então eu não preciso viajar o mundo inteiro para sair do lugar, ou fugir de alguma coisa. Mas e se eu quiser ser encontrada, como parar? Como deixar o acaso me encontrar se nunca estou no mesmo lugar?

9 de ago. de 2009

Le Petit

Tac Tac Tac
patinhas ritmadas no cimento
unhas negras e curvas, gastas
Tac Tac Tac
o som do meu divertimento
o som pausado do meu silêncio
Como vou viver sem isso?

Tac Tac Tac
curtos bracinhos beges
musculosos e flácidos bracinhos
um senhor de idade! e que forma!
o peito viril, duas manchinhas beges
sobre as clavículas

A pele é branca como a minha
O pêlo que a veste
é preto como uma pupila
mas sou eu sob sua tutela
a aprender a esconder a dor
a gemidos inaudíveis

O corpinho é longo pras patinhas tão curtas
Um pequeno basset, de pêlos cada vez mais longos

Sobre a cabeça quadrática de um poodle,
um topete indescritível, marrom desbotado
Então ele tinha cabelo! E barbas...
Brancas, com perdidos bigodes pretos
Looongas orelhas, minha moto de pequena
o nariz preto e modelado de areia,
uma cicatriz no alto, e dentinhos fétidos abaixo
Tártaro até quase sem os dentes!
Hálito podre em uma carinha irresistível.

olhos vítreos, não menos sem vida
embaçados da idade
já não enxerga tão bem, é verdade
mas são olhinhos piscantes, curiosos
atentos a qualquer um de meus discursos
e capaz de expressar os seus
ah! claro, são cor de mogno

Tap Tap Tap
São meus passos solitários no cimento
Não é a mesma coisa...
Como viver sem ele?