14 de ago. de 2009

Sem ritmo, noção ou assunto II

Hoje pressenti a mesma coisa [continuando o post anterior]. Não tive um sonho, ou pesadelo, nem foi tão prazeroso quanto dormir acordada. Jamais que escolheria experimentar tais sensações em um sonho lúcido. Foi mais como uma epifania, algo mais intenso; algo mais. Ponto.
Eu acariciava-lhe o topete marrom quando me ocorreu. Era como tatear o fino fio de vida que o mantém ligado a esse mundo, em meio a tantos terminais puídos. Era fino, firme, brilhante, branco feito diamante contra a luz, e tensionado como corda de violão. Como se com o tempo as tarraxas fossem girando, tensionando, tensionando o fio de vida que lhe restava. Tentei me segurar com todas as forças a ele, mas ninguém acreditaria como é escorregadio e pegajoso ao mesmo tempo, gélido e quente à medida que se atritava contra minhas mãos. Eu fui caindo, caindo em direção ao nada, sem me soltar daquilo que o mantinha perto de mim.
Quando algo deteve minha queda, pensei ter chegado ao âmago do nada. E pude ver a ampla rede de fios que se extendia até o infinito que me segurava, uma vasta teia de vida que aquele ser pôde tecer (e que pude ter a honra de presenciar). Compreendi que a única coisa concreta que podemos realizar em nossas vidas é uma vasta teia, tecida com paciência e carinho; entendi que sua teia já estava tecida, e eu pude fazer parte dela o quanto quis. Fitei o nada, estirada nas linhas que me asseguravam, e pude ouvir a música da morte: tinha apenas uma nota. Não me dava mais tanto medo. Se o fio estivesse pronto apra se arrebentar e sua teia ser engolida pelo nada ao redor, então era assim que devia ser. Eu que estava grudada nela, sem poder escalar até a superfície do mundo - como o conhecemos. Foi então que vi, e tive mais medo: quanto mais eu lutasse, mais me embolava em sua teia de vida pegajosa e perfeitamente arquitetada. Meu desejo de perpetuá-lo só me prendia ainda mais, atrapalhando o momento em que aquele fio devia se arrebentar. Assim que se é consumido pelo nada, por medo.

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