Sobe a serra. Chacoalha, chacoalha.
A elástica migração pendular, é difícil de se lembrar no momento em que se parte cedo de casa, mas quanto para mais longe, mais pressa se tem de voltar.
Chacoalha, chacoalha. O ônibus não pára.
Para quem se atrasa, o ônus da viagem é ter de ir em pé. O chão lhe escapa aos pés. O sono lhe carrega, e nessa hora cada um encontra seu canto. É difícil pensar em qualquer outra coisa nessa hora. É o movimento pendular, deixa essa onda te levar. Chacoalha.
Abraça o próprio corpo apertado, para conter o frio nas mãos. Lavaram o ônibus antes de sair da garagem, mas deixaram tudo molhado. A água escorre para debaixo dos pés, carregando toda a poeira trazida de fora. Tragam o ar úmido em um bocejo, e vira fumaça.
Cochila a moça, no ombro do senhor, segurando a criança. Cochila o jovem sobre a mochila. Cochilo eu, em pé. Chacoalha. E não acorda.
A água escorre lá fora pela janela, cavando sulcos na névoa que cobre a serra. A poeira de fora gruda no vidro com a água. A bochecha da menina gruda na janela, também poeira e água.
Nova pele morena, porque nunca existe dois tons iguais de pele mulata. Se basta. Quando a pele é branca, procura-se cor nos olhos e no cabelo, compensar a pele opaca.
Chacoalha, e cola um pouco mais a orelha na janela.
Alguém trançou seus cabelos, alguém arrumou sua mochila, alguém lhe pintou as unhas. Mas ela mesma se maquiou. Sombra azul nas pálpebras coladas, debilmente fechadas. Glitter nos lábios curtos e fofos, levemente abertos, arfando fumaça. Chacoalha, chacoalha.
Suas pequenas mãos seguram forte a mochila rosa, que alguém comprou. E também o tênis branco, que ela escolheu. Os cadernos de bichinho, a agendinha com cheirinho, as canetas coloridas. Que virtude nascer menina!
Essa menina dorme na janela, como no ombro de alguém. E sonha em passar mais tempo com Alguém. Adormece o rosto na janela fria, empalidece a bochecha. Logo vai pintar mais do que as unhas, e usar cores mais discretas que azul. Vai maquiar sua pele única, e odiar seu nariz de batata. Alisar os cabelos com química, que não aprendeu na escola. Furar a pele, mais do que nos lóbulos das orelhas...
Chacoalha.
Eu odiaria ser Alguém, se não puder presenciar isso na minha criança.
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