20 de ago. de 2009

A-cético

Seu ceticismo estúpido fazia com que me sentisse burra, e nunca um discurso tão seco me pareceu tão sensível. Ele ria quebrado pelos cantos da boca em uma bufada só, mais intrigado do que divertido: "E o que você esperava do mundo, minha jovem?" E é lógico que esperava uma resposta que satisfizesse seu súbito interesse.
"Estrelas são só gases. Dinheiro é só papel. Você é só água. E amor, é só amor." Silêncio. E no que parecia mais um sussuro, completa: "E bastasse ser só o que é para ser maravilhoso o suficiente."
Ele se movimenta tão rapidamente em minha direção que aperto os olhos, esperando pelo choque. Ele parece sempre tão preocupado em orientar meus pensamentos, que seus movimentos são quase imprevisíveis, e tão súbito quanto a sua mudança de humor. Um verdadeiro guardador de rebanhos, sinceramente preocupado com o que está tentado a ordenar. Desperta minha mão direita para uma consciente existência com sua mão esquerda, e pressiona ambas sobre seu peito.
"Você pode tocar meu corpo, são só vísceras e carne. Você não se sente levitando ao tocar isso, sim? Meu coração acelera ao seu toque macio, mas não é pra me sufocar de amores, é pra me fazer respirar - e viver. Eu não ouço trompetes, violinos, pianos tocando uma doce melodia quando estou com você. Você não me parece mais especial agora do que em qualquer outro momento." Se desvencila de minha mão como se meu choque o repelisse.
"Vã poesia, a sua! Cria coisas que não existem entre o céu e a terra! Descreve apenas o que quer ver, e você, minha jovem, só é capaz de sentir o que é capaz de imaginar. Vã poesia! Garanto-lhe que não olha para as estrelas todo o tempo que diz querer, mas pode sempre dedicá-las a alguém! E no verso seguinte diz que falta beleza em sua vida..."
"Deixe-me dizer uma coisa: as coisas são apenas o que elas são, e não vão deixar de ser. Beleza não lhes faltam. Mas não enxerga as coisas como são, quer sempre mais! Você nunca vai se contentar com nada nesse mundo?"
Olhei envergonhada para o chão. Ele pisou em minha poesia, fez dela tão chata quanto uma folha. Me parecia agora tão pessoal e tão inexata, como desesperada para se tornar especial para alguém ou ilustrar suas dores, para que depois eu pudesse me sentir compreendida.
Mas enfim o espanto se desfez, assim como todo o encanto "a-cético". Ele fizera da minha poesia só palavras. E nada mais.

Um comentário:

  1. Nossa esse foi realmente o texto que eu mais gostei, acho que você deveria se dedicar mais com essa sua habilidade de criar histórias, contos, .. eu que vou fazer letras não sou tão boa nisso como você, porém eu tenho a paixão por essas coisas então sigo nesse caminho mesmo assim :D
    Um dia você poderia publicar um livro garanto que venderia tanto quanto Fernando Pessoa.

    Beijos, sua eterna amiga Isis..

    ps: saudade é uma coisa que só se aprende o que é quando se sente, é rapaz você faz falta na minha rotina.

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