24 de nov. de 2010

Paralamas

"Minha alma é lavada, desencardida
E quem destratou a sua vida foi você
Desamarrada, desimpedida, desarmada
Voa livre pelo mundo até escurecer
Quando faz frio perto do mar
Quando não há nuvens no céu
Quando sopra o vento terral de manhã
Vale a pena acordar pra ver
Sempre atrasada, sempre iludida
De que vai voltar a vida que você deixou
O tempo, os homens
As marcas de noites e dias mal vividos
Nada disso te perdoou
Rede de surfistas no mar
Ligados por computador
Novas maravilhas pra se admirar
Não me venha com a velha dor
O trem da juventude é veloz
Quando foi olhar já passou
Os trilhos do destino cruzando entre nós
Pela vida, trazendo o novo"

20 de nov. de 2010

Ela, que encontra novas mensagens nos filmes de sempre, e guarda-as com tanto esmero com quem se deixa reger pela regra, pela graça, pela desgraça desregrada.
O olhar brilha, a boca entre-abre possuída por um sorriso de entendimento. Esse saber que a perpetra nunca antes havia encontrado espaço por entre as fendas de seu rosto. O tempo passa, as fendas se aprofundam, e ali se aloja o conhecimento tímido, corriqueiro, com medo mortal de ser incompreendido. É ainda menino, procurando aconchego de mulher conhecida.
Ela tem sua poltrona favorita sob os quadris, o tapete magenta sob os pés, a almofada florida sobre o colo. E tem um filme se repetindo na tela diante dela. A gente sabe como acaba, a gente já viu antes. Mas ela guarda cada fala de efeito com tanto esmero, como se não bastasse saltarem do roteiro urgindo por suas próprias tramas paralelas. São falas açucaradas, ou amargas; são armadilhas catárticas que exaurem toda a expressão emocional dos atores, esvaziando-a de credibilidade. Como os mandamentos bíblicos, que ela achou super-moderno desconhecer.
O sol começa a se pôr do lado de fora da janela, embora as cortinas passadas estejam alinhadas em ambos os lados, formando vistosos gomos. A luz da tela ilumina a sala, desenhando contornos estridentes a partir dos objetos sobre a mesa de centro. No seu rosto, a luz branca pinta sombras profundas como sulcos. Os olhos lacrimosos ressecam sem piscar, e ela parece pronta para ser emoldurada.
Esse filme a gente sabe como acaba: sem créditos ou palavras. Apenas a televisão desligada, e ela se levanta, enfim, para regar as plantas em seus vasos.

Minha musa é um museu

Eu precisava me livrar da pressão. Eu não tinha grandes acontecimentos pra relatar sobre minha vida, nunca participei de alguma grande tragédia. Minha vida simplesmente tomou o rumo de um filete d'água por entre as pedras, sem confrontar montanhas ou quedas livres. E ainda assim, eu podia apalpar a pressão em meu corpo, fingindo com meus dedos que aquilo que tocava não era meu. Eu podia simplesmente ter sublimado dali e permanecido apenas nas pontas dos dedos. Esse nível de concentração só se alcança poucas vezes na vida, apenas para saber que, de fato, algo se transpira nessas horas.
E então eu soube, pelo ar que se dobrava ao redor das minhas falanges, que eu não me lembrava de onde toda essa pressão veio. Minha musa é um museu, e minha história é o ar que desfila por entre suas obras. Qualquer visita poderia inalá-la para dentro de si, mas jamais teria a oportunidade de observar suas formas. Até mesmo eu, que expiro e transpiro para um salão que torna tudo o que já fora tão esparso.

13 de nov. de 2010

José Luis Piqueiro

Crianças, experimentai fazê-lo em casa
e sabereis como é bom sem ninguém vos contar.
Recordai que não há nada que vos possam ensinar vossos pais.
Eles não são vós.

Deitai-vos, bebei.
Há séculos que estas coisas acontecem
e ninguém demonstrou até agora
que sejam muito piores que a guerra.
Há um paraíso para lá dessa linha branca.

Tudo o que faz mal e vós não fazeis,
crianças, estai-lo trocando pela serenidade.
Falaram-vos dela? Algum de vós sabe a que sabe?

Se ignorais quem sois, evitai o rodeio
de averiguá-lo, juntai-vos aos outros. Um lugar no grupo
é um posto no mundo;
ora bem,
crianças,
erga lá a mão o que queira morrer sendo útil e sensato.
Lá está, não é nada divertido.

Quanto ao resto, eu sei que não sois felizes,
quando menos pensáveis que todo o mundo vos odeia.
Pois é certo, mas não faltam motivos, sois jovens e
estúpidos e não tendes direito
a todo esse futuro que ides desperdiçar (como nós, aliás).

Estais sós, é isso? Com efeito.

Aprendei a ser livres, da mentira não fujais;
sabereis por experiência que é mais sólida
que qualquer verdade pactuada.

E sobretudo,
meus lindos,
não deveis crer
que a vida vale a pena vivê-la
só por tal jurarem desde sempre os maiores cabrões.



Tradução do incrível A.M., do Rua das Pretas
(Apaixonada por esses blogs-coletâneas... esse daí prioriza a poesia latina! - até onde sei...)

10 de nov. de 2010

Boicote!



Eu queria dizer que, mesmo que você acredite que nada vai mudar após uma passeata, às vezes é disso que uma autoridade precisa. Mesmo que no ano que vem voltem a aplicar o ENEM e mais universidades dependam do resultado que este divulgar, mesmo que volte a ser anulado por ações judiciais ou divulgado por fontes terceiras; mesmo que não seja o SEU vestibular que esteja em jogo.
Querendo ou não, brincar com os sonhos de uma pessoa é maldade, ainda que "sempre tenha o ano que vem" para tentar de novo. Mas o que quero dizer é mais abrangente do que o estudante vulnerável a todo esse processo de seleção.
Sei que todos os civis devem achar uma vergonha os fatos que têm decorrido da prova do ENEM, ainda que não possuem parentes ou amigos diretamente envolvidos com isso, mas sei que não comparecerão à passeata do dia 12 pois isso não lhes beneficia diretamente.
Sei também que muitos pré-vestibulandos não comparecerão à passeata porque temos 2 provas importantes neste fim de semana aqui no Rio. E sei que muitos deles já citou alguma vez em alguma redação que os franceses devem ser tidos como exemplo quando se trata do exercício da democracia e da livre expressão. Assim como, na redação de domingo, muitos devem ter escrito que o trabalho traz sim dignidade ao homem sem sequer já ter trabalhado na vida!
Pois bem, somos estudantes. O único compromisso que um estudante de classe média poderia ter nesse instante seria passar no vestibular. Mas diga-me, quantos estarão preocupados com o próprio desempenho nos demais concursos para não demonstrarem ao público a sua insatisfação com o método de seleção? Diga-me, se não nesta fase da vida, quando poderemos manifestar à la francese nossas opiniões publicamente? Quando estivermos estabelecidos profissionalmente, com família e filhos para cuidar?
Se tornou uma questão cultural para o brasileiro não saber se manifestar publicamente. Porque ninguém acredita que a própria iniciativa dará certo, quando nem atitudes conjuntas parecem impactar de alguma forma o todo. E assim, priorizando então as questões individuais às plurais, nada é dito. Quer dizer, é dito sim, entre quatro paredes, ou ao calor de uma churrasqueira, que nada do que é feito nesse país dá certo. E que mesmo as questões que te atingem diretamente não podem ser alteradas.
Será que alguém já pensou que a corrupção dos atos cotidianos, como a música alta do celular ao fundo do ônibus ou o assalto sem armas, só ocorrem porque nada é dito? Será mesmo que a negligência do Estado frente a tantas outras questões só não é possível devido ao silêncio congênito do brasileiro?

O que eu queria mesmo dizer é apenas isso: mesmo que nada vá de fato mudar, espera-se que algo seja dito. Para que saibam, ao menos, que todos aqueles que lhes estão submetidos se importam. E que estão de olho.


Vale a pena conferir: Vestibulando-se, por devaneios viscerais

9 de nov. de 2010

Homem de vidro

Um homem vítreo jaz na praia ao amanhecer. E o mar está ali presente, para constatar. A água insiste, em tirocínio, com planos de um dia adentrar em cada fenda de seu corpo, cobrir-lhe a incompletude e servir-lhe como um molde disforme de suas necessidades. Assim é a água que pulveriza e intemperiza: também preenche espaços e suplanta o vazio.
Desfocado o seu olhar mira o alto - que não exatamente o céu -, como se uma percepção obtusa soubesse de todas as coisas, e tudo o que não se deve saber o invadisse com volúpia, procurando frestas carnosas em seu ser para se abrigar. Covarde. Corrosivo. Bicheira.
Mãos grandes, pulsos largos, dedos polposos. As ondas tratam de dar movimento aos teus braços, que mais parecem asas se vistos da calçada. A areia que se acumula sobre os músculos alongados não é a mesma que as correntes trouxeram, que não a mesma que repousou na Ilha de Lia, que não a mesma que já sonhou um dia em ser rocha. Porque tocou em seus braços nus estendidos, suas unhas róseas, suas fibras expostas. Porque depois das poucas horas de hoje, esse mar não é mais o mesmo, tão-pouco o grão de areia que ousou atravessá-lo a nado.
Penso que dorme, e em breve a sensibilidade dos dedos vão lhe despertar. Deve ter adormecido admirado da Lua, espero. Teria sido lindo. O Sol que se alevantou neste instante deve ter se envergonhado ao se deparar com ele, largo na areia por outro astro. Deve ter se demorado a subir, temendo não ser capaz de erguê-lo com seu apelo. Por isso, a manhã se arrasta, e só a água pungente tem o privilégio de tocar-lhe os pêlos. O que será que vê por esses olhos altos, quando o rosto intumescido pelo bocejo que não deu suspira?
Há uma leve brisa no ar, apenas, e o dia parece imóvel. O tempo se dirige para a praia, apenas isso, para ver o jazigo do homem vítreo. Ele deve ter sido trazido pela maré enquanto a Lua insurgia, e se enterrado ali, naquele litoral, para uma denúncia. Mas de quê?
Há paz nesse litoral como nunca antes fora visto. As nuvens cobrem o céu, o mar acinzenta; a areia, o Sol, a Lua; é tudo um profundo nada de tão branco. É tudo almofadado, vistoso, perto do homem vítreo. É um palco para ninguém.