Ela mais parecia um balão, com todas as suas cores, com toda a sua delicadeza, a pender pra lado algum. É o tipo de sonho que se corre atrás a vida inteira, sabendo que quanto mais se chega perto, mais alto ela paira. Seu único contato com a realidade é uma fita de plástico, amarrada nos pulsos de uma criança. Sua âncora, sua prole, seu legado. Quem mais poderia fazê-la não desistir, voar pra bem longe, elegante?
Ela não é do tipo que some no próximo pôr-do-sol, mesmo quando suas cores parecem pedir para se somarem ao cenário. Seus fios loiros se rebelam como uma auréola ao redor de sua cabeça, sua cor alva se derrete facilmente na areia da praia - só pode ser por isso que o sol a bronzeia. Seu sorriso é de fim de tarde, e sua voz preguiçosa combina com rede no verão. Suas cores são quentes, mas calmas, cansadas talvez.
Ela não tem passado. Se a visse agora, é como se já tivesse surgido assim no mundo, perfeita. Brotinho. Nasceste para o Sol, há muito que não é mais mocidade. Nasceste com rugas, em esplêndida maioridade. Pulou aquelas etapas que tiram o mérito de qualquer aprendizagem. Garanto que se Vinícius a tivesse conhecido, teria-a musicado. Bossa ou clássico?
Não há mais idade para fazer planos, só quer ver o que acontece em seguida. Dança conforme a música. Fez o que tinha que fazer. Dorme tranquila, profundo. Toma café-da-manhã de verdade, com todo o ritual costumeiro para pôr a mesa. Houve uma época que um copo de água antes de sair pra rua teria bastado, mas parecem tempos remotos, uma lembrança de coisas que não aconteceram. Parece sonho, tanto tomar café, como algum dia atrás não ter tomado. Ela é a verdade que inutiliza a certeza.
Ela só penteia os cabelos antes de sair, só arruma a cama antes de dormir. Só olha para o marido com afeto quando ele não está olhando. Ele faz o mesmo. Quando se olham, é como se lembranças antigas os conduzissem no automático, e não há nada de errado nisso. Os vizinhos que acham estranho, não entendem se é um robô ou um anjo. Cada passante logo presume quem ela é, e quase sempre erra.
Você não a conhece de verdade, apenas acha que é inofensiva como toda a sua rotina. Por mais surreal que pareça, acredita que ela sempre estará ali, da mesma forma como a vira anteriormente. Não é um enigma muito difícil de desvendar, só é raro enxergarem nela algum mistério. Não que ela faça questão de esconder alguma coisa, só que você não a conhece de verdade.
Sua beleza não está na rotina, nem na perfeição das coisas dispensáveis, mas nas coisas que não se enxergam, que só a vontade de ver revela. Está na discrição da conduta, no que todos esses anos ninguém se perguntou. Sua beleza está logo a sua frente, debaixo do seu nariz, e de tão discreta você, passante, finge que não é nada.
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