26 de dez. de 2009

In Somnia

Eu gosto de Sônia. Às vezes guardo valiosos conselhos de nossas conversas. Não há nada que não possa lhe contar, e quase nenhum assunto em que concordamos com a outra. No começo, ela sentaria na ponta da cama e permaneceria a noite inteira calada, sem mudar de posição ou expressão. Não deixava sequer marcas no colchão quando se levantava para ir embora. 
Ela era como um espectro que respirava todo o meu ar, e preenchia todo o quarto com sua presença.
Sônia sabia que não era querida, e principalmente, que não fora convidada. Mas sua indiferença era tão blasé que me intimidava profundamente quando percebia que ela estava me observando, quando finalmente parecia reparar em minha presença ali. Eu poderia jurar que sua vigília pode examinar além das paredes e até dentro da minha cabeça. Encontrar Sônia era um pesadelo, e quanto mais me agoniava com mais frequência a encontraria.
Sônia é como a mulher que você gostaria de ser no futuro. Às vezes veste aquela camisola de seda que você estava meses de olho na vitrine, e a usa com tanta naturalidade que até parece uma extensão de seu charme, parte de seu próprio corpo. Ela não se intimida com choro nem cara feia, e não perde a paciência enquanto você não toma a iniciativa de dizer alguma coisa. Tinha noites que se vestia com minhas roupas como que pra me ridicularizar, e isso era tão aceitável como uma autocrítica.
Ela sentada na ponta da cama, me fitando, e eu andando de um lado a outro do quarto, aflita. Liguei o mp4, e fingi não reparar naquela estranha que me perseguia inúmeras noites adentro. Não durou muito a estratégia, Sônia realmente me tirava do sério. Quando enfim tomei fôlego, ela parecia entender cada palavra e do que se tratava, como se tudo o que eu dizia já fosse um assunto recorrente.


_ Não vou reclamar, gritar que estou cansada em um microfone. Vou dizer que já estive mais confiante, mais afiada. Mais intocada e íntegra, também. Vou dizer que as palavras já fizeram mais sentido pra mim e que conselhos diversos já foram ouvidos antes. Mas isso era quando as coisas eram em technicolour. Eu não poderia ver meu hálito se condensar, mas tenho certeza de que minhas palavras vinham acompanhadas de legendas. Esqueça os sonhos em technicolour, é assim que era para ser.


Sorriu, e cruzou as pernas. Sônia se debruçou lentamente por sobre a cama e me convidou a deitar ao seu lado com um sorriso imperativo, manipulador se posso dizer. Temia o tipo de aborrecimento que uma resposta negativa ao convite pudesse causar naquela figura misteriosa. Cedi, e enquanto fitava o teto, desconfortável em minha própria cama, ela se aproximou do meu ouvido, deitou em meu travesseiro e censurou, com a voz mais decidida e doce do mundo:


_ Não seja superficial, não seja barata, você sabe que essas coisas não são mais assim, e que pouco sente falta desse passado tão recente. Você mesma disse. Não há nada de bom em ser perfeita, você sabe tão bem que as coisas são fáceis de adivinhar. Então porque passa tempo tão precioso de sono acordada pensando em águas passadas?

_ Você dorme a noite inteira e mente acordada. Eu não, se durmo minto a mim mesma, então passo a noite inteira acordada. Sonhar é um luxo para quem tem certeza de que fez a escolha certa, pois não precisa temer que seus sonhos lhe assaltem com assuntos inoportunos, dúvidas que conscientemente não encorajaria.


Se divertiu com resposta, como quem descobre um ponto fraco do adversário. Deu o golpe incisivo:


_ Você tem medo do que seus sonhos podem te lembrar, então?


Me virei de bruços, decidida a encarar minha adversária nos olhos, e a tomar posse da minha metade do travesseiro. Me ajeitei como pude, queria conquistar espaço físico naquele diálogo. Eu queria falar exatamente sobre aquilo que eu não falava com ninguém. Queria fazê-la entender, mesmo que fosse apenas uma estranha.


_Tenho, porque não lembram a realidade como ela é, mas como era para ter sido ou como eu queria que fosse. Durma sobre agulhas e ouça toda a verdade, você vai até acreditar que é forte. Prefiro não dormir, e consequentemente não sonhar, para estar de olhos abertos apenas para a realidade, que por si só já fere o suficiente. E já que é pra passar o dia e a noite de olhos abertos, fica mais fácil resistir até o final pensando que se é forte e autossuficiente. Mesmo que tenha que se lembrar o tempo todo que já esqueceu o que se passou e o que te assombra.


Ela passou a encarar o teto também, distanciou os lábios do meu ouvido esquerdo e se apoiou sobre meu ombro. Foi o primeiro contato físico, e lembro que foi macio e leve como uma pluma de travesseiro.

_ Você tem sorte de eu estar por perto, então. Por que faz tanta questão de estar atenta à realidade se você mesma diz que tem de resistir até o final do dia?

Ponderei insensatez a partir desse ponto. Retrucar com Sônia era inútil, como se ela já soubesse quais seriam minhas respostas. Mas insisti, a teimosia superando o medo de estar enlouquecendo.

_ Porque, oras, eu deixei minha cabeça em um aeroporto, meus pensamentos em um táxi, meu coração na recepção, mas a última coisa que vi foi ele. Não vale a pena ficar até o final, se o amor pode curar todos os seus problemas?

_ Depende de quanto tempo você estará disposta a esperar... Não vale a pena viver contando com isso, esperando por um remendo especial e milagroso para suas cicatrizes. Se você está parada no meu caminho, arrume um par de mãos hoje. Reaja, não vá gastar metade da sua vida esperando por alguém que pode nem chegar, e outra metade lembrando de como era linda a juventude. Não vou perguntar se você parou para pensar durante esse caminho, mas é sensato fazer o possível para evitar arrependimentos.

_ Eu não vou mentir, dizer que todos estão bem, até nós morrermos. Arrependimentos e erros são inevitáveis a partir de determinado ponto. Se fôr para errar em esperar, que seja por alguém que cometeu o mesmo erro, acreditando na mesmo fantasia que você. Se eu sou seu erro, você é o meu.


Ela se apoiou no cotovelo direito, e passou a encaracolar meus cabelos com a outra mão. Um ar meio fraternal, meio maternal. Sônia estava séria, sem segundas intenções nos sorrisos que escapavam eventualmente.


_ Pense em como você gasta seus dias. Espere e veja como a natureza moderna pode te "consertar". Esse romantismo precoce te deixa tão alerta e incomodada com as coisas ao redor que nem deixa o verdadeiro amor se aproximar. E mesmo que encontre alguém, a expectativa da espera extirpará seu sentimentalismo logo em seguida, quando mais precisará.

Em tese, concordei com ela. Eu criava muitas expectativas, mastigava a realidade até perder o gosto, e cuspia. Comecei a perceber que minhas crenças não tinham fundamentos, até então eu não estava apaixonada para afirmar que apostaria minha vida em um amor. Adianta dar palpite sobre o que não se tem certeza? 
Sônia daria uma ótima advogada, conseguiu me tornar contra mim mesma. E beijou minha testa em meio ao meu silêncio. Percebeu a confusão que causara, e suspirou como se sua missão tivesse sido cumprida. 
Daquela noite, pouco me lembro mais. Eu me acusava, e ela me defendia; eu me defendia, e ela acusava. O debate perdurou mais um pouco. Percebi a voz de Sônia cada vez mais distante e leve. 
Cheguei até a pensar que era um anjo, mas sua presença era muito perturbadora, não me inspirava calma alguma. A maioria das pessoas deseja uma companhia a noite, mas como disse antes, não Sônia - e ela sabe disso. Por mais que tente acalmar minhas aflições com conversas terapêuticas, sua presença corrompe meu sono.
Minhas pálpebras pesavam, eu mal podia acreditar nos meus olhos. Fechá-los antes seria como mantê-los abertos por tempo demais, era preciso esforço. Mas agora, como uma longa piscada descompromissada, eu estava de olhos fechados, relaxada de certo modo. Podia ainda ouvir, ao longe, Sônia me fazendo perguntas. Havia uma música ao fundo, uma baladinha meio "bonitinha" demais. Quando finalmente a bateria do mp4 se exauriu, Sônia e eu não poderíamos mais disputar quem conhecia mais músicas do Sondre Lerche e usar seus versos para se expressar. Era uma competição meio infundada, mas enfim ela se calou. Percebi meus olhos fechados uma última vez, e no ímpeto de abrí-los novamente para "ver" se estava eu dormindo de verdade, toca o gongo. Desperta o despertador. Quando eu achava que tinha triunfado... Sônia não estava mais lá para ver. Acordei para o dia, aturável como os outros, na esperança de encontrar a cura para os meus problemas.

3 comentários:

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  2. Você se sente assim ou foi só um texto bom mesmo?

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  3. É complicado ficar sem dormir, mas tem seu lado bom, às vezes... te dá uma perspectiva diferente das coisas, sabe?
    Sei lá, algumas passagens são meio fantasiosas, mas esse diálogo com a "voz da razão" é meio que verdadeiro rs

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