Estava escuro. Tudo pronto para começar.
Ela ainda podia ouvir murmurinhos ao seu redor. Sorriu para as cadeiras vazias a sua frente. Notou as cadeiras vazias à sua esquerda e à sua direita uma última vez com os cotovelos, e enrubesceu. Esperou por tanto tempo no lugar marcado que viu a chuva chegar e dar uma trégua. Nunca se imaginou esperando por tanto tempo por ninguém, logo ela, que era tão auto-suficiente desde a puberdade! E só pra piorar, voltou a chover logo quando decidiu não esperar mais.
Se pensa que ainda assim vou esperar até que chegue com alguma desculpa, está muito enganado! Que seja aquele maldito filme, verei sozinha!
Tinha pena da cadeira vermelha tão cheirosa daquele cinema antigo no centro da cidade. Se importava mais em estar molhando o clássico estofado do que em se resfriar com o ar condicionado. Tudo culpa daquele cretino, e da chuva mais presente do que ele! Ensopada dos pés à cabeça, engoliu o próprio orgulho em seco, a despeito do perfume lavado de sua pele e do seu penteado desarrumado, feitos especialmente para aquela ocasião. Nada estragaria aquela sessão, nenhum pensamento a abalaria. Porque a vida é assim mesmo, a gente se desaponta e dá a volta por cima.
Ele nem ligou para informar o atraso, será que aconteceu alguma coisa? Será que ele não vem mesmo, se esqueceu de mim?
Suspirou. Acotovelou uma última vez os braços das cadeiras vizinhas, e fingiu que era gota de chuva que escapou de seus olhos.
Ele sequer ligou. Vai ver nem esperava se atrasar tanto. Estava abafado dentro do cinema, será que ninguém vai ligar o ar condicionado, não? Livrou um dos pés do sapato e coçou a perna oposta com os dedos expostos. Até seus pés estavam perfumados de hidratante para aquela ocasião. Fechou os olhos mais uma vez, como uma longa piscada, e percebeu um clarão diante de si logo em seguida. Fingiu que não esperava dessa noite, ia ser apenas um cinema com um amigo e nada mais. Azar o dele não ter aparecido. Abriu os olhos para o clarão e viu o filme escancarado na tela. Demorou a começar, hein?
Silêncio. Roubavam a sua atenção os letreiros vibrantes das saídas de emergência. A trilha sonora entra, quase estourando as caixas de som. Será que esperavam que os espectadores estivessem tão aéreos no comecinho do filme?
Recuperou a compostura, recolocou o sapato. Pôs a bolsa no assento ao lado, se esticou para marcar presença. Aqui jás uma mulher solteira.
Será que ele desistiu de vir? Por causa de mim, ou foi o filme que escolhi?
Apresentado o mocinho, ela tentou descolar os olhos da saída de emergência. Exigiu muito esforço, apesar de não ser nenhum galã quem ela esperava que atravessasse aquela porta, esbaforido e, no mínimo, tão molhado quanto ela. Logo foi apresentada a mocinha, em uma história ainda paralela ao do mocinho. Se me contassem como eu conheceria o meu futuro romance, eu não teria acreditado, mas nós, espectadores, acreditamos desde o início por ela. A gente espera e se exaspera em seu lugar, assim ela pode fazer a cara de sonsa que quiser e achar que nada demais vai acontecer. Na vida real, ninguém é tão tranquilo assim enquanto espera seu par ideal!
Cretina! Aposto que vai judiar do mocinho!
Em pouco tempo, já mirava toda a sua angústia na tela. Mal se importava com a história projetada ali, só procurava brechas para espelhar sua vida naquilo que era contado. A ponto de esquecer de mirar os letreiros vermelhos acima da porta de quando em quando.
Aos poucos, foi se deixando levar com o desenrolar do enredo. Por uns poucos momentos não se lembraria da própria existência em troca da essência das personagens que desfilavam naquele palco montado. As sombras ao seu redor se diluíram a ponto de se tornarem completamente disformes. Seu corpo flutuava em alto mar, vazio, ela agora estava juntos dos atores dentro da tela, engolindo e sendo engolida por aquele mundo.
Completamente fora de si, pensou o óbvio quando a sombra à sua diagonal se mexeu. Pensou que outra gota de chuva teria se juntado aos seus olhos. Piscou apressada, seu mundo podia esperar. Afinal, não esperou o dia inteiro naquela chuva? Pois bem...
As cadeiras pareciam se reordenarem, trocarem de lugar, como se tomassem vida quando todos os espectadores estivessem completamente anestesiados. Estranho, isso. De repente, tão rápido como uma onda, a sombra parecia adensar seu volume e partir na direção dela, uma presa fácil. A sombra foi aumentando, aumentando, quando desgrudou os olhos da tela... !!! ... era tarde. Engolida por tão insensata escuridão, sentiu o ar fugir de seus pulmões. Um longo suspiro de seus lábios, para o ar uma das saídas de emergência. A escuridão trazia sua bolsa no colo. Logo afastou seu rosto do dela, soltou a mão de sua bochecha levemente maquiadas. Abaixou o assentou ao lado da dela, e se jogou em um único suspuro. A fileira estremeceu, alguns se despertaram de seu transe. Ele ainda competiu por espaço no braço da cadeira, mesmo que o estivesse dividindo com ela. Ela olhava fixadamente para a tela, enrubescida de novo.
"Não estava mais onde combinamos, pensei que tivesse desistido de mim... mil desculpas pelo atraso, mesmo. Você pegou chuva?"
Não... Tá quente aqui, né?
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