O tempo passa. Óbvio.
Vejo no meu pai que quanto mais se passa, mais sólido a gente fica. Toda a maleabilidade juvenil lentamente se condensa, e num "muito de repente" a magia acontece. Ou se perde completamente. Fica difícil mudar as coisas, coisas essas que hoje eu descarto em um simples surto hormonal.
Parece que quando criança a gente existe apenas como fumaça, sem legado nem lembranças, e à medida que a idade avança, a gravidade trata de nos condensar, feito planetas de si mesmo, e vamos virando estátuas de praça dentro de casa a medida que envelhecemos. O tempo passa, e varre da gente as possibilidades de outras pessoas que poderíamos ser sem varrer os sonhos. Pode até ser meio frustrante a princípio, mas acho que é isso que nos mantém os mesmos a longo prazo.
E no fundo, acaba que a gente se torna a pessoa mais similar possível ao plano inicial, àquela primeira noção de futuro que nos incute o hábito de fazer planos atrás de planos. Pode até ser que você não se torne o astronauta ou médico que pensava, mas as ambições de criança podem muito bem ser mais reais do que outras que a gente adquire com o tempo. Realizar sonhos de infância não é uma tarefa fácil, principalmente porque ainda não há nenhuma restrição quanto a sonhar alto. Mas a busca por esses sonhos prematuros é que nos consolidam quando adultos, nos mantém no caminho certo para o que realmente cobiçamos.
E, mais importante do que isso, não basta apenas querer e fazer o possível. Há uma fábula budista que diz que não basta a semente querer se tornar uma árvore, é preciso também que a árvore tenha vontade de existir, como duas forças contrárias atuando em tempos diferentes, mas convergindo para o presente. Louco, não? Em outras palavras, o impossível será sempre impossível, não adianta espernear por coisas que não fazem parte do seu 'destino', que não são atraídas pelo seu 'Karma'. É uma forma mais bonita de dizer o que meu pai diria: "o que tiver de ser, será", - o que não torna o conselho menos sábio.
E, ainda, podem haver pessoas e circunstâncias que eventualmente nos desviem da realização desses sonhos de infância, mas acho que sempre achamos nossos meios de contornar isso. Pode não ser o meio mais nobre ou justo, mas não dá pra acertar sempre. Claro que os fins não podem justificar os meios o tempo todo, mas se ninguém nunca errasse, jamais haveria o desejo de mudança e a efetiva busca pelo que se quer. Seria como fazer sempre a coisa certa como se houvesse uma receita para isso, sem ter sido uma decisão do indivíduo. Seria uma inconsciente e sistemática perfeição que tiraria toda a glória da realização de um sonho de infância.
Claro que também podem existir pessoas e circunstâncias que, se não facilitam, te colocam no rumo certo de novo. Elas que fazem parecer que as grandes afeições são passageiras e eternas.
Acredito que todos têm sonhos de infância, mesmo que não correspondam com o que queremos no presente. Mas perto dos "planos iniciais", o resto é apenas ambição, pois muitas vezes são coisas que não fomentam o espírito quando sucedidas. Passam apenas com um elogio ou com o próprio tempo. E se quer mais.
Acho que se nunca estamos satisfeitos hoje, é porque um dia quisemos que o tempo passasse mais depressa, e nos tornamos adultos antes de ter tido a decência de sonhar infantil e negligentemente. Porque sonhar hoje não é o mesmo que ter sonhado 10 anos atrás, nunca é, nem poderia ser. Agora que podemos fazer coisas, não há mais tempo para sonhar.
That's it. Vou entrar para o mercado de Auto-ajuda, passar a vida dizendo aos outros o que fazer e vender meu queijo.
Auto-ajuda? Ah, não deprecie assim seu texto! Ele está muito bom para ser auto-ajuda.
ResponderExcluirEsta é a visão acadêmica - na minha área de Letras - sobre a auto-ajuda. Uma visão parcial e preconceituosa, claro, ainda que eu não seja fã dessa modalidade.
Tomo para mim este texto como uma bela crônica.