19 de fev. de 2010

Noite de Fevereiro

Deitei, pisquei. A escuridão em que me encontrava ainda permitia que eu distinguisse formas e objetos. Talvez eu só tivesse uma boa memória do quarto, e nada mais. Uma boa memória não é motivo para irritar ninguém. Não é nenhuma luz direta no rosto. Que bobeira, sim, bobeira. Vá dormir.
Fechei os olhos. Pisquei como quem faz força para mantê-los fechados.
Essa noite eu esperei a hora mais fria da madrugada para dormir. Sentei e esperei obedientemente no escuro de coisas distinguíveis, até decidir tombar um pouquinho para o lado. Me acomodar como desse.
Às vezes meu ventilador mais parece hélices de aeromotor; meu quarto não trepida nem meu encosto me massageia, mas o zumbido é infernal assim mesmo. Os repetidos estalos parecem engasgos de motores que se recusam a parar, mesmo quando o comandante desliga a ignição. Parecem querer alertar que é  muito perigoso cessar a rotação em pleno vôo, seu comandante! é queda livre!
Cai macio o bocejo em minha boca, mas o turbilhão das turbinas zunindo aos meus ouvidos não param.
Se minha escuridão tivesse cor, seria amarela. Como se junto com a lâmpada do semáforo, piscasse também a consciência, em um nível de vigília que não alcançaria durante o dia nem se eu quisesse. Amarelo. Atenção. Atenção.
Me virei em posição de repouso. Pisquei. Moldei meu corpo a outro corpo: travesseiro. No verão, ninguém dorme abraçado com ninguém, mas era como se fosse. Jazia um corpo ao meu lado, na minha cama, de temperaturas comparáveis a minha, só mais inanimado, macio e maleável. Abracei-o como pude, deixando a nuca à mostra. Meu cabelo se espalhava feito serpentes de medusa ao vento. Fazia cócegas ao tocar o nariz, então tinha que enterrar bem o rosto no travesseiro. Transpiramos juntos do meu suor, desidratei sozinha.
Em nova posição de submissão - o travesseiro por cima, claro -, podia ouvir vozes. Algo corria e zunia dentro dela, minha cama. Levantei num susto, e silêncio. Tinha gente morando no meu colchão. Farejei o ar em busca do som. Definitivamente, acho que esses zumbidos vieram de dentro do colchão. Tem gente aí?
Um batuque pagão fazia o chão tremer. Mas tanta musicalidade não é motivo para ninguém se irritar, é cultura. Que bobeira, sim, bobeira. Volte a dormir.
Levantei num salto, para encarar com o rosto bem de perto o que o escuro não se importava em deixar exposto. Estava ali, paradinho, meu colchão. Pulei para salvar meu travesseiro daquela aberração, afinal, é o único que permito deitar ao meu lado. Rolamos para longe da cama, berço daquele mal, ostentação do perigo. Quanto medo tive de perdê-lo! Achei que seria seu fim, em face do perigo que corria, tão próximo ao estranho! Estava pálido, suava horrores, meu travesseiro! À salvo, dentro do armário, permitia-me pensar com mais clareza. O que fazer?
"Ei, você aí!"
Anh? Comigo...? Será que ele sabe que estou aqui?!
"Ei, você aí!"
Montei na fera e colei o ouvido em seu dorso, agarrando como podia o lençol. Não sabia o que esperar daquilo, talvez um touro mecânico? Enfim...
"Estou aqui" disse.
"Não vai dar? Não vai dar não?!"
"O quê, meu deus?!"
"Você vai ver a grande confusão..."
"Oi? Você tá me ameaçando?!! Que @#%%& é essa que rima dentro do meu colchão?!"
O chão tremia. Talvez meus joelhos tremessem também. Estava tudo tão quieto, mas as vozes não me deixavam em paz. Que ódio, que maldição! Eu, que tomara banho antes de me deitar, me liquidificava por todos os poros, misturando pânico ao senso prático de sobrevivência. Preciso liquidar desse colchão, decidi.
Peguei a arma mais próxima que encontrei: a tesoura sem ponta do Mickey em cima da escrivaninha. A escuridão amarela piscava freneticamente, mais em tom de advertência do que de enunciação. Não mais que de repente, o que era uma alerta se transformou numa súplica rubra, permanente. Meu quarto ambientava agora luzes de motel. Pare! Pare! Pare!
Apunhalei a fera até perder as contas. Se a Perícia me acusasse de esfaqueá-la certo número de vezes, eu não saberia dizer se estavam sendo justos no laudo. Precisava me livrar das evidências, para toda sorte.
Recolhi o enchimento que espirrou de dentro do estofado, tentei pressioná-lo de volta por um dos buracos. Atravessei o quarto, com o colchão ainda em mãos. Por um momento, me arrependi do que tinha feito, e sabia que me arrependeria do outro crime que estava prestes a cometer. Mas agora, Inês é morta. Literalmente. Essa alma 'batucante' repousava entre outras almas, onde quer que estivesse. E eu não tinha mais nada a ver com isso.
Arranquei as cortinas com tal brutalidade que a luz da rua não fez por menos com minhas retinas. Escancarei as janelas contra a parede, e arremessei a tesoura o mais longe que pude sem ver nada, o que não deve ter sido muita coisa, pois até ouvi esta se espatifar contra o asfalto. Quando apoiei o colchão na janela, convencida de terminar o que comecei, minha mente espaireceu. Minha visão, minha audição, meus sentidos recobraram minha razão. Eu podia sentir o cansaço em cada músculo, em cada osso de meu corpo irradiando. Por um momento, tive vontade de chorar, de deixar que meu corpo se espatifasse no chão e ficar assim, largada, até o sol penetrar essa escuridão fingida. Quando vi o que se passava do lado de fora, caí em mim. Down em mim.
O bloco passava com alegria, arrastando multidões, cerveja e lixo consigo por toda a orla. As risadas, os festins, o spray de espuma, tudo acontecia lá na rua. Inclusive os romances de Carnaval. Aquelas cores dançantes estagnaram-se em meus olhos, aquela música entupiu meus ouvidos assim que os invadiu.

"Ei, você aí!
Me dá um dinheiro aí!
Me dá um dinheiro aí!
Não vai dar?
Não vai dar não?
Você vai ver a grande confusão
Que eu vou fazer bebendo até cair!
Me dá, me dá, me dá, ô!
Me dá um dinheiro aí!"

2 comentários:

  1. Você deveria reunir todos os seus maravilhosos contos em livros e se tornar escritora.

    Preciso dizer que adorei?

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  2. "Requiescant in pace, Colchão..."

    Ótimo conto, delirante!

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