26 de set. de 2010

Antiaderente

Cada vez que se vira quando estou lhe falando é como se cuspisse cola nos meus pés. E eu tivesse que gritar cada vez mais alto; as palavras escorrem pelas paredes e se entrelaçam ao chão, num assoalho que piso com semelhante indiferença. As palavras encharcam a sola dos sapatos, um pisar ruidoso e molhado.
Esse pedaço porco de chão, preso ao meu andar, que eu mesma fiz. Indo e vindo de encontro aos meus pés, como quem brinca com o queijo quente na frigideira. Enjôo. Embora eu tivesse os pés frios, não consigo escapar dos círculos concêntricos antiaderentes. Do tapete.
Cada vez que se vira e vai embora, é com o chão que vou ter meus abraços. Sorvendo a poeira de seus fios concêntricos de cabelo, os pêlos do gato entre outros fâneros cutâneos cortados. Esse pedaço pouco de chão é mais meu do que seus lábios. É com ele que vou ter seu tato, banhada em palavras; que em qualquer outro contexto teriam sido lindas. Lidas. Ou, até mesmo, ouvidas.
Ao seu andar está preso o silêncio seco, das coisas que não mais diz. Só a espalmada de suas solas, e um tapete que samba ao seu pisar soturno. O chão te convida a mergulhar. As palavras oleosas saltam a sua vista, tão-ditas, que impermeabilizam o tablado. Uma camada de cera que encerra coisas grudadas; são mais minhas do que seus olhos nas lentes de contato.
Eu sempre detestei esse desfile de corpos magros nesse apartamento. E também não gosto de projetar com minha voz os raios de frases que crescem concêntricos como cabelos de sua cabeça áspera. Eu tremia sob sua voz grave, austera e doce antes de se tornar a saída de som de um intelecto muito frio. Sua voz me desarmava. Eu odeio esse silêncio, esses passos, esse toques entre corpos sem contágio; cruzando a sala, sem aderir viscosa ao seu peito, tão-somente um esbarro em cena.
Amor, você está cansado?

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