Passou a mão pelos finos cabelos em direção à nuca, e teve um certo alívio aos tê-los contra os nós dos dedos finos; não porque esse gesto o acalentava, mas porque o comprimento dos cabelos em riste já ultrapassava a grossura dos dedos. Ele, que costumava ser cuidadoso com os cabelos antes dos remédios - e era assim que media o tempo, por unidades de comprimento entre o couro e a ponta dos fios; a distância entre o presente e a doença. Ele, que costumava ser cuidadoso com os cabelos antes dos remédios, amassava-os como que para provar sua textura e resistência.
De alguma forma aquilo mexeu muito comigo. Ele não costumava falar disso mas eu sabia que, por meio desse gesto, ele buscava medir a importância de uma pergunta difícil, e o tempo, agora precioso, que pretendia atribuir à resposta. Era um gesto de respeito e sequela mútuos, de pós-guerra, à mais sensata das perguntas.
Dei-lhe o tempo que precisava, afinal, não precisava insistir num diálogo. Ele recuou na cadeira, tateando o encosto. Olhou em meus olhos como se buscasse as palavras certas, e retribuí, à procura do notório sorriso enrustido pelos olhos pesados. Eram caudalosos seus olhos. Mas assim continuamos, no ímpeto de não nos incomodarmos com aquilo.
_Você precisa tomar seus remédios. Toma com o meu suco - disse aleatoriamente, fisgando-o de seu silêncio - Você se diz bem agora, mas não parece estar se cuidando...
_É, eu sei. Eu não me esqueci; essa exaltação é de quem acaba de se lembrar. Mas obrigado por esquecer, às vezes.
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