6 de set. de 2010

Transfiguração

Dessa vez, o abalo da mudança coincide com um passo, que coincide com o pulso daquela música à cabeça. Pode-se sentir o queixo se deslocar na transfiguração, como a descida em uma escada - e nessa hora, ter uma música em mente é como possuir uma trilha sonora, um clímax, um desfecho, e um público. Estar entre-degraus, na iminência do abalo mecânico, incita à desistência dos joelhos e o corpo a quedar-se de uma vez. Toda transformação exige um ritual de passagem para que nada fique pelo caminho, como brinquedos espalhados pela escada. Eu nunca tive tanta consciência de tudo o que se transfigura.
Cada nível que me traz mais perto do chão, contudo, me impede de tocá-lo com os pés. Eu cheguei bem perto de estar entre os comuns, mas tenho que continuar descendo desse pedestal. Porque eu quero mais, eu quero ir até o fim no âmago do mundo. Continuarei descendo, para que em módulo o antigo desnível seja o mesmo. E quando chegar lá, no pórtico do inferno, vou bater à sua porta e dizer pro capeta "dá licença que eu não vim aqui pra ver você." Eu preciso continuar descendo, mudando junto com todo o resto que se transfigura, para chegar no chão concreto.


"How do you know you'll recognize me?
I'm not too clear, but I'm easy to see
[...]
I gave America her name and she taped it on the sea
I gave America her gold and she melted over me"
America de Robyn Hitchcock

Um comentário:

  1. Obrigado por me visitar.
    Gostei muito desse post, me indentifiquei em muitas coisas. Como é dificil estar entre os comuns

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