Mas um pensamento me digeria continuamente, ainda que motivos me fossem apresentados bem junto à face. Havia uma guerra acontecendo, e a Inglaterra estava preocupada com seu rei gago, com as imoralidades da família real britânica? Um rei não toma decisões de governo, mas ainda assim deve fazer o que se espera dele. Por que era preciso um rei que discursasse para que um inglês se voltasse com orgulho para sua pátria e disposto a batalhar por ela? Um bom discursante recruta mais apoio social do que qualquer outro, mas isso não deveria fazer a diferença. Com sua palavras um rei pode mais soldados para os exércitos, ainda que não concordem totalmente com as razões para estarem lutando. Perde-se o poder de escolha prócimo a um bom orador? Sugere-se que as pessoas não podem ser fiéis por si mesmas.
Eu não consegui prestar atenção no filme, e não via crise no que se passava. "Acredite se quiser, a Inglaterra está em guerra" me bastava. Se eu pudesse eu também teria fugido do alistamento militar, mas eu entendo de gratuidade, que se confunde com fé ou confiança; só que é, dentre elas, aquela que não precisa de um motivo. A gratuidade de um sentimento serve-se de si mesma, e se basta. Não seria preciso um belo discurso pra me incitar o patriotismo.
Eu vejo coragem, um olhar desafiador em quem acredita nas coisas sem que precise de um motivo pra se sustentar. É muito difícil se manter íntegro nessa prática, e é por isso tão rara. Como falar sobre dever cívico para uma criança se esta aprende a dosar os motivos e, por consequência, os benefícios de cada uma de suas ações? Eu não vejo no gratuito ingenuidade, ou sequer conformismo, se é assim que chamam, quando se sabe no que está investindo. É perigoso, carece de coragem. E eu gosto de pensar nisso, coragem, quando me dói a mente e sou derrotada por uma bruta ressaca moral. As pessoas tendem a desvalorizar o que não dá certo e se esquecem daquilo que se basta em si; essas críticas são difíceis de afastar da consciência às vezes. Só porque prefiro acreditar que um amor só vale a pena se eu puder apsotar todas as fichas sem motivo algum, não quer dizer que eu seja ingênua. Eu sou corajosa. E mais corajosa quanto mais cafajeste se mostrar a obra de minha afeição. É uma questão de dever cívico, e ele pode até discursar muito bem, mas sou eu quem aposta as fichas, quem se apaixona com a gratuidade de um movimento reflexo e que sabe ser fiel por si mesma.
So raise your glasses if you're wrong
in all the right ways
P!nk
uau!
ResponderExcluirestou impressionada com o rumo que o texto tomou...
ótimo, Lia!
É aquela velha mania de pensar só nos seus próprios problemas, por mais que diante dos seus olhos seja outro o cenário
ResponderExcluirNão tem muito pra onde fugir quando se pretende escrever. Bons textos surgem quando tratamos de nossos "próprios problemas"...
ResponderExcluir"Eu vejo coragem, um olhar desafiador em quem acredita nas coisas sem que precise de um motivo pra se sustentar. É muito difícil se manter íntegro nessa prática, e é por isso tão rara".
ResponderExcluire não é??
gostei tbm do texto!
Um beijo