28 de mar. de 2011

Um anjo

Baseado em um conto de Machado de Assis que li há muito tempo atrás, e que já não lembro o nome...

Vi uma criança na minha janela, enrugada como quem faz muita força para nascer. Me disseram que eu fui assim também, instantânea nesse mundo. Tinha a pele sebosa e nada lhe cobria o minúsculo sexo. Era um menino empolado e feio, de olhos salgados que me observavam com urgência. Feio para quem espera. Seus pequeninos dedos pareciam ainda colados entre si, feito o cabelo apastado sobre a cabeça mole.
Ele me via sério, severo, e eu estava entregue ao seu julgamento. O que é que observava, onde me olhava? Queria de mim alguma coisa, eu não sei, pedindo algo de imediato. As rugas caíam sobre os olhos que se forçavam abertos num rosto derretido e viscoso. Como poderia alguém dar vida a algo tão feio, meu deus? Quem foi que te planejara? Sua feiúra escavada, um espécie de velhice velada cobria de sombras seu semblante. A criatura me olhava do lado de fora do quarto, como quem urge por paciência, ou pelo tempo que lhe faltava. 
O que será que pensava o menino? Sua boca arqueava para baixo esticando os sulcos ao redor; eu temia as impressões que tirava de mim naqueles instantes.
Às vezes tem-se idéias errôneas que invadem a consciência, como uma sinapse contrária de encontro à racionalidade, colidindo na velocidade da luz, faiscando os sentidos, comichando o cérebro. Eu sentia que o menino não era um acidente; só não havia sido pensado antes. Era uma criança tão enrugada, com tanta intenção de existir que não poderia ter sido imaginada por alguém; ele se fez e se pensou, como idéias que pululam em mentes até se livrarem da bioquímica material dos neurônios e alçarem a independência metafísica. Aquele bebê se fez meu filho e flutuava na minha janela aveludado em noite para se anunciar. Eu virei no seu corpo, das coisas que te formam, da maior intimidade que um homem pode ter com um mulher, que qualquer outro que já a teve não poderia alcançar.
Ele me planejou, quem sabe planejou até o próprio pai. Quem será ele? Como o saberei, como pode me incutir um bicho tão feio? Que pecado essa criança poderia já ter cometido e nascer punida? Que posso eu ter feito para que fosse ele, indefeso, a pagar? 
Meu filho, olhei-te a primeira vez como má arte alheia, me sabia superior e não sabia como dizer. Te vi como um trabalho que o tempo estragou, um dejeto, uma vulgaridade em público. Te censurei. E seus olhos severos em mim me denunciam.
Outra vez tive o sonho de ter uma criança em mãos e deixá-la cair no chão. Vi partir-se em vidro e o choro cessar. Meu filho com seus olhos salgados não me perdoaria se tivesse visto. Ele deve ter projetado seu pai e eu com todo o cuidado para tê-lo, e esperado um sonho dentro da eternidade.
Mas e se no caminho o contato é interrompido por descuido, e o casal decide esperar mais para engravidar; que ter um filho agora era jogar a vida fora, para ser apenas eles dois por mais tempo? O que seria desse filho, um susto prematuro de quem se esquece o que faz. Agora espera o que pode ser para sempre, perde as pessoas que fez para si. Sem chão, sem corpo, sem vida; vagando no vazio eterno. Sem paz.
O menino pingava, umedecia a janela pelas narinas. Eu queria poder lhe sorrir, mas ele é tão sério, sem cheiro. Estéril, em segredo. Um idéia que se pensou com carinho e foi esquecida por terceiros. Eu tentaria me explicar, diria que era imatura, que mais queria ser amada do que amar. Diria que achava que merecia esse luxo, que era jovem. 
Mas depois disso, não dá pra ser a mesma. Eu não poderia ser filha de alguém e acreditar que me fiz sozinha, nem acreditar que um filho meu se fez sem que eu tivesse alguma coisa a ver com isso. Eu tinha de transmutar daquele que recebe para o que doa. Eu deixava de ser filha para ser mãe. Eu merecia ser isso naquela hora, uma mãe sem filho.

Quando será que o medo muda tudo?

4 comentários:

  1. Meu... Parabéns! Sério! Li num fôlego só e fiquei com cara de "já acabou?" quando cheguei ao fim. Simplesmente fantástico!!! O jogo de palavras e emoções contrabalanceadas em pensamentos e angústias, e joga pro leitor em forma de frases que se moldam de acordo com a frase seguinte mesclada com a frase que esperamos ler e não lemos é ADMIRÁVEL!!!

    Beijo.

    ResponderExcluir
  2. intensidade
    ;)
    visitei seu blog..
    beijos e linda quarta

    ResponderExcluir
  3. Poesia em prosa. Por alguma razão.

    ResponderExcluir