Pensavam que eu fosse um menina brilhante, daquelas raridades que vez ou outra se destacam academicamente, sem muito saber o porquê. Mas vou lhes contar um segredo: há algo no universo que me conspira, me lança do céu as respostas. É como suspirar lentamente, mas o ar ofegante dilata as narinas forçando a entrada, quebrando o ritual que abarca toda respiração de cada ser vivente.
Geralmente, para que se deixe de acreditar em uma coisa, precisa-se estar a par, nem que seja de relance, de uma outra verdade que poderia explicar perfeitamente a realidade. E assim, com esse gostinho de bute, procura-se a verdade mais verdadeira, escava-se o buraquinho da madeira até que uma fenda permita a imersão completa em algo que se pode acreditar. Comigo não é bem assim que acontece.
Eu tenho momentos de insight, quando parece que um anjo me canta as verdades sem que eu mesma as tivesse suspeitado. Ah, o malvado poder da sugestão! Isso só pode ser obra de um anjo para me fazer duvidar de todos os meus momentos de lucidez! Porque a partir desse momento, a realidade não me basta. Não sei qual a verdade que não vejo, mas sei que o que se desvenda aos meus olhos não é aquilo que transcende todas as coisas. Talvez seja apenas um delírio, mas nada mais me é real. E não bastaria me acomodar em saber disto sozinha. Se me perguntarem, não sei dizer como é a verdade, mas sei que tudo aquilo que até mesmo me abarca é uma grande mentira.
Porque se tudo no mundo se encaixa de alguma forma na verdade-verdadeira, fincando-lhe suas estacas e fixando seus eixos, essa só pode ser a intersecção entre todas as realidades e todos os pontos de vista - não dá para se pensar nada fora da realidade-verdadeira. Somem-se os ricos aos loucos, os comunistas aos muçulmanos e os tibetanos. Há algo comum a todos eles que é verdadeiro, que é exatamente isto: comum. Muito, muito simples. Mas não se vê. Entende que o mundo está impregnado de falácias e raciocínios indutivos que descarrilharam em algum momento da rota? Pessoalmente, culpo a linguagem e o discurso lógico por cobrir tudo com excessos. Abstraíram demais perdendo a essência da mensagem, apenas supondo resultados e possibilidades. Sacode-se o mundo com uma tsunami, um tremor tectônico ou o estouro de uma represa que é possível se livrar de tudo isso que está atarrachado ao homem, e fica apenas aquilo que de mais simples e verdadeiro há por aqui.
Maldito o dia em que um anjo pousou sobre meu travesseiro, afastou meus cabelos e suspirou dentro de minha cabeça. Entortaste minha linha reta! Mas desta vez é diferente, conquanto não me apontaste a direção, apenas me afastaste da realidade. Que faço eu sem provas, sem ideais, sem chão? Tudo o que porto agora é uma verdadeira indisposição às mentiras, e para ser sincera, estou cansada de ler nos rostos alheios duplos sentidos e meias-palavras, ou flagrar incoerências em seus colóquios. Eu esperava era mais. Eu esperava aquilo que um anjo não pôde me semear. Eu queria a verdade, algo sério para acreditar. Já degustei muito bute pra quem nunca teve uma verdade para cobrir o próprio corpo. E, enfim, descansar.
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