Eu sei que você queria muito me conhecer, e sei que pareço diferente agora. Não é uma aparência que escolhi adotar, mas foi a que me permitia transitar sem ser reconhecida. Você mesmo não me reconheceu quando viu, lembra?
As pessoas querem me fotografar, guardar uma lembrança minha, sei lá. Quanto menos me conhecem, mais me revelo. Me desenovelo para pescá-las, como a pontinha do fio entre os dedos do gatinho. Eu sou como um espelho; quanto mais quiseres me conhecer, mais me ocultarei em ti. Porque as pessoas não conhecem as outras senão para se projetarem e verem a si próprias. Laços são atados quando duas pessoas conseguem se ver na outra, e tomar-lhe o lugar.
Eu estou na virada do segundo, à espreita, entre cada vão momento imitando seus gestos sem pudor. Falando assim, eu sei que assusta. Mas se quiser mesmo me conhecer, é assim, tem que relaxar bem a vista e inibir qualquer sensibilidade equivocada para, talvez, enxergar-me como sou, o óbvio.
14 de mai. de 2010
12 de mai. de 2010
Egoísmo
Talvez o aprendizado mais importante que tive esse tempo todo foi a ser um pouco mais egoísta. Não posso dizer que seja algo admirável, nem poderia culpar alguém por ter chegado a isso.
Se eu pequei? Não, não é bem isso. Me humanizei de uma forma um tanto súbita, numa queda que incomodou, sim, os joelhos. Quando algo traz seus pés ao chão e você calça a terra que lhe foi designada, algo concreto acontece, palpável como você sempre quis que todas as coisas fossem.
Você descobre que o rumo que sua vida toma foi você quem deu a ela, e que se você tivesse pensado um pouquinho mais em si mesmo, você estaria um pouquinho mais perto das coisas que gosta.
Eu acho que no fundo eu gosto de não andar em linha reta, de me perder sem achar, de ganhar sem saber... Eu acho que cheguei a outro breaking point na minha vida, no exato segundo em que o enunciei.
O segredo do mundo, descobrirei, é calçar a terra sem criar raízes (e olhar bem onde vai pisar).
Se eu pequei? Não, não é bem isso. Me humanizei de uma forma um tanto súbita, numa queda que incomodou, sim, os joelhos. Quando algo traz seus pés ao chão e você calça a terra que lhe foi designada, algo concreto acontece, palpável como você sempre quis que todas as coisas fossem.
Você descobre que o rumo que sua vida toma foi você quem deu a ela, e que se você tivesse pensado um pouquinho mais em si mesmo, você estaria um pouquinho mais perto das coisas que gosta.
Eu acho que no fundo eu gosto de não andar em linha reta, de me perder sem achar, de ganhar sem saber... Eu acho que cheguei a outro breaking point na minha vida, no exato segundo em que o enunciei.
O segredo do mundo, descobrirei, é calçar a terra sem criar raízes (e olhar bem onde vai pisar).
9 de mai. de 2010
Tato
Que são essas fotografias que me mastigam?
Eu laceio e cedo;
Fustigo por medo de um novo flash,
receio
que a novidade não será assim tão inédita
São sentimentos devolutos, recíprocos,
sem freio:
é de se esperar que logo me esqueçam.
Haverá outro dia, e com ele outra noite
nos quais tardarei a adormecer
sem fustigos ou açoites.
Eu laceio, e cedo.
Eu laceio e cedo;
Fustigo por medo de um novo flash,
receio
que a novidade não será assim tão inédita
São sentimentos devolutos, recíprocos,
sem freio:
é de se esperar que logo me esqueçam.
Haverá outro dia, e com ele outra noite
nos quais tardarei a adormecer
sem fustigos ou açoites.
Eu laceio, e cedo.
Ensaio sobre preconceito
Agora entendo um pouco mais como o seu mundo é preto-e-branco, urbanamente sólido. E claustrofóbico, horrendamente natural, ricamente bizarro, e especialmente efêmero, feito luzes e cores exuberantes em Tóquio. É a decadência do que há de mais bonito no ser humano: sua estável mobilidade, sua adaptabilidade para a adequação, sua garra por mudanças positivas... sua capacidade de abrir espaço para o amor, e encontrar em outro o seu molde.
Quando os morcegos saem de suas cavernas, ninguém deixa de olhar, por mais indiscreto que seja. O que chama mais a atenção é a maquiagem despojada, sem pudor ou medo de excessos. É uma ameaça aos normais, um palavrão para seus olhos, poluição que fere suas córneas, um absurdo! Nenhum morcego sequer replicou as críticas que ninguém fez, mas capturou cada mente ao seu redor com sua linguagem, sua arte. Mas só o que lhe importa mesmo é a competição interna pelo melhor figurino.
Alguns levaram horas para se montarem e enfim, cada um a seu modo, se libertar das arrogâncias do dia-a-dia, dos olhares desdenhosos rotineiros, da incompreensão dos mais íntimos, da própria vontade de não ser como lhe pedem que seja. Nessa hora, cada um a sua forma, deixa de ser um morcego dos outros, para ser sua própria borboleta de cada noite.
Pouco a pouco, dissolvem-se as tribos e descolam-se os rótulos das embalagens, nunca antes foi possível, como agora, explorar a própria imagem social ao bel-prazer. Um dia o preconceito vai ser tão absurdo como relembrar a desigualdade sexual. Ser o que se é e fazer o que gosta NUNCA deveria ser uma causa ativista, muito menos um tema de debate social, pois o que tange o indivíduo não pertence à sociedade; o que o indivíduo exporta de si, sim, deve pertencer a todos.
As pessoas guardam medo no íntimo, exportam-no frigidamente na forma de conceitos que à primeira instância parecem óbvios. Cada um exerce o cargo de psicólogo que lhe cabe, e acaba, por assim dizer, diagnosticando erroneamente o adverso como um distúrbio. Talvez o seja mesmo, mas indigno de correções. Somos humanos há tanto tempo, e ainda assim não sabemos lidar com a diversidade?
"Acho... que prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis, a uma vida gasta evitando a dúvida moral." Neil Gaiman
Para Chris... meu Teddy Bear!
7 de mai. de 2010
Diziam os dias
O cheiro do corredor que se estreitava por debaixo da porta selou sua camisa de botão com um longo abraço pelas suas costas. Na saída, o desfile de pés sapateando sobre o piso lustrado. Ele nem sabia que o tinha como uma sombra, costurado aos seus calcanhares e revolvido em seus ombros largos.
Tão logo desceu as escadas do prédio, invadiu a rua. Com apenas um pisante já podia se sentir embarcando entre os passantes, e o cheiro de corredor, um tanto ocre, sentou-se triste ao lado do portão. Seria o primeiro a levantar pela manhã, esperando um dono para lhe libertar da inexistência. Solitude é isso, beirar o perigo de não existir.
Aquele mesmo menino deixou-se levar pelas ruas. Sem muito ponderar, gemia um refrão irritante para descontrair; naquela hora, não era preciso pensar em mais nada, a não ser no verso seguinte. O mais imediato deles que lhe surgisse, de todos esses já cantarolados, seria o único a ser lembrado junto à porta de casa, durante a procura das chaves.
Ele não era necessário, tão pouco preciso; nem ninguém que passasse por aquele garoto lhe importava. Seus cadernos não precisavam constar datas. Nesse obtuso momento ele era único porque era nada, mensurando essa eternidade até que estivesse pronto para partir, ou chegar.
O fato de não enxergar muito bem as coisas ao longe não lhe era incômodo, o letreiro do ônibus lhe fazia sinal; bastava esticar as mãos para alcançá-lo. Mas a espera, essa sim era a melhor parte do dia! Enche o espírito de vontade que dá até gosto, especialmente no final do dia quando tudo parece ter pressa de terminar, de chegar, de sumir. Nada mais cômodo do que deixar ser levado numa corrida contra o tempo até o fim da linha.
Dentro da melodia agridoce que pululava em sua mente todos os sons poderiam se encaixar, se assim quisessem: o rangido das molas dos assentos se condensavam com violinos, o trepidar do chão metálico conferia margens para o ritmo se recostar, os murmurinhos abafados desembocavam as palavras que ninguém se atreveria a dizer - mas que não escapam aos ouvidos de quem merece escutar. O cobrador, lançado para frente e para trás em seu assento buliçoso, dançava conforme a música graciosamente.
Amanhã seria um novo dia, pensava ele. A manhã, tão receosa de começar, tão preguiçosa, arrastaria-o para fora do infinito, encurtaria a eternidade para findar o enfadonho ato de ser, e mais do que isso, o ingrato ato de viver ininterruptamente. E o cheiro de corredor, mais uma vez, lhe percorreria o corpo em festa, despertando a instintiva aversão às manhãs, ao recomeço, ao processo todo.
Tão logo desceu as escadas do prédio, invadiu a rua. Com apenas um pisante já podia se sentir embarcando entre os passantes, e o cheiro de corredor, um tanto ocre, sentou-se triste ao lado do portão. Seria o primeiro a levantar pela manhã, esperando um dono para lhe libertar da inexistência. Solitude é isso, beirar o perigo de não existir.
Aquele mesmo menino deixou-se levar pelas ruas. Sem muito ponderar, gemia um refrão irritante para descontrair; naquela hora, não era preciso pensar em mais nada, a não ser no verso seguinte. O mais imediato deles que lhe surgisse, de todos esses já cantarolados, seria o único a ser lembrado junto à porta de casa, durante a procura das chaves.
Ele não era necessário, tão pouco preciso; nem ninguém que passasse por aquele garoto lhe importava. Seus cadernos não precisavam constar datas. Nesse obtuso momento ele era único porque era nada, mensurando essa eternidade até que estivesse pronto para partir, ou chegar.
O fato de não enxergar muito bem as coisas ao longe não lhe era incômodo, o letreiro do ônibus lhe fazia sinal; bastava esticar as mãos para alcançá-lo. Mas a espera, essa sim era a melhor parte do dia! Enche o espírito de vontade que dá até gosto, especialmente no final do dia quando tudo parece ter pressa de terminar, de chegar, de sumir. Nada mais cômodo do que deixar ser levado numa corrida contra o tempo até o fim da linha.
Dentro da melodia agridoce que pululava em sua mente todos os sons poderiam se encaixar, se assim quisessem: o rangido das molas dos assentos se condensavam com violinos, o trepidar do chão metálico conferia margens para o ritmo se recostar, os murmurinhos abafados desembocavam as palavras que ninguém se atreveria a dizer - mas que não escapam aos ouvidos de quem merece escutar. O cobrador, lançado para frente e para trás em seu assento buliçoso, dançava conforme a música graciosamente.
Amanhã seria um novo dia, pensava ele. A manhã, tão receosa de começar, tão preguiçosa, arrastaria-o para fora do infinito, encurtaria a eternidade para findar o enfadonho ato de ser, e mais do que isso, o ingrato ato de viver ininterruptamente. E o cheiro de corredor, mais uma vez, lhe percorreria o corpo em festa, despertando a instintiva aversão às manhãs, ao recomeço, ao processo todo.
4 de mai. de 2010
2 de mai. de 2010
Domingo
Domingo na casa da vó,
todos os sons estagnaram
no portão, a campainha, se pudesse,
selaria seus botões.
Tenho medo.
Silêncio se faz ao redor,
parentes se cumprimentam
com gelo.
Uma afável senhora desvia
os olhares, aperta cada neto
junto ao peito, aos pares
e dispõe-nos ao redor de um leito,
Feito presépio, berço de seu desespero,
ela chora, quase todo o tempo.
Pouco sei sobre esse homem
e agora não tem jeito.
todos os sons estagnaram
no portão, a campainha, se pudesse,
selaria seus botões.
Tenho medo.
Silêncio se faz ao redor,
parentes se cumprimentam
com gelo.
Uma afável senhora desvia
os olhares, aperta cada neto
junto ao peito, aos pares
e dispõe-nos ao redor de um leito,
Feito presépio, berço de seu desespero,
ela chora, quase todo o tempo.
Pouco sei sobre esse homem
e agora não tem jeito.
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