O cheiro do corredor que se estreitava por debaixo da porta selou sua camisa de botão com um longo abraço pelas suas costas. Na saída, o desfile de pés sapateando sobre o piso lustrado. Ele nem sabia que o tinha como uma sombra, costurado aos seus calcanhares e revolvido em seus ombros largos.
Tão logo desceu as escadas do prédio, invadiu a rua. Com apenas um pisante já podia se sentir embarcando entre os passantes, e o cheiro de corredor, um tanto ocre, sentou-se triste ao lado do portão. Seria o primeiro a levantar pela manhã, esperando um dono para lhe libertar da inexistência. Solitude é isso, beirar o perigo de não existir.
Aquele mesmo menino deixou-se levar pelas ruas. Sem muito ponderar, gemia um refrão irritante para descontrair; naquela hora, não era preciso pensar em mais nada, a não ser no verso seguinte. O mais imediato deles que lhe surgisse, de todos esses já cantarolados, seria o único a ser lembrado junto à porta de casa, durante a procura das chaves.
Ele não era necessário, tão pouco preciso; nem ninguém que passasse por aquele garoto lhe importava. Seus cadernos não precisavam constar datas. Nesse obtuso momento ele era único porque era nada, mensurando essa eternidade até que estivesse pronto para partir, ou chegar.
O fato de não enxergar muito bem as coisas ao longe não lhe era incômodo, o letreiro do ônibus lhe fazia sinal; bastava esticar as mãos para alcançá-lo. Mas a espera, essa sim era a melhor parte do dia! Enche o espírito de vontade que dá até gosto, especialmente no final do dia quando tudo parece ter pressa de terminar, de chegar, de sumir. Nada mais cômodo do que deixar ser levado numa corrida contra o tempo até o fim da linha.
Dentro da melodia agridoce que pululava em sua mente todos os sons poderiam se encaixar, se assim quisessem: o rangido das molas dos assentos se condensavam com violinos, o trepidar do chão metálico conferia margens para o ritmo se recostar, os murmurinhos abafados desembocavam as palavras que ninguém se atreveria a dizer - mas que não escapam aos ouvidos de quem merece escutar. O cobrador, lançado para frente e para trás em seu assento buliçoso, dançava conforme a música graciosamente.
Amanhã seria um novo dia, pensava ele. A manhã, tão receosa de começar, tão preguiçosa, arrastaria-o para fora do infinito, encurtaria a eternidade para findar o enfadonho ato de ser, e mais do que isso, o ingrato ato de viver ininterruptamente. E o cheiro de corredor, mais uma vez, lhe percorreria o corpo em festa, despertando a instintiva aversão às manhãs, ao recomeço, ao processo todo.
Adorei!
ResponderExcluirA escolha de palavras,o ritmo da narrativa,incrível!