Eu sei que você queria muito me conhecer, e sei que pareço diferente agora. Não é uma aparência que escolhi adotar, mas foi a que me permitia transitar sem ser reconhecida. Você mesmo não me reconheceu quando viu, lembra?
As pessoas querem me fotografar, guardar uma lembrança minha, sei lá. Quanto menos me conhecem, mais me revelo. Me desenovelo para pescá-las, como a pontinha do fio entre os dedos do gatinho. Eu sou como um espelho; quanto mais quiseres me conhecer, mais me ocultarei em ti. Porque as pessoas não conhecem as outras senão para se projetarem e verem a si próprias. Laços são atados quando duas pessoas conseguem se ver na outra, e tomar-lhe o lugar.
Eu estou na virada do segundo, à espreita, entre cada vão momento imitando seus gestos sem pudor. Falando assim, eu sei que assusta. Mas se quiser mesmo me conhecer, é assim, tem que relaxar bem a vista e inibir qualquer sensibilidade equivocada para, talvez, enxergar-me como sou, o óbvio.
Incrível.
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