9 de mai. de 2010

Ensaio sobre preconceito



Agora entendo um pouco mais como o seu mundo é preto-e-branco, urbanamente sólido. E claustrofóbico, horrendamente natural, ricamente bizarro, e especialmente efêmero, feito luzes e cores exuberantes em Tóquio. É a decadência do que há de mais bonito no ser humano: sua estável mobilidade, sua adaptabilidade para a adequação, sua garra por mudanças positivas... sua capacidade de abrir espaço para o amor, e encontrar em outro o seu molde.
Quando os morcegos saem de suas cavernas, ninguém deixa de olhar, por mais indiscreto que seja. O que chama mais a atenção é a maquiagem despojada, sem pudor ou medo de excessos. É uma ameaça aos normais, um palavrão para seus olhos, poluição que fere suas córneas, um absurdo! Nenhum morcego sequer replicou as críticas que ninguém fez, mas capturou cada mente ao seu redor com sua linguagem, sua arte. Mas só o que lhe importa mesmo é a competição interna pelo melhor figurino.
Alguns levaram horas para se montarem e enfim, cada um a seu modo, se libertar das arrogâncias do dia-a-dia, dos olhares desdenhosos rotineiros, da incompreensão dos mais íntimos, da própria vontade de não ser como lhe pedem que seja. Nessa hora, cada um a sua forma, deixa de ser um morcego dos outros, para ser sua própria borboleta de cada noite.

Pouco a pouco, dissolvem-se as tribos e descolam-se os rótulos das embalagens, nunca antes foi possível, como agora, explorar a própria imagem social ao bel-prazer. Um dia o preconceito vai ser tão absurdo como relembrar a desigualdade sexual. Ser o que se é e fazer o que gosta NUNCA deveria ser uma causa ativista, muito menos um tema de debate social, pois o que tange o indivíduo não pertence à sociedade; o que o indivíduo exporta de si, sim, deve pertencer a todos.
As pessoas guardam medo no íntimo, exportam-no frigidamente na forma de conceitos que à primeira instância parecem óbvios. Cada um exerce o cargo de psicólogo que lhe cabe, e acaba, por assim dizer, diagnosticando erroneamente o adverso como um distúrbio. Talvez o seja mesmo, mas indigno de correções. Somos humanos há tanto tempo, e ainda assim não sabemos lidar com a diversidade?


"Acho... que prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis, a uma vida gasta evitando a dúvida moral." Neil Gaiman


Para Chris... meu Teddy Bear! 

Um comentário:

  1. INCRÍVEL!

    Gostei da firme delicadeza,da objetividade. Falou muito através de lindas metáforas.

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