_São uns porcos, exibindo seus corpinhos que ninguém quer ver, cheios de óleo, suados, nojentos! Quero dizer, são apenas corpos, todo mundo tem um! Mas eles, não, eles... - sua amiga, certo número de anos mais velha, apenas acenou com a cabeça.
Virgínia definitivamente era mais nova que sua companheira, que impecavelmente não deixava fios brancos à mostra como sua amiga indiscreta, cujos cabelos negros e naturais pareciam realçar os fios prateados que vinham à superfície com o vento da janela a sua frente. O homem ali sentado não disse nada, apenas olhou de relance para trás quando Virgínia empurrou bruscamente o vidro e fechou-o. Ela era magra, tinha dedos e punhos magros, rosto fino e delicado, nariz reto e pontudo, como se terminasse com um dedo apontando para frente. Nada ali chamou a atenção do passageiro, exceto quando ela resolvia abrir a boca. A voz daquela mulher era baixa, calma e ritmada, mas ainda assim se destacava em qualquer ambiente devido à altura ridiculamente aguda. Bastava Virgínia abrir a boca, em qualquer lugar, para se tornar incômoda. E como se não bastasse, enunciava seu discurso apenas para preencher o mundo com observações inúteis, e por vezes sem sentido. Parecia estar sempre falando com uma criança ao acrescentar diminutivos às palavras, ainda mais quando interrompia um assunto com frases óbvias. Ela era óbvia, mas como sua aparência, tolerável. Era fácil adivinhar no que estava pensando apenas com um olhar para a sua fisionomia. Nada de interessante.
Passados alguns minutos em silêncio introspectivo, cutuca sua companheira e deixa se recostar sobre a janela, observando sua praia 'limpinha'.
_Dia de chuva é tão sozinho. Todo mundo se esconde, ninguém sai juntinho para um passeio. Puxa, ninguém se diverte! - Virgínia olhava para as gotas que desciam pelo vidro, com uma tristeza tão melancólica que foi azedar o rosto de sua amiga. Não bastava virar o rosto, essa senhora teve de torcer o pescoço para o outro lado, perpetuando seu silêncio surdo-mudo. Um passageiro na outra fileira riu como quem duvida do que acaba de escutar daquela mulher. Cruzou o olhar com a acompanhante de Virgínia, como se buscasse uma explicação para algo tão idiota, mas a senhora apenas manteve sua frieza olhando a janela oposta.
Mais uns metros à frente, e Virgínia cutuca a amiga novamente, dessa vez apontando para umas pedras lá longe:
_Não é incrível como nascem arvorizinhas nessas pedras no meio do mar? É tão bonitinha aquela ali... Aquela não, aquelas três! Deve ser o passarinho, né, que traz a sementinha, um pouquinho de terra, e planta ali, no meio do mar, né? Tão lindas essas plantinhas!
Discretamente, como quem vai trocar a marcha, o motorista esbarra no botão do painel que liga o rádio. Era uma estação de MPB tão relaxante que depois de seu fabuloso discurso, a insossa velha-moça nem notara a senhora que lhe acompanhava perguntar, com certo desdém, se Virgínia não fazia aquele caminho todos os dias pela praia.
Como se não esperasse uma resposta satisfatória de qualquer forma, logo em seguida se pôs a vasculhar a própria bolsa, em busca de algo irrecuperável.
A viagem prosseguiu. Embalados pelo ritmo da música brasileira naquele 'friozinho', os poucos passageiros que se encontravam naquele ônibus foram contagiados por nada mais do que a sonolência. O trocador descansava os tornozelos sobre a roleta, as molas de sua cadeira rugiam enquanto outro passageiro roncava. Até o motorista tirava seus eventuais cochilos.
Cansada de investigar a própria bolsa, a acompanhante fechou as pálpebras cansadas decidida a não ouvir mais nada, prudentemente. Estava farta, e brutalmente arrependida de ter aceitado o inocente convite para um passeio de Virgínia. Aquela mulher podia ser exaustiva; sua presença era até agradável para aquela senhora ao seu lado, até que Virgínia falasse. Era o tipo de pessoa que facilmente se passa por paisagem em um salão se não invocasse sua voz inconfundível. Virgínia, por outro lado, imaginava a necessidade da amiga de ter alguém para conversar, justamente por achá-la calada demais. Imaginava ainda que fosse o tipo de pessoa abandonada pelos filhos durante a velhice, e que passear com aquela senhora era um ato de altruísmo. Quando notou sua acompanhante com os olhos abertos outra vez, provavelmente tentando se localizar, não hesitou em dizer, um tanto irritada e fora de si:
_ Esse prédio já foi tantas coisas! Já foi horti-fruti, imobiliária, lojinha de neném, agora tá fechado de novo! Que ridículo!
Todos no recinto suspiraram, já saudosos do silêncio. O ônibus parou em um ponto e abriu as portas, esperando alguém descer. Um vento frio soprou pelo corredor e encheu os pulmões de nossa encarecida senhora:
_ Quem liga?! é só um prédio, pelo amor de Deus! Você tá sempre falando, sempre cutucandom não percebe? Ninguém se importa com o que você pensa! Cada um faz o que quiser com o corpo, com o prédio ou com seu dia de chuva! Você tá sempre falando, e olham o tempo todo só para a sua estupidez! E eu? Sequer se perguntam quem eu sou, sequer me descrevem! E eu, Virgínia? E eu?!
A senhora se levantou e foi se sentar em outro banco. O único movimento brusco dentro do ônibus era o do vento frio circulando entre os assentos. Aquela senhora, aquela bela senhora, era loira, elegante. Como se poderia esquecer? Levemente maquiada, se chamava...
Ela me lembrou a minha avó. Só que ela sempre me impressiona de alguma forma quando eu acho que está tudo perdido.
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